Este é o convite para um fim-de-semana na Bairrada

A estação do apeadeiro de Curia, no districto de Aveiro e concelho de Anadia, é como um bom espumante da Bairrada: por fora parece interessante mas é por dentro que está a verdadeira supresa. O relógio, lá em cima, diz que são horas de conhecer a zona que já não é apenas famosa pelas águas termais, aquelas que os romanos gabavam de Aqua Curiva (a água que cura) e que nos anos 30 fizeram deste lugar paragem obrigatória da elite. Tanto que, a dada altura, transformaram a estação, que era uma interface da Linha do Norte originalmente chamada de Águas da Curia, e que entrou ao serviço em 1864 pela Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, e construiram o actual edifício, desenhado por Cottinelli Telmo e forrado a azulejos e painéis de Jorge Barradas.

Hoje, o comboio passa e não pára mas a estação, que passou por uma fase de abandono, foi recuperada pela autarquia e entregue à Associação Rota da Bairrada. Da água para o vinho, hoje o enoturismo é uma grande aposta não só de Curia mas de toda a região de forte tradição vitivinícola, que continua a receber bem quem a escolhe para umas férias ou um fim-de-semana diferente. Em 2003, achámos urgente estruturar a antiga Rota dos Vinhos e fizemos este novo modelo, que nasceu em 2006 com 16 associados, conta Jorge Sampaio, vice-presidente da Câmara Muncipal de Anadia e presidente da Rota da Bairrada. Hoje somos quase 110, remata. A Rota criou uma rede entre os produtores e toda a oferta turística. Queremos que estes espaços sejam o início da aventura das pessoas na Bairrada, diz Cristina Azevedo. 

Estamos nesta sede desde 2010 com esta missão e objectivo de promover a nossa região, as nossas caves e as nossas adegas. Aquilo que nos move é tentar mostrar que a Bairrada é uma região vitivinícola mas é um destino turístico também, continua a coordenadora da Associação da Rota da Bairrada, que diz que quando começaram a trabalhar nem todos os associados tinham a vertente de visitação mas, actualmente, há 38 produtores associados e 25 deles têm enoturismo. Estão todos no novo Guia de Enoturismo 2020, feito integralmente pela equipa da Rota e acabado de imprimir e ser disponibilizado online. Contém informação sobre todos os agentes económicos da região desde os horários, experiências, contactos e preços que podem ir de uma Visita ao Espaço da Bairrada Curia com Degustação de Espumante por 2,5€ à Visita com Prova Harmozinada de Filipa Pato & William Wouters por 82€. Acreditamos que é possível ouvir alguém dizer: vou de fim-de-semana à Bairrada, diz Cristina Azevedo, enquanto nos serve um Rama & Selas 2017. Este espaço está aberto diariamente e, além do simpático acolhimento tem imensos vinhos e outros produtos da Bairrada para venda, provas de vinhos e jogos de aromas. Além do espumante, um Amor da Curia aqueceu-nos o coração para seguirmos para duas visitas distintas que constam no guia: Adega Luís Pato e Caves do Solar de São Domingos.  

Adega Luís Pato

É Maria João Café que recebe primeiro, à porta da empresa familiar e em plena vinha, onde passeiam gansos, ovelhas e (claro) patos. Aqui a agricultura é sustentável e/ou biológica, como explica a responsável pelas visitas à casa cuja família já leva meio século de história no engarrafamento e produção de vinho. A principal característica da Bairrada é a influência atlântica; estamos a 20km da costa e aqui na Gândara, a região mais plana de Portugal, não há colinas entre nós e o mar, o que nos dá manhãs cheias de nevoeiro, dias quentes e noites mais frias no Verão, que por sua vez dá frescura e acidez, narra Maria João. O resultado: bons brancos, bons espumantes e, com mais trabalho, bons tintos também. Diferenças entre solos arenosos e argilo-calcário, parcelas e castas - sobretudo a mui estimada Baga -, são algumas das coisas que se aprendem nesta visita à adega com cerca de 60 hectares de vinha e conversa com a família incluída. Luís Pato e a filha, Maria João Pato, fazem questão de receber os visitantes pessoalmente. 

Famoso pela rebeldia, já tínhamos conversado aqui com o produtor famoso pela inovação e resiliência quando pegou no negócio do pai, há 40 anos. Os vinhos aqui podem guardar-se por décadas e por isso temos uma garrafeira com exemplares de muitas colheitas para mostrar como podem envelhecer bem, conta Luís Pato. Na adega, dezenas e dezenas de bonitos exemplares de vinhas velhas, com datas que remontam a 1980, aguardam o momento especial em que serão abertas e saboreadas. No terraço, a família convida para uma prova. Entre fotografias a preto e branco e cuspideiras feitas a partir de garrafas do tempo dos antepassados, partilham histórias e explicam que a adega foi pensada para ter condições naturais para conservar bem os vinhos e para o enoturismo. Fazem almoços acompanhados e provas personalizadas, com uma forte componente educativa. Os vinhos da Bairrada, em geral, são vinhos gastronómicos e acompanham qualquer comida, diz Pato enquanto levamos à boca um Baga, que é a uva tinta mais tradicional da Bairrada e maior bandeira do produtor. Este é o primeiro espumante feito sem sulfuroso ou qualquer produto químico em Portugal, continua. Além da economia circular, impera a lei da intervenção mínima. E vegan!, completa Maria João. A nossa missão é Bairrada, fazer o máximo possível com o que temos, é esse o nosso legado e é o que vamos deixar para o futuro.

Caves do Solar de São Domingos

Outra bela história é a de Alexandrino Amorim. Natural de Anadia, encantou-se por Maria Eugénia, filha de um dos sócios da empresa, Lopo de Freitas. Conheciamo-nos desde pequenos mas foi só aos 35 anos que nos decidimos juntar, eu tinha um negócio do café do meu pai e, quando casámos, vim para aqui, conta. Há 23 anos que Alexandrino trata da comunicação e enoturismo da casa fundada por Elpídio Martins Semedo há mais de 80 anos.. É Alexandrino que faz as honras desta visita às Caves do Solar de São Domingos, que não começou sem antes se fazer um brinde com um copo de espumante, Elpídio 80. Com apenas 20 hectares de vinha própria, a adega orgulha-se de agregar mais 80 viticultures que trabalham em regime de exclusividade para a casa que está numa fase de viragem e aposta definitiviva nos vinhos produzidos apenas na Bairrada. A visita às galerias é, no mínimo, cinematográfica. Começa com uma imensa colheita de 1999 e continua ao longo de labirínticos túneis completamente pintados de negro devido à acumulação de fungos e humidade.  

Joana Pais, também responsável pela comunicação, fala em processos como a remuage e o dégorgement e garante que os espumantes são feitos através do método tradicional, sem adição de gás, e criados naturalmente. Até alguns rótulos são feitos à mão com uso de carimbos. As Caves do Solar de São Domingos albergam mais de dois milhões e meio de garrafas de espumante, largos milhares de vinhos engarrafados e centenas de quartolas em carvalho francês, para as afamadas aguardentes vínicas. Aqui conseguem ver todos os programas que a casa oferece, com preços a partir dos 7,5€, desde visitas com provas e refeições a actividades nas vinhas. No fim, vale a pena passar na loja e ver o resultado de todo o processo: bonitas garrafas com diferentes preços mas também, e sobretudo, sabores e histórias que as tornam verdadeiramente especiais. 

Texto e fotos: Filipa Queiroz

* Viajámos a convite do Turismo Centro de Portugal

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