Os Concertos para Bebés voltaram e quem os faz está bem feliz por isso

Os Concertos para Bebés voltaram aos palcos para uma nova temporada, de Setembro a Dezembro, que passa por Leiria, Coimbra e a Marinha Grande. Apesar do novo panorama instalado nas artes e na cultura, bem como no quotidiano das famílias, a promotora Musicalmente adaptou-se e avançou com uma programação que passa agora a acontecer também online, em directo - Concertos para Bebés em Casa. O modelo é forçosamente diferente mas mantém-se uma experiência única e, através da transmissão em directo na Internet, oferece às famílias do país e do mundo a possibilidade de irem aos concertos onde talvez de outra forma nem tivessem a oportunidade de o fazer.  

Estivemos à conversa com Paulo Lameiro, director artístico da Musicalmente, que diz que os concertos são a ponta do icebergue de um vasto trabalho dedicado à formação e desenvolvimento de sensibilidades e aptidões para a música na primeira infância e mesmo durante a gestação. Depois de uma breve carreira como barítono, tendo cantado a solo e integrado o Coro do Teatro Nacional de São Carlos em Lisboa, Paulo dedicou-se ao ensino e assumiu a direcção de várias escolas de música, nomeadamente o Conservatório Nacional de Lisboa, o Orfeão de Leiria e a Escola de Artes SAMP em Pousos. Porquê? Foi o que descobrimos.

O princípio

Toda a minha família paterna é de pescadores, diz Paulo Lameiro. O musicólogo nasceu na aldeia onde agora também vive chamada Pousos, em Leiria, e a família está associada à arte xávega e cultura avieira, cuja origem remonta ao século XIX, e que consistia nos pescadores que, vindos de Vieira de Leiria, desciam para os rios do sul em busca de sustento por altura do Inverno, quando a ira do mar dava de si e o trabalho em águas profundas se tornava menos rentável e mais perigoso. Isto explica o fascínio de Paulo Lameiro pela Natureza e por peixes, nomeadamente as carpas koi. Quando optei por não viver em Lisboa, onde estive quase 20 anos, e voltar às minhas origens, uma entre outras razões é o facto de poder ter um quintal com alfaces, estar perto dos feijões, do Pinhal de Leiria e, seguramente, para poder ter um charco com peixes. Curiosamente, mais tarde Paulo descobriu que as carpas koi são um símbolo da infância, da sabedoria e da família no Japão, além de um anti-stress natural. Mais ou menos como a voz e timbre afáveis de Paulo, como pudemos verificar nesta conversa via Zoom, com a imagem das suas carpas como pano de fundo no ecrã. 

Berço das Artes

Quando Paulo entrou para a banda filarmónica da aldeia quando era pequeno, toda a gente dizia que tinha muita habilidade. O que era óptimo, sobretudo se fosse verdade. Chegou ao conservatório, em Lisboa, quando tinha 18 anos e não só percebeu que era tarde como foi uma enorme desilusão. Tinha um nível mais baixo do que eles julgaram que eu tinha e isso traumatizou-me imenso. Ainda por cima não foi admitido no instrumento que queria: o trompete. Estava numa escola extraordinária, com ensino artístico integrado e completamente fascinado com o ambiente School of Arts, quando tomou a decisão de, juntamente com colegas de outras áreas, fazer com que na banda filarmónica da sua aldeia o que lhe aconteceu não voltasse a acontecer a ninguém. Comecei a trabalhar com crianças, não com 8, 9 ou 10 anos mas muito mais cedo. Em 1991, criou o Berço das Artes, um projecto para crianças que usam a música, o teatro e a dança como matriz. No fundo, terá sido este recalcamento pessoal meu a fazer com que eu tentasse criar alguma coisa de muito mais cedo para que se pudesse identificar muito mais cedo a aptidão das crianças.

Músicos de Fraldas

O Berço das Artes continua ainda hoje e, para Paulo Lameiro, é o projecto mais importante da equipa. Todos os dias, dão aulas a casais grávidos. O ventre materno é uma forma extraordinária de audição porque concilia a audição no líquido, a relação com o outro além do facto de, naquele momento, para o bebé, todo o mundo ser som, explica o musicólogo. Em 1995, uma palestra de Edwin E. Gordon na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, revela-lhe as teorias do que se viria a tornar um guru. O influente investigador e psicólogo defende coisas como que o nível mais elevado de aptidão musical do ser humano é no momento do nascimento (e a partir de então é sempre a descer), que o que acontece de mais importante é antes dos 2 anos de idade e que o que chamamos o jeito para a música, na verdade, se pode dividir entre aptidão e realização musical. É nesta altura que Paulo Lameiro baixa a fasquia da formação musical para bebés dos 2 anos para os 0 e cria a Músicos de Fraldas, um programa para todos os profissionais que estão regularmente com bebés, desde educadores a pediatras, uma vez que a maior parte dos pais deixam as crianças a semana inteira ano jardim de infância a partir dos primeiros meses de idade. 

