Explorar as Aldeias Históricas | Castelo Rodrigo

Continuamos rumo às Aldeias Históricas, desta vez na primeira linha da defesa do território português. Falamos, pois, de Castelo Rodrigo, a 20 km de Almeida e a 2,5 km da sede de Concelho – Figueira de Castelo Rodrigo. Em território com vestígios de ocupação paleolítica, romana e muçulmana, foi vila elevada a concelho pelo reino de Leão. 

Passou a ser portuguesa com o Tratado de Alcanizes (1297). Com ar de quem é o guardião de todo o território Riba-Côa, Castelo Rodrigo não destoa do que nos estamos a habituar e faz pose no topo da colina, transbordando o orgulho de ter sido casa de um povo leal à coroa.

Muralhas e palácio de Cristóvão Moura

Entrámos pela Porta Nascente e fomos amavelmente recebidos por umas maravilhosas amêndoas agridoces, imediatamente devoradas, cortesia da lojinha Sabores da Geninha, que promete fazer barrigas felizes. Daí ao castelo é um pulinho. E desenganem-se se acham que estamos perante só mais uma aldeia histórica com castelo. A cintura amuralhada dá aqui espaço a torreões semi-circulares, o que contrasta com as torres de planta quadrada a que estamos habituados. Da mesma forma, o castelo dá aqui lugar a um Palácio,
cujas ruínas jazem num merecido descanso de guerreiro. E sim, conseguimos sentir a diferença. Mal entramos pela majestosa porta, deparamo-nos com um pátio central rodeado por salas que transbordam história, algumas com paredes bem erguidas. Estamos em casa de Cristóvão Moura, 1º Marquês de Castelo Rodrigo, que teve um papel de peso na administração de Portugal durante o domínio filipino. Foi no final do Séc. XVI que transformou em palácio residencial, a estrutura defensiva existente, da qual restam apenas ruínas.

Ainda que a estreita relação Luso-Castelhana tenha acabado por custar a Castelo Rodrigo a inversão
das armas reais do brasão e o incêndio do palácio por parte do povo, aquando da Restauração da Independência, esta sobreposição de épocas e de estruturas está hoje ao alcance da veia exploratória de cada um de nós. E a paisagem? Basta sair pela Porta da Traição e aí está ela, pronta para nos levar nas asas dos grifos que por ali sobrevoam. Difícil é encontrar local onde estas majestosas aves se vejam tão bem. Antes de voltar, há que dar uma espreitadela na cisterna que, apenas no imaginário popular, esconde um túnel até ao Convento de Sta. Maria de Aguiar.

Aldeia

O Palácio pode ser o rubi mas as ruas da aldeia partilham o calor da pedra. Aqui, os habituais xisto e granito misturam-se com outros minerais e aquecem-nos o olhar, com uma tonalidade castanha-alaranjada. Mas as cores quentes são apenas o pano de fundo para monumentos como o Pelourinho, a Igreja Matriz e as Casas da Câmara, da Cadeia e da Misericórdia. O olhar atento salpica-nos ainda com inúmeras inscrições entalhadas empedras. Quer seja o jogo do Alquerque, antecessor do actual jogo das damas, que quase passa despercebido junto à muralha do castelo, quer seja um mar de caracteres que nos traz a imagem da comunidade judaica que aqui se refugiou e cresceu depois de ser expulsa de Espanha. É o caso da Casa do Calvário, com inscrições cruciformes, que poderão identificar a morada de cristãos-novos, ou da Casa nº32 na Rua da Cadeia, datada de 1508. Se ainda assim ficarmos com dúvidas, a judiaria medieval, a possível casa do Rabino, com uma estrela de cinco pontas
no peitoril da janela, ou mesmo o nome da Rua da Sinagoga, demonstram o impacto desta comunidade aqui. 

Embrenhem-se nas ruelas e descubram outros tesouros, como a janela manuelina com avental, provavelmente saqueada do Palácio, ou a Cisterna Medieval, de origem árabe, com um arco em forma de ferradura. Há quem acredite que este reservatório de água terá sido reutilizado nos séculos seguintes, pela população judaica, para banhos litúrgicos. Nós acreditamos que, a ser
assim, seria apenas para os corajosos, para quem 13 m de profundidade não é problema.

