Explorar as Aldeias Históricas | Castelo Mendo

Outono adentro, continuamos em busca dos ares das Aldeias Históricas. De acesso fácil de carro a partir da A25, apenas a 25 km de Almeida e a 15 km da fronteira com Espanha, encontramos Castelo Mendo. Contávamos vê-la a sobressair no alto de uma colina, a rasgar as nuvens, e demos por ela no cimo, sim, mas rodeada de montes e vales. Com vestígios de ocupação desde a Idade do Bronze, hoje Castelo Mendo reflecte, em dois núcleos muralhados, a alma medieval do tempo de Reconquista Cristã e defesa fronteiriça da raia beirã até ao séc. XVII. 

Estacionámos do lado de fora da monumental Porta da Vila, guardada por dois Berrões - um casal de figuras zoomórficas graníticas, porcos ou javalis, que remontam aos séculos VI – I a.C. e que poderão estar ligadas ao culto religioso dos Vetões, povo celta pré-romano. Mesmo antes de entrar, percebemos que foram as terras de cultivo e pastagem da Devesa, fora de muralhas, que
sustentaram a população. Hoje, para além dos badalos que ainda se ouvem, mantém-se de pé as fontes de água e de mergulho (séc. XIII-XIV), o Alpendre de feira e o Calvário.

Arrabalde

Uns passos além da Barbacã, muralha dionisiana que ainda hoje conforta o burgo novo, deparamo-
nos com o largo onde, uma casa quinhentista de cara lavada admira há séculos a Igreja de São Vicente. Quem tiver a sorte de conseguir entrar, irá deparar-se com um 2 em 1: a igreja abriga a Capela Nossa Senhora da
Conceição. Em vez de seguirmos em frente, directamente para a apoteose, decidimos fazer o caminho pelas
ruelas laterais, confirmando que ouvir o instinto é o melhor que podemos fazer. Uma janela verde esconde o que outrora foi a casa da roda ou a roda dos enjeitados, onde eram deixados os recém-nascidos ao cuidado de instituições de caridade. Um olhar à frente, ao lado da Porta da Guarda, leva-nos a uma casa de decoração renascentista, com uma cruz e a inscrição SPES MEA DEVS (Minha Esperança é Deus), que a tradição oral diz ter sido o Hospital da Misericórdia. No entanto, o
Aron descoberto no interior (armário sagrado judaico onde se guardava a Torah) conta outra história, podendo ter sido um local de reunião de judeus em época em que não eram bem-vindos no território.

Para além das janelas e portas manuelinas que sobressaem, a torre mirante do grandioso Solar do
Fidalgo (séc. XIX) quase alcança a torre sineira da Igreja Matriz mas é desta última que conseguimos ver para lá dos telhados. É no centro da aldeia que este actual local de culto faz companhia a um dos mais altos pelourinhos da Beira Interior, baptizando o Largo onde se
encontram, vizinhos da casa de varanda alpendrada que também já foi escola primária. Dois pulinhos e damos com a antiga casa da Câmara, Cadeia e Tribunal, sobre a antiga muralha da cidadela. É aqui que, actualmente, se situa o posto de Turismo e o Museu dos Sabores, de cariz
etnográfico, mas só abrem de vez em quando. E é por cima da porta que nos deparamos com a Lenda do Mendo e da Menda: uma história de amor proibido gravada nas feições de duas gárgulas, em fachadas frente-a-frente, destinadas à separação e reconfortadas pelo olhar eterno. Os mais atentos verão que o casal ladeia a Porta D. Sancho que dá entrada na cidadela, mas
dela pouco resta.

Cidadela

Subindo pela Calçada Medieval, ladeada por ruínas de casas que formavam o aglomerado civil criado após foral de D. Sancho II, é como se abrissem as portas ao Sol. Ali está ela, a Igreja de Santa Maria do Castelo, no
alto a dominar o tempo e o silêncio. Construída no séc. XIII, há hoje ainda quem se lembre de rumar a ela para as suas preces. De ruínas de várias épocas e que falam em vários estilos, hoje o tecto é o céu e a dança do vento com os raios de Sol trazem-nos directamente a paz que este Templo transpira. Hoje podemos percorrê-la e fazê-la percorrer-nos os poros. Se levarem os 6 sentidos em alerta, não contem com apenas uns minutos para apreciar as pedras, os túmulos, os arcos ou o tecto Mudéjar da capela lateral. Depois de nos despedirmos deste lugar sagrado, vaguear entre muralhas, árvores e rochedos, pode trazer outras surpresas. É o caso da Sepultura do Fidalgo que, não tendo pago o soldo que devia, foi sentenciado a passar a eternidade neste local ermo. Nós achamos que não poderia ter ganho
melhor lotaria. 

Mais uns passos a Sul e entramos pela Porta do Castelinho, que nos leva ao núcleo mais antigo e alto da Cidadela. Este era o polo militar e daqui podemos ver as ruínas da Torre de Menagem e a Cisterna. E se nos aventurarmos pela abertura na muralha à frente, concluímos que é aqui que a visita bem pode terminar, numa contínua contemplação do melhor da Natureza e do Homem. As colinas e vales são recortados por trilhos esboçados por passadas intemporais e por muros tradicionais desenhados em pedra, em plena harmonia com o som das aves, o arvoredo autóctone e os lagos que a vista alcança. Muitos visitantes não saem, no entanto, sem pedir um desejo, mas só quem tem pontaria para acertar no Barroco dos Desejos é que o verá concretizado. Conseguem encontrá-lo?

Novos ventos?

Entre as pedras de granito das casas, saltam ao olhar os vasos com flores e as portas coloridas com numeração renovada, num testemunho de preocupação por não deixar esmorecer este lugar de traço tipicamente medieval. A paixão por cada pedra corre vivida nos olhos de quem a habita. São hoje cerca de 30 pessoas que vêem nos turistas a forma de esquecer por momentos a falta de apoio político no suporte às suas pedras. Entre as casas recuperadas e as abandonadas à sorte de futuros ventos que as ergam, percebemos este sabor agridoce na voz da população. Uma certeza levamos: a de que quem por aqui passa enriquece o espírito e é isso que levamos para a vida. Para os amantes de café, a lojinha de artesanato D. Sancho está ao dispor e para dormir, a recomendação é a Casa do Corro, uma pequena casa tradicional.

Texto e fotos: Inês Teixeira

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