COIMBRA NO MUNDO | Macau

Nasci há 46 anos na antiga Daniel de Matos, a dois passos do Penedo da Saudade e do Jardim Botânico. E daí fui ser filho único para o então justamente chamado Bairro da Boa Esperança, em Santa Clara.

Eram seis blocos de construção recente, habitados por muitos casais jovens e sua vasta prole. Misturavam-se ali classes sociais muito distintas; advogados, médicos e até membros da Brigada Victor Jara viviam paredes meias com trabalhadores do comércio, taxistas e funcionários públicos (esta designação genérica foi a que me ensinaram a escrever nas fichas da escola quando se inquiria sobre a profissão dos pais… podia servir para tudo, desde servente a professor ou director de serviços).

No Portugal pós-25 de Abril, e particularmente numa cidade estatizada como é Coimbra, esta mistura de classes sociais era habitual. Tenho uma família que reflecte isso: O meu avô materno foi pescador e mestre de traineiras em Buarcos; o paterno era médico e, durante muitos anos, director do Hospital Rovisco Pais, na Tocha. As vivências que tenho de Coimbra são necessariamente mais complexas do que as das pessoas que foram lá fazer a universidade e aprender a ser adultas. São menos esfusiantes do que essas. Para mim, Coimbra tem várias idades.
A minha infância foi ainda razoavelmente analógica, por assim dizer. Tirando a televisão e o telefone preto de disco na mesinha do hall, não havia dispositivos electrónicos (o ZX Spectrum apareceu no bairro muito depois) e brincávamos
muito na rua, sem vigilância parental, à solta. Havia as futeboladas no largo inclinado, num tempo em que por lá passava um carro de hora a hora. Púnhamos uns paralelepípedos a fazer de limites para a baliza, distanciados por três passos de menino. Havia até quem imitasse os relatos da rádio, gritando golos operáticos. As férias de Verão prolongavam-se por três meses de canícula.

Para os putos do bairro, eram assoladas por um desafio que viria a ser recorrente em Coimbra: Não havia o que fazer, inventava-se. A imaginação da criança não tem freio e todas as possibilidades são exploradas. Nas longas tardes de estio, pegávamos em placas de esferovite a que incrustávamos caricas e fazíamos os computadores de bordo de naves espaciais, tal como víamos nas séries televisivas americanas. Noutras ocasiões imitávamos os filmes de cowboys e índios em voga, munidos de coldres e pistolas com fulminantes. Íamos para casa uns dos outros brincar com soldadinhos, jogos de tabuleiro e pistas eléctricas. Ou organizávamos corridas de bicicleta e de carrinhos de rolamentos que redundavam em quedas aparatosas, joelhos esmurrados e cabeças partidas. Santa Clara não tinha nem metade dos prédios actuais, havia muitas matas por onde deambular, trepando às árvores para comer ameixas. Um pouco mais velhos, íamos em trupe ao Choupal ou apanhávamos o 7 para
passar dias a banhos nas piscinas municipais, onde agora está o topo Norte do Estádio do Calhabé. Não me dei bem na adaptação inicial à escola e os meus pais acharam por bem mudar-me das Almas de Freire para o Colégio Menino Jesus, em Celas. Foi como da noite para o dia e ali aprendi a gostar de escrever em português.

A adolescência marca outra fase coimbrã, quando o quarto de infância ficou encolhido e desconfortável.

Como todos os adolescentes, almejava por ser aceite entre pares tal como não era(mos), fazia planos imprecisos. Tempo necessariamente de inadaptação. Para um Coimbrinha, a universidade está ali à mão, basta subir a Couraça de Lisboa, onde meus bisavós tinham casa. Os que são criados em Coimbra têm sorte porque lá abundam as boas escolas e professores. É um sítio formativo e de cultura, onde se tem acesso a todos os livros que se quiser, concertos, alguma arte. E a universidade é um dado adquirido. Comecei a gostar da universidade por causa da Académica, que é muito mais do
que um clube desportivo (no qual joguei em várias modalidades) ou uma associação de estudantes com secções culturais (idem idem). Para mim, a briosa é um almejo, uma postura na vida, até um estado de espírito. A gente tenta ser
briosos, a gente nem sempre consegue ou pode sê-lo.

Briosa

No topo norte eu, imberbe, esperava
que o porteiro deixasse entrar os putos
Por entre as grades, bancadas semi-vazias
Escutava expectante os bruás do público
sonhando com sempre raros golos nossos
O porteiro, altivo, que esperássemos mais
e, já penalizados, os borlistas do Calhabé
lá entravam no municipal p’lo intervalo
Não éramos muitos
eu, o único de Santa Clara
A Académica jogava quase sempre mal
perdia muitas vezes
mas isso não diminuía a esperança
os gritos por bri o sa
da bancada dos tesos para a coberta
os insultos ao árbitro e à tia
O louro Barry chutava
Ohhhhhh, ao lado
mas não importava
aprendíamos a perder
sonhávamos com a primeira divisão
e dizíamos “sou daqui”
não havia mais o que fazer

Ainda liceal, já participava nas memoráveis Noites do Parque Manuel Braga, com palco montado junto ao coreto e, mais tarde, na zona de estacionamento, no actual Parque Verde do Mondego.