Mosteiro de Santa Maria de Aguiar

A 2 km, o Mosteiro de Santa Maria de Aguiar (séc. XII) atesta a preocupação com o povoamento destas terras, na altura da Reconquista, recebendo doações de freires Salamantinos. Quem conhece a nossa Santa Clara-a-Velha irá reconhecer os traços neste Mosteiro masculino cisterciense. Reza a lenda que Nossa Senhora de Aguiar recebeu no seu manto as balas dos castelhanos, na grande Batalha de Castelo Rodrigo - Batalha da Salgadela (1664), tendo sido fundamental para a vitória
lusa.

Serra da Marofa

A visita não fica completa sem subir ao pico da Serra da Marofa. Meia dúzia de quilómetros chegam para atingir os 977 metros de altitude e, à medida que subimos, percorremos um conjunto de pequenas capelas que contam as histórias da Via Sacra, evocando os Mistérios do Rosário. Abstraindo-nos das antenas gigantes, quando chegamos ao topo percebemos porque é que este miradouro natural foi sacralizado, em veneração a Santa Maria. A vista panorâmica sobre Trás-os-Montes, Espanha, o Douro, o Côa ou terras e águas bem mais longínquas, oferece-nos uma visão sem limites de todo um território à espera de ser comtemplado. Se não acreditam, perguntem ao Cristo Rei de 6 metros e braços abertos a contemplar. Se escutarem bem, a brisa lá no alto ainda nos trás as palavras do jovem fidalgo Luís, ao encontro da sua judia amada: Vou a amar Ofa.  

Encontros com História 

Se tiverem oportunidade, vale a pena participar num Encontro com História. O Município de Figueira de Castelo Rodrigo e a Cooperativa Artística da Raia Beirã têm visitas guiadas feitas por figuras históricas que vos podem guiar de forma bem original por aquela que é uma das 7 Maravilhas de Portugal – Aldeia Autêntica. Fizemos a experiência com Henrique Silva, vereador da Educação, Cultura e Turismo, e foi mesmo especial. Devido à pandemia, a autarquia garante o cumprimento das normas de segurança recomendadas pela Direção Geral de Saúde, nomeadamente o uso de máscara, higienização das mãos e respeito pelo distanciamento social. Também tem abertos ao público os Postos de Turismo, com o Selo Clean & Safe atribuído pelo Turismo de Portugal. Se gostarem de movimento e quiserem mais bons pretextos para visitar Castelo Rodrigo, têm as Festas das Amendoeiras em Flor, a Figueira com Vida, o Festival do Borrego da Marofa e o Festival das Sopas e Migas. E se a fome apertar, passem no Sabores do Castelo e vão ser bem tratados. Não deixem de provar as amêndoas criadas por André Carnet, antigo engenheiro agrónomo francês que decidiu passar a reforma na aldeia. 

Dormida

A cerca de 12km de Castelo Rodrigo, em plena Serra da Marofa, há um lugar absolutamente distinto onde podem pernoitar e experimentar alguns percursos pedestres, devidamente sinalizados. O Colmeal Countryside Hotel fica na quinta com o mesmo nome, dispersa por cerca de 600 hectares, onde antigamente ficava uma aldeia de pastores lusitanos, com habitações em xisto e granito, entretanto abandonada. O lugar é incrível e o hotel não fica atrás. Há quartos que são a sensação de dormir mesmo num ninho dentro do vale e tem piscina e SPA, para completar a experiência de tranquilidade e relaxamento. A unidade hoteleira faz do silêncio mote e tem toda a razão para isso. Encontre o que precisa para se desligar do mundo e ligar-se a si próprio. Nós acrescentaríamos do mundo urbano porque do outro, do natural, ficamos bem perto. O deleite continua no restaurante, onde podem provar petiscos locais com assinatura do Chefs Vítor Sobral e Hugo Nascimento. Estas são algumas das outras coisas que podem fazer por perto. 

Texto: Inês Teixeira, com Filipa Queiroz
Fotos: Pedro Costa, Filipa Queiroz

* Visitámos o Colmeal Countryside Hotel e fizemos a visita guiada com Henrique Silva a Castelo Rodrigo a convite do Turismo Centro de Portugal 

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