Abriram as portas do Vale da Arregaça e estamos todos convidados

E se uma guia turística nos levasse ao Vale da Arregaça? Há quem diga que é o segredo mais bem escondido da cidade de Coimbra. E se essa excursão fosse interrompida por uma assembleia de moradores, atravessasse um piquete de greve, apanhasse um comboio fantasma, mergulhasse numa fonte ou acabasse a torcer por uma equipa de futebol? E se, pelo meio, se ouvissem marchas populares, baladas ou músicas de intervenção?

Podemos todos ir ao Vale da Arregaça. Aquele do Campo do União e dos prédios recentes paredes meias com casas devolutas, das quintas em ruína e hortas (!) no meio da cidade. O espectáculo De Portas Abertas, do Teatrão, mete em cena 95 actores, profissionais e amadores, para dar vida à história da zona aparentemente esquecida da cidade de Coimbra, num espectáculo que pode ser assistido online e ao vivo, com as devidas distâncias, das bancadas do Campo Municipal da Arregaça. É o quebrar de um muro que existia entre a zona nobre de Coimbra e o Bairro da Fontanheira, atira Fernando Coelho, da Associação de Moradores do Bairro da Fontanheira. Não nos podemos esquecer que muitas pessoas que ali vivem foram desalojadas da Alta nos anos 40 e 50 (...) Isto é o rasgar do tal muro, para que haja alguma claridade naquilo que devia ser o bairro, que tem de ser dignificado. 

Já Graça Oliveira, da Junta de Freguesia de Santo António dos Olivais, dispara: o Vale da Arregaça tem sido tão mal tratado por toda a gente, isto faz despertar consciências. Eu estava habituada a passar nesta rua, a ver as fogueiras, os jogos do União (...) é uma zona emblemática.

Estamos na apresentação do Projecto de Intervenção Artística e Comunitária, no sítio onde vai ser mostrado depois de um adiamento e adaptação forçados pela pandemia de Covid-19. Connosco, estão os vereadores da Câmara Municipal de Coimbra, Carina Gomes e Francisco Queirós, e alguns dos inúmeros parceiros do projecto, com dramaturgia de Sandra Pinheiro, que começou em Outubro de 2019 com um mapeamento e inquérito a quem habita e frequenta a zona. Fala-se sobretudo de pertença, de cultura e de sentido de comunidade. O título é, desde logo, uma metáfora do que a companhia residente da Oficina Municipal de Teatro (OMT) quer para as relações na cidade: que consigamos resgatar a ideia de estar de portas abertas uns para os outros, explica a directora artística, Isabel Craveiro. Em plena pandemia, o espectáculo é apresentado nos dias 12 e 13 de Setembro, no espaço limitado do Campo Municipal e sem a participação da população, ao contrário do incialmente previsto. 

De Portas Abertas

Por quê o Vale da Arregaça? Porque fica na zona de expansão da OMT, porque acho que a função de um espaço municipal é estar atento e intervir naquilo que é a sua zona, o seu público (...) porque somos curiosos e desejamos mudar coisas, responde Isabel Craveiro. De Portas Abertas foi concebido para ser uma visita guiada e a directora garante que a ideia não foi abandonada. Também há o desejo de inaugurar futuramente uma programação regular na zona com concertos, visitas guiadas, oficinas e leituras. Entretanto, alguns habitantes também já foram pela primeira vez (na vida) ao Teatrão. Parece (e augura-se) um novo capítulo para uma zona em suspenso, com histórias como o encerramento da Sociedade de Porcelanas de Coimbra, em 2005, ao desactivado ramal da Lousã, que aguarda o novo projecto de mobilidade da cidade. Das 95 pessoas no elenco do espectáculo, Cláudia Carvalho, João Santos, Margarida Sousa, Pedro Lamas e Sofia Coelho são actores e professores do Teatrão e 80 são alunos das Classes de Teatro da companhia, oriundos de várias zonas da cidade que, segundo a directora artística, nunca tinham ouvido falar do Vale da Arregaça, revela Isabel Craveiro. 

Comunidade

Foi um processo muito generoso, as pessoas quiseram contar, houve trabalhadores a fazer visitas guiadas, o sindicato dos trabalhadores das porcelanas ajudaram na pesquisa, entrevistámos antigos jogadores e dirigentes do União, jogadores actuais - acho que este tipo de projectos serve exactamente para mobilizarmos a comunidade à volta de um objectivo comum, estamos muito contentes, continua a directora artística. A actriz Margarida de Sousa diz que há personagens que, como habitualmente no trabalho desenvolvido pela companhia, vêm de uma base documental. No meu caso eu nunca serei o 'Senhor Artur' [Conceição] mas as inspirações são concretas, partiram das entrevistas que ouvimos, coisas que vimos e lemos sobre o Vale da Arregaça. Vivo em Coimbra há alguns anos e gostava particularmente de passar no Vale, porque parecia que estava noutro mundo e que bom que eles coexistem, continua. Enquanto actriz e pedagoga, o que acho muito poderoso é ver os miúdos completamente ligados, quando se diz que estas gerações mais novas não querem saber eu acho que elas precisam é de ser mobilizadas e de sentir que fazem parte.

Estreia

O Projecto de Intervenção Artística e Comunitária do Teatrão no Vale da Arregaça é apresentado ao vivo nos dias 12 e 13 de Setembro, às 21h (e Domingo uma outra vez às 11h), no Campo Municipal da Arregaça Está esgotado mas é transmitido em directo na página do Teatrão no Facebook e conta com o acompanhamento musical da banda da Associação Artística e Cultural Salatina. O processo tem sido todo registado em vídeo e vai dar origem a um documentário para ficar para a posterioridade.  

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Filipa Queiroz, Carlos Gomes

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