Durante uma semana, Coimbra era a celebração da boémia estudantil. E depois acabam-se as aulas, há estações em que a cidade se esvazia. Desaparecem os formados, surgem novas faces que se sucedem ano após ano. Esta transitoriedade faz com quem permanece para lá da festa se sinta como que abandonado, traído, deixado para trás. Subir à Faculdade de Letras foi um passo natural. Para os de Coimbra é uma continuidade e não uma ruptura, como o é para os que vêm de fora. Não se sai de casa dos pais. Mas o ambiente que encontrei na FLUC, onde ingressei em 1993 na recém-criada licenciatura em jornalismo, foi decisivo. Já em tempo e lugar de escolhas electivas, fiz para a vida um núcleo duro de amigos vindo dos quatro cantos do país. Houve frustração com a universidade, que começava a apresentar então um quadro de docentes e alunos mais regional (o Erasmus ainda não era comum), estando por vezes longe de ser a referência que a sua história merecia. Mas também tive acesso a mestres excelentes, que me ajudaram a pensar melhor. Associei-me a grupos como a secção de jornalismo da AAC e os poetas da rascunho. Tudo isso moldou o futuro. E, como as bibliotecas de Coimbra têm o que há para ler, havia tempo para os livros que apetecesse. Recorrendo principalmente à biblioteca municipal da Sereia, lia compulsivamente e julgava até entender obras maçudas como o Ser e o Nada ou A Bela do Senhor, que não eram nem para a minha idade, nem para a minha condição.

Tinha um circuito de cafés que frequentava a horas diferentes do dia, munido de livros e cigarros.

Depois de almoço passaria pelo belíssimo Santa Cruz, que é uma antiga sacristia e tem uma aura intemporal, quase religiosa. Era como ir à missa vespertina. A meio da tarde subia à Sá da Bandeira e instalava-me no elegante foyer do Gil Vicente, transitando depois para o Tropical ou para a esplanada do Justiça e Paz, com vista para o Mondego e para o Botânico. E às quintas-feiras a soirée passava-se no States, a ouvir a cassete pop-rock e a piscar o olho às freaks do José Falcão, que preferiam namorar os rockabillies. O som era bom, só superado localmente pelos programas enciclopédicos do Braga na RUC. Era uma vida de cafés e de fazer tempo. E Coimbra já constrangia, embora também fosse uma redoma enganosamente protectora. Planeava fugas sentado em bancos de jardim e esplanadas desertas, muitas vezes desolado com o
impasse em que estava, intuindo que a cidade já se tinha cumprido para mim, que não havia ali terra fértil, um futuro em que pudesse ser autónomo e feliz. Um estado de espírito que fixei neste poema publicado no Diário de Coimbra, que
escrevi a meias com o Ricardo Marques, grande amigo conimbricense:

Coimbra II

Coimbra fede a mofo e a batina
Coimbra Porta Férrea ferrugenta
Coimbra metes nojo estudantina
Coimbra dos doutores salazarenta

Coimbra lá no fado pasmada
Coimbra vetusta Cabra atrasada
Coimbra eferreá eferreí
Coimbra xiribitátátátá
Coimbra, adoro praguejar! Coimbra...

Em 1998 comecei a trabalhar como jornalista estagiário em Lisboa. Gradualmente, Coimbra foi-se transformando numa espécie de retiro, onde vinha passar alguns fins de semana longe do bulício relativo da capital, revisitando a família e flanando pelos locais da moda.

Lia muito e ainda tinha assento numa tertúlia Coimbrã composta por amigos que por lá permaneciam a concluir os estudos. Lisboa, com a sua largueza de rio, com aquela luz de equador, foi casa durante 10 anos. A cidade foi-me conquistando e continuo a achá-la das mais bonitas do mundo, embora esteja longe de semelhante classe em termos de qualidade de vida. Sucede o mesmo com a maior parte dos locais bonitos. Foi na capital que conheci as redacções e percebi melhor como operam os vários poderes que manipulam Portugal. Nesta fase de Lisboa ganhei o hábito de viajar. Percorri a Europa, passei temporadas fora (na Índia e na Holanda), escrevendo sobre esses périplos para jornais portugueses. Viajar tornou-se num vício que continuo a alimentar sempre que posso. Em 2008 já se antevia o confisco que viria a abalar o país e oportunamente surgiu o convite para ir trabalhar num jornal na longínqua Macau, sobre a qual não sabia praticamente nada. Meti-me no avião decidido a não voltar para trás. Entretanto passaram 12 anos.