Concertos para Bebés

A vinda a Portugal de Edwin Gordon faz com que um conjunto de pessoas - eramos 20 e poucas a ouvi-lo na Gulbenkian -, fizesse com que essa semente fermentasse ao ponto de Portugal ser dos países na Europa e, arrisco dizer mesmo no mundo, com mais pessoas formadas ou mais projectos na área da música para bebés, afirma Paulo Lameiro. Daí à criação dos Concertos para Bebés, em 1998, foi um passo. Bastou os pais começarem a queixar-se de que, sendo a música tão importante, era difícil pôr os ensinamentos em prática porque as salas de música comuns não permitem a entrada a bebés. Enquanto o Berço das Artes é um projecto pedagógico, social, comunitário e muito experiencial no sentido em que todos adquirimos competência, das crianças aos pais e profissionais educativos, é um percurso formativo, os concertos não têm qualquer intenção pedagógica ou didática, são um mero projecto estético, de experiência, clarifica Paulo Lameiro. A matriz é a música clássica, da antiga à contemporânea, por todos os motivos e mais algum.  

É mais fácil encontrar diversidade a todos os níveis na música clássica, do rítmico ao harmónico e melódico, a escala de sensações, em termos de intensidade, é muito maior do que qualquer outra linguagem musical; a segunda razão é porque nós temos todos formação clássica; em terceiro lugar, a partir da música clássica abordam-se muitas outras linguagens musicais como o jazz, as tradicionais, a electrónica, a música antiga, a world ou o rock, explica Paulo. Ao longo do ano, há famílias que vão todos os meses a um concerto, o que, segundo Paulo Lameiro, lhes dá não só um dicionário de experiências como uma janela de linguagens muito mais ampla. Os programas são mensalmente renovados e contam com a colaboração de diferentes solistas. Paulo garante que a marca dos Concertos para Bebés é a de que a equipa olha para o bebé como um público completo e não como alguém que vai aprender para mais tarde ser, além de os artistas serem muito cúmplices com os pequenos espectadores. Eu começo os concertos sempre a cantar com um bebé ao colo e eles são sempre prioritários, atira. Os espectáculos já foram apresentados em inúmeros países, e o músico admite que teve experiências menos boas como na China, na Suécia ou na Noruega, onde tirar um bebé das mãos de uma mãe é uma ofensa tremenda, mas mesmo essas experiências permitiram aprimorar o trabalho.

Pandemia e streaming

Nos Concertos para Bebés, as famílias ou outros acompanhantes rodeiam os músicos e o foco da atenção são os pequeninos. Quando um bebé manifesta presencialmente a sua compreensão pela sua postura corporal ou pela baba que deixa cair porque está a assistir a uma coisa extraordinária, nós próprios extasiamo-nos com isso, conta Paulo Lameiro. Quando foram obrigados a estar sem bebés nos concertos, a primeira sensação foi de um luto tremendo. E não estou a falar da perda de dinheiro e de comer na mesa, uma situação que se agrava dia a dia, continua. Apesar de já terem recusado colaborações com canais de televisão infantis ou edição de DVD, na primeira semana de Março e depois dos primeiros cancelamentos, Paulo e o único elemento da equipa com quem coabita transformaram a casa num estúdio improvisado e começaram a transmitir em streaming a partir de casa. O primeiro concerto ensinou-nos muitas coisas e revelou-nos o quão preciosos foram os mais de mil concertos presenciais que fizemos até agora, o quão preciosa é a oportunidade de nos encontrarmos, de nos tocarmos, afirma. É um privilégio ter o encontro físico, em que a temperatura, as distâncias, as babas, os brilhos nos olhos, as posturas corporais, os toques, tudo isto é parte da experiência. 

Nova temporada

Depois de meses a adquirir competências como a edição vídeo e a captação de som, de ter muito mais trabalho mas com zero de receita, além de aprender a repor o vínculo presencial sem hipotecar a saúde, os Concertos para Bebés ao vivo e em Casa, transmitidos em streaming, estão marcados. Mesmo que seja suicida do ponto de vista financeiro, para um projecto que não é financiado pelo Estado e sobrevive da bilheteira, mas já não somos capazes de viver sem isto, confessa Paulo Lameiro. Estamos muito entusiasmados, vamos sugar o olhar de cada bebé e a música vai estar ali a ajudar-nos neste reencontro. As modalidades de bilheteira mantêm-se, com a Assinatura de Temporada que dá acesso aos 4 concertos da temporada e os bilhetes individuais (10€). Há datas para o Convento São Francisco, em Coimbra, o Teatro Miguel Franco em Leiria e o Teatro Stephens, na Marinha Grande. Estão também previstos concertos internacionais nos dias 29, 30 e 31 de Outubro, a convite da Orchestra Philharmonie Luxembourg, e nos dias 20, 21 e 22 de Novembro em Bilbau, a convite da BOS – Bilbao Orkestra Sinfonikoa. Todas as medidas de distanciamento e segurança serão asseguradas para que todas as famílias possam desfrutar so espectáculos tranquilamente. 

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Joaquim Dâmaso, Concertos para Bebés

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