COIMBRA NO MUNDO | Luxemburgo

Luís Galveias

Acabei de passar a marca dos 11 anos no Luxemburgo!

Quando aqui cheguei vinha de Lisboa, onde trabalhei durante outros 5 anos após toda uma infância e percurso académico em Coimbra. Cresci entre o Monte Formoso e as escolas da Solum e o curso superior em Coimbra (Economia) foi um passo tão natural, que nunca pensei em ir estudar para fora sequer. Hoje arrependo-me de não ter feito o programa Erasmus, mas na altura não tinha qualquer vontade de sair de Coimbra. Fui técnico de som na Rádio Universidade de Coimbra, dirigente na AIESEC, fundador de um website sobre Coimbra (CoimbraCidade.com) e de um negócio de t-shirts turísticas e promocionais (Nódoa). Mas a vida de Coimbra terminou com o curso e rapidamente segui para Lisboa, onde já trabalhava a minha mulher - na altura namorada. Foi ela que também determinou a vinda para o Luxemburgo, com uma oferta de trabalho. A oportunidade profissional era boa, tínhamos uma filha recém-nascida e decidi por isso largar o trabalho em Lisboa e abrir um novo capítulo aqui. Alguns meses depois reiniciei o meu percurso profissional em Bruxelas e, posteriormente, aqui no Luxemburgo.

A trabalhar e com duas filhas, a minha vida não é muito diferente da de muitas pessoas em Coimbra.

Entre casa, trabalho e escola, durante a semana não dá para muito mais mas, mesmo assim, encontrei algum tempo para fundar a associação para a promoção da literatura Portuguesa (Librairie Pessoa) - apenas recentemente é possível encontrar livros à venda em Português no Luxemburgo, apesar de cá viverem mais de 100 mil Portugueses! O fim-de-semana é dividido entre compromissos infantis, saídas com um grupo de fotografia, encontros com amigos e uma paixão que vim, ironicamente, descobrir no centro da placa continental: a vela de recreio! Penso que esta é, sem dúvida, uma das coisas de que mais gosto de fazer no Luxemburgo (apesar de ser na realidade em França, a poucos quilómetros daqui). Outra das coisas que aprecio é que efectivamente nos apercebermos das quatro estações do ano. Não só muda a natureza como a atitude das pessoas na forma como a aproveita.

O que desilude mais no Luxemburgo é precisamente o que o torna mais cativante.

O país (Grão Ducado) e em particular a cidade do Luxemburgo são caracterizados por uma elevada taxa de estrangeiros (cerca de 50% e mais de 150 nacionalidades), que aqui vivem e constroem este país, há várias décadas. Só como exemplo, na minha equipa de trabalho somos 6 pessoas, das quais um Francês-Luxemburguês, uma Francesa, uma Eslovaca, uma Russa e uma Grega. Apesar das inúmeras vantagens que isto traz para o país, continua a haver uma demarcação forte dos nacionais, quer através da língua (adoção crescente do Luxemburguês, uma das três línguas oficiais com o francês e alemão) quer na intervenção política (limitada para estrangeiros) o que, por vezes, transparece na forma como os imigrantes (entre os quais muitos Portugueses) são discriminados ou pelo menos tratados de forma menos respeitosa.

Penso que tenho um sítio ao qual pertenço e esse sítio é Coimbra.

Gosto imenso de Lisboa, por onde também passei, e aprecio a vida no Luxemburgo mas Coimbra, não sei se pelas memórias, se pela marca que deixou na construção da minha identidade, é o sítio onde me sinto em casa. Cresci com bastante liberdade e talvez por ter vivido entre dois extremos da cidade, sentia que podia caminhar ou pedalar por toda a cidade que nunca me perdia. Um amigo de escola, por exemplo, dizia-me que só conhecia a cidade até à Praça da República e aquilo surpreendeu-me bastante! Ainda na escola tive um trabalho de verão que consistia em distribuir panfletos de uma pizzaria em caixas de correio pela cidade e isso levou-me a descobrir ainda mais. Agora escapam-me muitos nomes de ruas mas cheguei a conhecê-las bem, até porque também fui taxista em part-time. Fascinam-me os recantos da cidade. Ainda este verão fui conhecer o novo baloiço instagram do Seminário Maior. É uma cidade com várias colinas e isso permite inúmeros pontos de vista em que abraçamos a cidade com os olhos. Gosto desse lado cénico, da ligação com o rio mas sobretudo da sensação de liberdade que a cidade me transmite. Uma liberdade que não posso dissociar da Universidade e de todas as atividades secundárias que esta gera. 

Regresso a Coimbra duas a três vezes por ano e se há coisa que me garante que estou em Coimbra é a "música" do carro sobre o empedrado do Papa à Praça da República.

Costumo regressar ao (espero que) eterno Galeria Santa Clara, caminhar na zona da Praça da República onde tantas vezes esperei o autocarro para casa e dar um passeio pela Baixa, onde ainda espero por um renascimento. Gosto também de encontrar amigos mas é sempre difícil, as vidas separam-se naturalmente. Se algo mudou e me entristece é caminhar pela cidade e não reconhecer ninguém. É como se, tal como eu mudei e saí de Coimbra, também meio mundo saiu e outro meio entrou. Se calhar apenas envelhecemos todos e já ninguém se reconhece nos cabelos brancos ou calvícies. Este verão tive a sorte de reatar contacto com um amigo de escola, há esperança!

Não sou de soluções radicais mas há alguns fatores críticos que necessitam de mudanças claras em Portugal e um deles é a justiça.

Quando a justiça funciona tudo o resto funciona porque as leis existem e não são as piores do mundo. Para além disso, a segurança da justiça atrai investimento e com isso oportunidades profissionais.

Coimbra, infelizmente, precisava de mudar ainda mais do que o país.

Tem um excelente ADN mas está envelhecida e sem uma estratégia de futuro. Comecemos pela autarquia que é hoje dirigida pela mesma pessoa que a dirigia quando eu andava na 4ª classe… Um amigo levou-me a visitar no ano passado as instalações do IPN, que são excelentes e que mostram o melhor que Coimbra pode ambicionar, mas em quase tudo o resto Coimbra é estática e, apesar de inúmeras iniciativas que podem ir aparecendo, não se vê a cidade a avançar, a gerar emprego ou melhores perspectivas profissionais para quem cá se forma. Em inúmeras cidades por todo o mundo as Universidades são críticas para reter talentos nas respectivas regiões mas Coimbra não tem uma estratégia para isso. Fico por isso muito satisfeito quando descubro novas iniciativas como a Coolectiva que dá a conhecer por si outras iniciativas e que sigo com interesse – aderi por exemplo à associação Milvoz graças a vocês!

Se há algo que Coimbra podia aprender com o Luxemburgo é o compromisso político que existe para o desenvolvimento do país.

Pode mudar o Governo, como já aconteceu, mas a visão e estratégia de crescimento permanecem intocáveis. Coimbra precisava de começar pelo primeiro passo: a visão. Gostava muito de voltar a Coimbra e não raras vezes fazemos planos nesse sentido. Penso que também ainda posso dar parte da minha energia à cidade e tenho a certeza que ainda vou encontrar o caminho certo para o fazer no futuro.

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Maria Isabel
19.09.2020

Que dizer? NÃO perco a leitura das vossas publicações. OBRIGADA!

    22.09.2020

    Agradecemos as suas simpáticas palavras, Maria Isabel. É bom tê-la desse lado. Boa semana!