Seguimos o rasto de um dos doces mais queridos de Maiorca até Almalaguês

Em Almalaguês, quando há um casamento os pais dos noivos fazem arroz-doce - o prato doce de arroz cozido com leite, açúcar, casca de limã e canela, que consta que já Buda apreciava, não fosse o arroz originário da Ásia. Entregue de porta em porta pelas amigas dos noivos, que as carregam dentro de canastras, o arroz-doce vai coberto com os chamados toalhetes, que são toalhas de forma rectangular, todas trabalhadas, por vezes até com as iniciais dos noivos bordadas. Esta é uma das tradições que Ana Margarida Silvestre, nascida em Coimbra e criada na aldeia de Rio de Galinhas, quis recuperar na sua Rota do Arroz Doce. 

Estava numa aula de Mestrado, na cadeira de Património e Paisagens Culturais, e sugeri por brincadeira à professora fazer uma Rota do Arroz Doce, conta a mentora do projecto que, para sua surpresa, recebeu um valente aplauso e, por isso, acabou mesmo por se tornar realidade. Na base, estão memórias de infância, muita pesquisa e várias estrelas alinhadas, entre elas a Confraria do Arroz Doce. 

Eu pensei: tenho de ir ouvir as histórias, saber como era no Natal e nas outras festividades, todas as velhinhas sabiam que eu adorava o arroz-doce e a broa, continua Ana Silvestre. E depois elas contam coisas como que no Natal era comum as famílias mais pobres terem apenas uma batata para comer mas o arroz-doce, esse, independentemente do extracto social, estava sempre lá.

Ana convidou a Coolectiva para inaugurar a sua Rota do Arroz Doce que, devido à pandemia de Covid-19, não começou por uma fábrica de arroz nem passou por um lar de idosos. Começou no Paço de Maiorca, por se situar no Baixo Mondego, onde o arroz tem uma grande importância e o Solar contribuía para a dinâmica de vida de Maiorca. A vila fica no concelho da Figueira da Foz, próximo da confluência da ribeira da Foja com o Mondego, numa elevação sobranceira à área de amplos arrozais e férteis campos de lavoura e o edifício de finais do séc. XVII é pouco anterior que que se imagina que terá sido a data de introdução da cultura do arroz nos Campos do Mondego. 

Quinta da Cioga

Depois de conhecer o Paço e a mais do que recomendada Lagoa de Maiorca, a proposta de Ana foi seguir caminho para a Quinta da Cioga, onde há 20 anos se produz leite nacional, o sonho de Pedro Pimenta partilhado com a mulher, Manuela Dias. No fim do curso, o Pedro pensou o que é que ia fazer da vida e decidiu que ia produzir leite e construir este projecto todo que aqui está, como jovem agricultor, e arrastou-me com ele. Fomos colegas de curso e eu, que nada tinha a ver com leite, apaixonei-me por ele e pelo leite, conta Manuela. De facto, tudo leva a crer que, tal como o arroz-doce, este é o tipo de trabalho que exige muito amor, apesar de hoje em dia já ser facilitado pela tecnologia. Os engenheiros explicam que os estábulos são ventilados, há escovas de limpeza automáticas para as vacas, cubículos individuais com colchões onde elas se podem deitar confortavelmente, parques de recreio e ordenha mecanizada. Continuamos a estar cá mas não é aquele esforço físico de antigamente, quase de castigo, diz Pedro Pimenta. 

Por vezes, as vacas até ouvem música, para evitar o stress quando há visitas. A Quinta da Cioga tem parcerias com várias escolas, inclusive a Escola Superior Agrária de Coimbra. Para nós é um dever cívico ter esse lado pedagógico e mesmo lúdico, diz Pedro que das 30 vacas em poucos hectares com que iniciou há 20 anos passou a mais de 40 com cerca de 200 cabeças de animais onde, em média, com cerca de uma centena a produzir, recolhem 3,500 litros de leite por dia. A produção é integrada e as vacas são felizes, como se costuma dizer. Pelo menos Manuela diz que já não passa sem elas. É um trabalho que requer uma atenção constante, os nossos dias começam cedo, às 6h30, diz Pedro, que não deixa de notar que o sector tem sido muito castigado em Portugal e um pouco por todo o mundo. De 80 mil produtores a nível nacional nos anos 80 passámos a ser 8,800 no Continente e 2 mil nos Açores, completa. Quanto ao que nos traz aqui, não há dúvidas: Não tem nada a ver um arroz-doce feito com leite e arroz do supermercado ou do produtor, nada a ver mesmo. Pedro assume que não sabe fazer mas garante que é craque a provar e até consegue identificar a freguesia onde foi feito. O leite vai da quinta vai, em grande parte, para a Cooperativa Pingo de Leite mas Manuela tem um sonho: entar no ramo biológico com belos cabazes de abóbora e queijo fresco.

