Descobrimos o maravilhoso mundo dos vinhos da Beira Interior

Esta história começa na terra e acaba à mesa, como deve ser. Estamos na Beira Interior de Portugal, numa das vinhas que fornece a Adega Cooperativa de Pinhel, e faltam poucos dias para começar a vindima. Por ser mais fria, a região é a última a colher as uvas que passaram o ano inteiro a maturar. Germano Santos, 64 anos, ajuda-nos a (re)conhecer algumas. Trabalhou no Ministério da Agricultura como classificador de castas, uma profissão em extinção em Portugal. Trata as castas todas por tu, garante Rodolfo Baldaia de Queirós, presidente da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) da Beira Interior e nosso guia nesta visita.

As adegas hoje em dia ainda têm um papel extraordinário, principalmente nestes sítios, porque um agricultor que meta lá 5 ou 10 mil quilos de uvas pode dizer que este vinho é dele, consegue tornar grande o que é pequeno, explica Baldaia de Queirós. Também se evitam os incêndios, porque a actividade incentiva o tratamento dos terrenos. À nossa volta estão centenas de videiras nas chamadas vinhas velhas, a mais antiga com cerca de um século, numa rebaldaria de cachos, cores, tamanhos e formas - o chamado blend, que é comum nas vinhas velhas mas nas mais recentes já não acontece. Antigamente era tudo mais empírico, temos aqui muitas castas antigas, algumas estão a perder-se mas podem perceber a diversidade que há e que depois dá diferentes vinhos, continua Rodolfo

Germano explica: Hoje em dia temos enólogos mas eu comprava isto e, para as pessoas mais idosas como eu, era assim: você, para preparar um guisado, tem de deitar vários ingredientes para a panela. E eles então, ao provar um vinho, diziam que sentiam ali falta de qualquer coisa e enxertavam uma casta que dava aquele paladar. O vinho era puro: se queriam mais grau metiam esta, se queriam mais tinto metiam aquela. Era assim.

A vinha onde estamos tem cerca de 30 castas, mais de 20 regionais e algumas internacionais, como a  Chardonnay e a Riesling. Germano Santos identifica-as a todas num segundo. As brancas mais típicas desta zona são a Síria e a Fonte Cal. Havia muita Fonte Cal nas vinhas velhas mas não havia grande procura, agora está a fazer-se um trabalho de recuperação, explica o presidente da CVR. Nas castas tintas, a Rufete é a rainha. Se repararem a folha é muito mais recortada, é um dos pormenores que quem faz a classificação de castas tem em conta, além do espaço entre nó e outros pequenos pormenores, explica. Provámos várias uvas e ouvimos muitas histórias. Aprendemos que as mais doces não são de vinho mas de moscatel, que os agricultores gostam muito da casta Tinta Roriz ou Aragonês porque dá muita produção - a chamada paga dívidas -, que a Síria é conhecida no Douro por Côdega e no Alentejo por Roupeiro e que muitas vezes nenhuma delas chega a ser apanhada porque são um petisco muito apreciado pelos javalis. Que ainda por cima só comem as boas! 

Vindima

Não há nada como estar no terreno para perceber por que é que os vinhos têm diferentes custos, e fazer de uma só casta, por exemplo, requer um esforço enorme na recolha e separação da uva. Germano Santos garante que a qualidade da sua vinha não é só obra do método. A minha vinha também está assim, sabe por quê? Porque todos os anos faço aqui uma festinha ali em cima daquela laje; vem cá o padre, benze os campos na Quinta-Feira da Assunção, quando o centeio está quase na ceifa, e faz-se uma procissão. Passa aqui, vamos ali para a estrada, passa-se uma tarde incrível, conta. Visitámos outro terreno, em plena vindima, e até demos uma mãozinha. O proprietário é médico de profissão e conta que, quando trabalhou na Noruega, percebeu que nem sempre quem faz o vinho é quem percebe mais de vinho. A história dele com as uvas remonta aos avós, o pai herdou o terreno e começou a produzir e engarrafar nos anos 9.  Ainda exerço, até para sustentar tudo isto, mas vivo aqui a maior parte do tempo e gosto de estar aqui, é o meu mundo. Junto ao produtor das marcas Casas Altas e Quinta Vale do Ruivo, mulheres apanham uvas Rufete e homens ajudam a recolher. Uns são pagos ao dia outros vieram dar a chamada 'ajudinha'. 

