Coimbra no Mundo | Itália

Rui Padilha

Neste momento estou em Itália, mais precisamente em Castiglioncello, um pedacinho da Toscana à beira-mar plantado.

Esta é a nossa base, como gostamos de lhe chamar. A minha esposa é italiana e foi aqui que nos casámos. No entanto, a razão pela qual nos encontramos por terras italianas neste momento prende-se com a chegada de um novo membro à família, o nosso primeiro filho. Caso contrário, o mais certo seria ainda estarmos no Bangladesh ou a caminho de qualquer outro destino - o que, de qualquer forma, acontecerá em breve. Um misto de querer viver novas aventuras, expandir horizontes, diversificar a experiência profissional e conhecer novas culturas levou-me a querer sair de Portugal e quando acabei os meus estudos assim foi: no início de 2010, estava em Macau. Entretanto vivi em países como a Síria, Hungria, Jordânia, Angola e Bangladesh, com muitas viagens pelo meio. Ainda que tenha começado a trabalhar no sector privado, foi na Síria que o bichinho de querer trabalhar no sector humanitário começou a crescer. Infelizmente, o início da guerra adiou esse objectivo. Após alguns anos a trabalhar no sector privado, foi em 2014, já em Amã, onde comecei a trabalhar para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR-UNHCR). Ainda com uma forte ligação à Síria, já que o foco principal do meu trabalho era a resposta regional à emergência de refugiados provenientes da Síria, focado principalmente em países como o Egipto, Iraque, Jordânia, Líbano e Turquia. Já em Angola, estive na fronteira com a República Democrática do Congo, para responder a um influxo de refugiados vindos da província de Kasai, devido a uma onda de violência do lado de lá da fronteira. Nestes últimos dois anos, estive no Bangladesh, mais precisamente em Cox’s Bazar, junto à fronteira com o Myanmar - uma zona já por si só extremamente pobre, que acolhe agora o que se tornou o maior campo de refugiados do mundo. Em toda a região vivem agora cerca de 860 mil Rohingya, desde a ofensiva militar birmanesa de 2017 contra esta minoria muçulmana no estado de Rakhine, ofensiva que foi classificada de limpeza étnica pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.

A minha vida neste momento é focada na família. A vida aqui em Itália é muito fácil, pelo menos quando comparada com outros países em que vivi, o facto de falar a bonita língua também ajuda bastante e, claro, é pertinho de Portugal.

A comida é excelente, o clima é bom e vivo junto ao mar, o que para mim é uma combinação ideal de factores. O que eu não gosto nada em Itália é de uma expressão muito famosa por estas bandas: fare il Portoghese, fingir ser/passar-se por português que, basicamente, significa não pagar ou entrar num local sem pagar. Quem não souber pensa que os portugueses sempre que podem não pagam, o que não é uma boa fama, digamos. No entanto, a origem da expressão é bem diferente. Reza a história que lá por volta do século XVIII, quando Portugal era ainda uma nação muito rica, o Embaixador de Portugal no Estado Pontífico convidou os portugueses residentes em Roma para assistir a representações treatais gratuitas no Teatro Argentina e foram os astutos romanos que, querendo assistir ao espectáculos sem pagar, fingiam ser portugueses. E nós é que ficámos com a fama...

Diria que tenho saudades de tudo em Coimbra.

Foi a cidade onde nasci e que me viu crescer. Tenho saudades principalmente da família e amigos, de ver sítios e ruas que conheço como a palma da mão e que dão aquela sensação de me sentir em casa, onde quer que esteja. Para além disso, Coimbra está eternamente associada à vida académica. Esse é um período vivido de forma muito especial e intensa, que deixa muito boas memórias para todas as pessoas que o passaram por lá e eu não sou diferente. Infelizmente, passando a maior parte do tempo fora e mesmo tentando acompanhar ao máximo tudo de bom que a cidade vai produzindo, tenho noção de que muito da evolução de Coimbra me passe ao lado. E são criações de pessoas inovativas com vontade de fazer mais e melhor como a Coolectiva que tenho de louvar, já que me permitem, mesmo estando fora, ir acompanhando o que tão bem se vai fazendo na nossa bonita cidade.

Vou menos vezes do que gostaria a Coimbra mas tento ir sempre que possível.

Depende muito do local onde me encontro a trabalhar e da disponibilidade, eu diria duas a três vezes por ano. Estando neste momento em Itália torna o ir a Portugal mais fácil. Se há uma altura do ano que tem que ser sempre passada aí é o Natal. Tem sido essa a tradição e, apesar de já estar há alguns anos a viver no estrangeiro, consegui sempre marcar presença nessa data tão especial para a família e espero continuar a conseguir. Sempre que vou a Portugal tento estar ao máximo com a família e amigos e, nesse processo, encher a barriga ao máximo de coisas boas que nós tão bem sabemos fazer. Sendo um bom garfo, e tendo tido a sorte de viver e visitar muitos países, saboreei comida óptima sempre por onde andei mas são os nossos sabores dos quais não consigo nunca fugir. A lista de pratos que sempre que volto a Portugal quero comer é infindável, já que fazemos tudo tão bem. Se há algo que tenho sempre que fazer em Coimbra é atravessá-la de carro para sentir de novo o bater do coração da cidade, ver o nosso Mondego com a cabra a espreitar lá de cima, certificar-me de que os anos que não passam pela nossa Baixa, subir a Sá da Bandeira até ver a praça da República, sentir o vibrar do empedrado até aos Arcos e do cimo do Cidral ver o lado de lá de Coimbra.

Eu amo a nossa cidade e o nosso país e, quando se ama, amam-se também os defeitos e eu não mudaria nada.

Aliás, estando fora sinto que não tenho o direito de querer mudar algo para o qual não contribuo de forma alguma. A natureza do trabalho que faço e do qual gosto muito também torna difícil, para não dizer impossível, um regresso a Portugal a curto/médio prazo. Talvez na reforma? (risos) Se há algo que me entristece bastante no panorama político português é o crescimento evidente do populismo de extrema-direita, esse trend mundial que ganha cada vez mais força e aqui em Itália alcançou proporções impensáveis para muitos.

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