Tiro fotos da minha terra para mostrar às pessoas do outro lado do mundo.

Quando a revisito, parece-me que Coimbra já não é aquele sítio estagnado dos anos 90. Mas os progressos foram modestos, maioritariamente impostos de fora (a internet revolucionou o mundo, etc.) e talvez mais cosméticos do que outra coisa. Tal como o país, a cidade é ciclotímica e melancólica, mesmo nas suas manifestações modernas. Tem dias de Inverno em que parece que se transformou num centro comercial cabisbaixo, uniforme. A baixa de Coimbra já não é felizmente o ex-libris do anquilosado comércio local e está virada para o souvenir turístico e até para as casas de fado. Quando revisito a minha cidade, gosto de voltar aos sítios preferidos (ruelas da Alta, Praça da República, Quebra Costas, Couraça de Lisboa, jardins vários, cafés e bares), onde já não reconheço ninguém.

Agora quando volto
quando é raro voltar e sempre por um dia
estou à minha espera na Ponte de Santa Clara
com um ramo que levanto
à aproximação do carro
(excerto de “Canção do Ano 86”, de Fernando Assis Pacheco)

Numa noite pacata de fim de Agosto, vejo que os murais nas paredes da Padre António Vieira mostram a adolescência do sítio: Há inscrições anti-praxe (como se isso interessasse), anti-capitalismo, anti-sistema e até um garrafal essa vulva é minha.

Permanecem os problemas estruturais, que fazem com que Coimbra seja, muitas vezes, ingrata para os que nela nasceram. Sem querer ou por vontade própria, a maioria dos que lá se formam parte para ganhar a vida alhures. Ganhar sustento e perder Coimbra, metê-la num baú de memórias. A cidade fica sem muitos dos seus potenciais empreendedores, sempre foi assim. Coimbra, tal como Macau, é um sítio desequilibrado, muito dependente de uma
só indústria - a educação –, com as consequências negativas disso. Macau é o grande casino do mundo, Coimbra, um campus gigantesco que continua sem ter uma pujante vida própria para além da universidade. Tirando os que vêm do
estrangeiro ou das ilhas, os próprios estudantes já não vivem em Coimbra. A melhoria da rede de transportes do país faz com que lá passem metade da semana, entre terça e quinta. São passageiros em busca do canudo. E nisso se podem equiparar aos magotes de turistas em Macau. Ambos são como a seiva que alimenta a economia local. A maioria passa sem deixar rasto. Permaneço um observador atento da cidade, onde vivem a minha mãe e alguns resilientes amigos.

O Bairro da Boa Esperança acabou, há muito que virou Praceta José Campos Contente. Tem muito menos graça, envelheceu sem ilusões. Ainda lá está o quarto de infância, repleto de objectos das minhas diferentes
idades e agora com postais que vou mandando para casa dos sítios longínquos por onde passei. Nos dias de hoje, para mim, Coimbra é essencialmente um sítio de nostalgia, de dores e prazeres enterrados. Julgo que sou um saudosista contrariado, gostava que parte disso vivesse ainda. Cada vez que volto lá ou à Figueira (a minha outra cidade, de onde é a minha família materna) constato com agrado que, para os padrões brutalistas chineses, ambas quase não mudam. Têm uma identidade que se construiu lentamente e não por decreto. São sítios velhos e aprecio disso.

O que foi e é Macau para mim? Com certeza que é um sítio extremamente importante, que me acolheu generosamente e onde nasceram os meus dois filhos.

A sua centralidade na Ásia permitiu-me visitar o fantástico leste asiático, desde o Japão a Bali, passando pela Tailândia, Vietname e vários outros países de um exotismo incrível. Mas Macau parece ser um local cada vez mais sem alma, emparedado, dominado pela avareza, novo-riquismo e falta de gosto. O progresso é quase sinónimo de construção. E grande parte das coisas de que gostava aqui ou estão degradadas, ou já não são possíveis dada a massificação. Mesmo o seu proverbial charme de bas fond está um pouco esterilizado, perdido no comércio. A liberdade já não é o que era. Há desalento quando se imagina o que uma cidade desta fortuna podia ser. Por muito que os mistificadores apregoem, a Macau de hoje é essencialmente um casino-bordel flutuante. Como não gosto de casinos nem de bordéis, é um sítio que às vezes estranho. Como julgo que estranharia qualquer outro sítio. Parafraseando Baudelaire, para gajos como eu o domicílio acaba sempre por ser um horror. O que talvez inquiete os portugueses que cá vivem há décadas é que, para quase todos, isto não é entendido como uma morada permanente (ia escrever definitiva, mas definitivos são os cemitérios… e nem esses). Estamos aqui por expediente sínico, mas isto sempre foi um porto de abrigo e um entreposto. Trocam-se sangue, sémen e dinheiro. Toda a gente em casa aqui. Ninguém em casa aqui.

Paulo Barbosa

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