Cartão de visita

A viticultura passa por várias etapas e uma delas fica a cargo das comissões vitivinícolas regionais (CVR) que certificam os vinhos da região sobre a sua jurisdição. A CVR Beira Interior ganhou uma belíssima nova casa há dois anos, que agora também tem loja (aberta todos os dias úteis das 9h às 17h30), além de ter lançado uma Rota dos Vinhos da Beira Interior. Aos bons vinhos junta-se a gastronomia, hotelaria e todo o património paisagístico, cultural e material num mix de soluções e o apoio de 7 dos 20 municípios que fazem parte da região. Foi no Solar do Vinho da Beira Interior que continuou a nossa conversa com Rodolfo Baldaia de Queirós, que é da Guarda por afinidade e começou por ser técnico na Comissão quando se mudou para a cidade. Fazia de tudo, ia às adegas, aprendi com as pessoas como o Sr. Germano e há um ano e meio tornei-me presidente da Comissão, conta, feliz por avançar com o projecto de longa data da Rota e pelo edifício, feito num espaço antes abandonado mas privilegiado, junto à muralha e catedral da cidade. Desenhado pelo arquitecto Jorge Palma e propriedade da autarquia, é um cartão de visita da região quer para profissionais do sector quer para curiosos sobre o mundo do vinho.

Prova de vinhos

Apesar de estarmos na cidade mais alta do país, a mil metros de altitude, não chove nem está frio por isso o momento mais aguardado foi na área exterior - que inclui um jardim de castas, com 14 diferentes, onde os visitantes podem provar as uvas, se quiserem. Nós provámos os vinhos mesmo e a experiência foi a melhor possível. Desde os brancos como o Pinhel DOC Beira Interior, da Adega Cooperativa de Pinhel, ao Beyra, com uvas 100% Fonte Cal e o doispontocino, que se chama assim porque pertence a uma empresa com cinco sócios e uvas de duas freguesias de Belmonte. Nos tintos, fixámos o Quinta dos Termos, Casas Altas, Quinta do Côro e dois vinhos biológicos: Quinta da Biaia (branco), que ganhou o mais recente Concurso de Vinhos da Beira Interior e o extraordinário Quinta do Cardo, um tinto com notas de caruma e resina de pinheiro. Somos talvez a região que tem mais produtores a fazer vinho biológico, que tem um potencial enorme, tanto para o mercado nacional como internacional, nomeadamente os países nórdicos, comenta Rodolfo Baldaia de Queirós. 

À mesa

O motivo pelo qual os vinhos biológicos ganham terreno prende-se, de acordo com o presidente da CVR Beira Interior, com o facto de ser uma região muito fria. Mata a bicharada toda que há na vinha e no solo e, depois, durante a época até às vindimas, o clima é seco e a humidade relativa é baixa o que evita que se desenvolva o míldio, que é a doença principal da vinha. Mas, afinal, qual é o melhor vinho? É o que a pessoa mais gosta, remata. O maior desejo de Rodolfo é que a Rota de Vinhos da Beira Interior seja um gerador de desenvolvimento e emprego para o Interior do país. Já tem website e vai ter serviço de e-commerce. Esta região do país precisa que nós olhemos para ela de forma muito querida, atirou António Marto, do Fórum Turismo, durante a apresentação que depois tomou o rumo natural até à mesa. Almoçámos no restaurante Nobre Vinhos & Tal, que abriu há 2 anos como Wine Bar e onde até podiamos ter ficado só por entradas infinitas: queijo Serra da Estrela, presunto, figos e azeitonas. Para jantar, recomendamos o Colmeia, bem conhecido entre os autóctones e com pratos de referência como a Morcela, servida com maçã caramelizada, o Cabritinho das Terras Altas à Padeiro e uma soberba Aletria Dourada.

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Pedro Cerqueira, Filipa Queiroz

* Viajámos a convite do Turismo Centro de Portugal

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