DISCOOLGRAFIA | Tédio Boys vs Lux Records: de Outer Space Shit aos Filhos do Tédio

Texto: Rui Ferreira*

É curioso que tudo tenha começado numa discoteca. E para mim, discoteca foi sempre uma loja de discos e não um local para dançar (a isso chamo uma danceteria).

Em Outubro de 1995, na tal discoteca situada no Centro Comercial Primavera, fui convidado pelo António Cunha para fundar uma nova editora, a Lux Records. O Cunha era um dos donos da Discoteca Fuga e fundador da Kaos Records. As instalações da Fuga serviam de sede improvisada da Kaos, e durante uns tempos, também foi ali a base da Lux.

A Kaos foi pioneira na música de dança e na organização de raves no nosso país, mas o Cunha queria uma outra editora para projectos alternativos que não se encaixavam no perfil da Kaos, e foi assim que nasceu a Lux Records. O nome Lux foi sugerido pelo ex-Repórter Estrábico, António Olaio. Lux era uma danceteria que o José Ferrão (outro membro dos Repórter Estrábico) e os seus irmãos tinham no Centro Comercial Dallas, no Porto, durante a década de 80 e início dos 90.

Para abrir as hostilidades tínhamos três discos na calha: LoudCloud de António Olaio & João Taborda, a compilação do 10º Aniversário da Rádio Universidade de Coimbra (RUC) e Outer Space Shit dos Tédio Boys.

Os dois primeiros seriam editados em simultâneo em Março de 1996, mas as coisas não correram tão bem com o disco dos Tédio Boys. Outer Space Shit foi gravado em Cascais nos estúdios 1 Só Céu dos Delfins, com a preciosa ajuda na produção de Eduardo Pinela (ex-Emílio e a Tribo do Rum e Capitão Fantasma), mas era imperioso pagar as despesas de estúdio para avançar com a edição do disco, e isso nunca veio a acontecer. Nunca digeri bem perder Outer Space Shit e, por isso mesmo, bloqueei o número 03 do catálogo da Lux Records. Para os Tédio Boys fechou-se uma porta, mas abriu-se uma enorme janela. Em Setembro, arrasaram na Festa do Avante e, por acaso, estava lá o Fernando Pinto da Elevator Music, que os levou de imediato para uma grande aventura em terras do Tio Sam.

Há males que vêm por bem e para os Tédio Boys seguiram-se digressões americanas em 1997, 1998 e 1999 (a última com quase meia centena de concertos e com três meses de duração). Em todas as digressões, os Tédio Boys conseguiram sempre tempo para gravar discos com Matt Verta-Ray (Madder Rose, Speedball Baby e Heavy Trash): em 1997, o EP Fuck The Beatles, Go Country!, em 1998 o terceiro álbum de originais Bad Trip e, em 1999, Pussy Nest (disco que até hoje não conheceu edição em formato físico). 

Na Lux Records, depois do falhanço Outer Space Shit, as coisas não voltaram a ser as mesmas. António Cunha (o principal financiador) afastou-se do projecto e havia vários discos em lista de espera, entre eles, Fossanova dos Belle Chase Hotel. Tive que assumir sozinho as rédeas da Lux Records: o primeiro passo foi a mudança de logotipo (idealizado pelo Pedro Arinto na RUC e posteriormente estilizado pelo Sérgio Cardoso) e o segundo foi arranjar soluções económicas para prosseguir com mais edições discográficas. 

Em 1998, um acordo com a editora NorteSul (do grupo Valentim de Carvalho) para a edição de Fossanova permitiu que também saíssem para o mercado os discos de estreia dos Bodhi (The Haunted Sessions) e de Ruby Ann & The Boppin’ Boozers (Boppin’ Like A Chicken). No ano seguinte aconteceu a estreia das edições em vinil na Lux Records com o duplo álbum Fossanova dos Belle Chase Hotel, com um grafismo diferente da edição em CD, e com várias versões exclusivas. 

Mas voltemos aos Tédio Boys. A banda tinha regressado a Portugal depois da longa digressão americana e trazia grandes esperanças para edição em Portugal de Pussy Nest

A Lux Records não tinha na altura capacidade para pagar o valor de licenciamento exigido pela Elevator, e por isso tentei colocar o disco numa grande editora nacional. Todas as respostas foram negativas e rapidamente o espírito irrequieto dos Tédio Boys voltou a dar frutos. Se não há Pussy Nest, vamos gravar mais um EP. Nem queria acreditar quando a banda me abordou para gravar quatro temas para a Lux. Em Setembro de 1999, os Tédio Boys entraram nos Clic Studios (na altura a funcionar numa garagem no Monte Formoso) do Gonçalo Rui (Mancines), e gravaram as quatro canções do Jungle EP: Jungle Rock, Jungle Spirit, Jungle Fever e Sauselito, 1 PM. André Ribeiro ainda tocou baixo nesta derradeira gravação dos Tédio Boys, mas abandonaria a banda pouco depois. Pedro Chau foi o escolhido para ocupar o lugar de baixista. 

Outer Space Shit não foi a terceira edição da Lux Records, mas o número de catálogo foi religiosamente guardado para os Tédio Boys e em meados de Janeiro de 2000 seria finalmente editado em vinil 7” o Jungle EP com o número de catálogo LUXEP03. Jungle EP serviu de pretexto para uma pequena digressão dos Tédio Boys antes de encerrarem actividades em definitivo, no dia 1 de Agosto de 2000.

A Lux Records voltaria a cruzar-se com os Tédio Boys em 2013, com a edição do DVD Os Filhos do Tédio, o documentário realizado por Rita Alcaire e Rodrigo Lacerda. O CD bónus Voodoo Jungle reunia as quatro canções do Jungle EP e ainda dois temas retirados de compilações: Jack The Knife e Voodoo Man.

A história da Lux Records está recheada de encontros, reencontros e desencontros com membros dos Tédio Boys: Toni Fortuna (M’as Foice, D3O, Mancines), Paulo Furtado (Wraygunn, Legendary Tigerman), Victor Torpedo (Tiguana Bibles, Parkinsons) e Kaló (Wraygunn, Bunnyranch, Twist Connection), mas também Sérgio Cardoso (M’as Foice, Wraygunn, Twist Connection), Nito (M’as Foice, D3O) e Pedro Chau (Parkinsons, Ghost Hunt). Quem sabe se o futuro não reservará um novo capítulo na relação Lux Records/Tédio Boys?

Deixa-nos a tua opinião!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.