DISCOOLGRAFIA | A libertação segundo From Atomic

Por Rui Ferreira

And it will be fine, and it will be alright
You let it out now, you stop feeding troubles

O meu primeiro contacto com os From Atomic aconteceu em Maio de 2018, quando vi pela primeira vez o videoclipe de Heaven’s Bless. A canção transportou-me para o melhor que a música dos anos oitenta nos deu, guitarras a lembrar os Cocteau Twins aqui e os House Of Love acolá, teclados com reminiscências de Bronski Beat e uma bateria que parecia ter sido gravada por Martin Hannett. Conseguia descortinar naquele aglomerado sonoro, laivos de Joy Division com pinceladas de Smiths, e até a estética do teledisco evocava a banda de Robin Guthrie e Elizabeth Fraser. Para uma banda em início de carreira, reflectir influências é quase inevitável e até saudável,
mas tanto melhor quando as referências são escolhidas a dedo.

No entanto, o que mais me impressionou naquele primeiro contacto foi a voz singular de Sofia Leonor aliada a uma maturidade lírica pouco frequente numa banda estreante. No mês seguinte surgiu outra canção, Better Than e veio confirmar as minhas primeiras
impressões quanto ao potencial da banda. Faltava o teste do concerto ao vivo, porque nem todos os artistas são capazes de transpor para o palco aquilo que os estúdios fabricam. A resposta surgiu em forma de presente natalício: a 22 de Dezembro de 2018, num Salão Brazil a
rebentar pelas costuras à espera dos explosivos Parkinsons, os From Atomic disseram presente e dissiparam as poucas dúvidas que restavam. Perante uma plateia ansiosa de rock avassalador, Sofia Leonor e Alberto Ferraz aqueceram as hostes com um concerto notável e irrepreensível.

Na véspera do concerto foi editada, pela Lux Records, a compilação A Date With Gliding Barnacles. Quem não se lembra da tempestade Leslie? Entre os muitos estragos provocados pela tempestade contam-se a destruição da antena do posto emissor da Rádio Universidade de Coimbra e as instalações do Gliding Barnacles. O Gliding Barnacles é um festival anual de surf e muito rock na Figueira da Foz. Victor Torpedo já tinha organizado um concerto no Teatrão para angariar fundos para ajudar estes amantes do rock, mas não ficou por aí. Decidiu
que podia fazer um disco cujas receitas revertessem para o Gliding Barnacles. Convidou bandas, fez o alinhamento, concebeu o grafismo e contou com o apoio da Lux Records. 

O CD trazia estreias e muitos inéditos de gente talentosa como Victor Torpedo, FUGLY, Thee Eviltones, Sunflowers, Subway Riders, The Parkinsons, 800 Gondomar, The Jack Shits, Slushy, YGGL, Ghost Hunt, Tracy Vandal, Wipeout Beat, Raquel Ralha & Pedro Renato, The Walks, Um
Gajo é Parvo, D3O, El Señor, Moon Preachers, Cosmonauts e NOBUNNY. Uma das estreias no disco foram os From Atomic com o tema Heaven’s Bless. Quando a banda entrou nos estúdios da Blue House para gravar um álbum de originais, o Jorri, dos A Jigsaw, perguntou-me se estava interessado em editar. Era como perguntar a um cego se
quer ver. A decisão estava tomada há muito tempo, os From Atomic fariam parte do catálogo da Lux Records.

2019 assistiu ao crescimento do grupo: terminaram as gravações do álbum Deliverance às mãos de Jorri e Henrique Toscano (Birds Are Indie) e com misturas e masterização de João Rui (A Jigsaw), e ao vivo mostravam-se cada vez mais seguros como ficou provado no Warm Up do Festival Lux Interior em Outubro e o concerto do Hard Club no Porto em Novembro (na 1ª parte dos belgas Balthazar).

A edição de Deliverance foi planeada para dia 27 de Março de 2020 acompanhada de uma digressão de promoção. O single Heartbeat foi lançado a 1 de Março antecipando a edição do álbum. Heartbeat é uma canção orgânica e negra, mas ao mesmo tempo luminosa e apelativa, com uma melodia que se cola ao ouvido.

Parecia estar tudo bem encaminhado, mas no dia 22 de Março foi decretado o confinamento obrigatório provocado pela pandemia
COVID-19, cinco dias antes da edição do disco. O disco seria editado na data planeada, mas a digressão teve que ser cancelada. As consequências da pandemia afectaram de forma indelével a comunidade artística e a

indústria musical. E se até os nomes consagrados estão a sofrer com as medidas de contingência, para uma banda que acaba de editar o seu disco de estreia o cenário é bastante nebuloso. Mas para os From Atomic reservam-se dias solarengos porque um disco que inclui canções
como Juliette, Dancing Demons, Lights, Shapes e Heartbeat merece mesmo ser escutado com atenção.

 

FROM ATOMIC – Deliverance (Lux Records, 2020)

► Rui Ferreira tem a editora Lux Records, a loja Lucky Lux e é autor dos programas Cover de Bruxelas e Preto No Branco na Rádio Universidade de Coimbra

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