Casa-Museu de Almalaguês

Tenho 30 anos e percebo que na minha geração puxa mais esta coisa de fazer uma rota mais dinâmica, a pôr a mão na massa, a ver uma ordenha, porque são as memórias que ficam. De São João do Campo rumámos a Almalaguês, a 10 minutos de carro da cidade de Coimbra, e Ana está em casa. É outra peça da minha memória. O som dos tractores a passar de um lado para o outro, os panos bordados e as tecedeiras. Faz-se muito aqui crochet, as rendas que se colocavam em cima do arroz-doce e que depois com canela, polvilhava-se, e saiam aqueles desenhos tão bonitos, recorda. A terceira e última paragem desta Rota do Arroz é o Museu e Sede do Grupo Folclórico e Etnográfico As Tecedeiras de Almalaguês. Lá dentro, esperam-nos Ângela Fonseca, Emília Pereira da Associação Herança do Passado e outras duas tecedeiras. A minha filha casou há 3 anos e eu fiz uns 30 e tal quilos de arroz-doce para entregar a pessoas amigas, conta  a dona Rosa. Tão bonita, com um traje típico vestido, assim como Ângela. A professora de História sobe as escadas a levantar a saia, dois saiotes e um avental 

A casa onde estamos era de uma família abastada e foi cedida ao grupo, com quase meio século de existência e um enorme espólio, parte dele recolhido (inclusive do lixo) e outra parte doado pelos herdeiros. Fazemos questão de manter a tecelagem de Almalaguês viva, eu pertenço ao grupo folclórico, fazemos espectáculos e há sempre a presença da tecedeira, quer numa cantiga quer numa pequena recriação, explica a antiga presidente. No 2º andar estão teares, dois quartos recriados, uma sala onde não falta um antigo confessionário e muitas fotos de família. No andar intermédio está a cozinha e a sala de refeição, mais abaixo o antigo curral, agora espaço de exposição. A tecelagem está na rota porque tem um desenho que se chama arroz-doce, porque faz lembrar a parte da canela, atira Emília Pereira. É a responsável da Associação Herança do Passado que nos fala da parceria com as Universidades do Porto e de Aveiro, que criaram sapatos com têxteis ali fabricados. Há muito amor e muita paixão nesta Rota, que não podia terminar de outra maneira que não de tijela numa mão e copo na outra. Já são produzidos 3 licores de arroz-doce em Portugal e este é um deles, atira Ana Silvestre, enquanto nos serve um copinho de Cantares de Portugal.

Confraria do Arroz Doce

Os dois pilares da minha infância eram o meu arroz-doce e o tear de Almalaguês, tinha de casar as duas coisas, termina Ana Silvestre, lado a lado com Dora Caetano, presidente da Confraria do Arroz Doce. Dora, com quem já nos tínhamos cruzado na Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra, contou-nos que foi numa viagem a Lisboa que a desafiaram, juntamente com um colega pasteleiro, para criar a Confraria que acaba de completar um ano de vida. Achámos interessante porque não existia e há tanta receita que fizemos tudo: estatutos, regulamento interno só que depois enfiámos na gaveta onde ficou quase dois anos. Foi graças ao relatório de estágio de uma aluna da Licenciatura em Gastronomia que voltou a sair e, mal eles sabiam, que o projecto também estava no manifesto da campanha eleitoral do Presidente da Junta de Freguesia de Almalaguês, António Coelho. Os dados estavam lançados. Toda a gente tinha um interesse comum, atira Dora Caetano. A Rota do Arroz Doce está disponível ao público e não é sempre igual, os programas vão variando. Para participarem podem contactar via Instagram, e-mail (rotadoarrozdoce@gmail.com) ou através da Confraria.

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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