Explorar as Aldeias Históricas | Almeida

É absolutamente única, a começar pela forma. Com uma praça-forte de planta hexagonal, ou seja, em forma de estrela, é um dos mais espectaculares exemplares europeus dos sistemas defensivos abaluartados do século XVII. Depois de Linhares da BeiraTrancoso, MarialvaPiodão visitamos a aldeia de Almeida, a pé e a cavalo, em mais uma reportagem da série Explorar as Aldeias Históricas.

Almeida fica no concelho da Guarda com o mesmo nome e terá tido origem na migração dos habitantes de um castro lusitano, ocupado em 61 a.C. pelos romanos e depois pelos povos bárbaros. Os árabes deram-lhe o nome por causa de ser num planalto (Al-Mêda significa mesa), onde construiram um pequeno castelo. 

Foi já depois da Reconsquista cristã que D. Dinis lhe concedeu foral e reconstruiu o tal castelo, e não foi único, mas apesar de tudo já só lhe restam ruínas. Almeida é uma vila resistente, que se foi transformando ao longo dos tempos e que hoje é, sem dúvida, um belíssimo destino para um passeio, um refúgio ou uma boa aula de História de Portugal. 

Começámos a nossa visita à Praça-Forte de Almeida, candidata à categoria de Património Mundial da UNESCO, por um dos dois únicos acessos, as Portas Duplas de São Francisco da Cruz, de pedra. Quem quiser pode começar logo aí por visitar o Museu Histórico-Militar para perceber o relevo deste importante braço militar nas Beiras. Depois, seguindo pela Rua Dr. Chegão, começa o desfile de bonitas e arranjadas casas e ruas.

Existência e resistência

A importância da vila de Almeida, que chegou a ser em grande parte arrasada pelas invasões francesas, levou à expansão urbana e institucional. Vale a pena apreciar edifícios como o antigo Quartel de Artilharia, a Vedoria, o Tribunal e a Igreja e Hospital da Misericórdia, de portal clórico - exemplos da arquitetura seiscentista. Por ser praça-forte, o urbanismo está marcado por quarteirões que serviram para alojar os militares, como o caso do antigo quartel de Cavalaria.

Também há o Quartel das Esquadras, a  Casa da Roda - instituição criada por Pina Manique em 1783, para recolhimento de crianças - e é interessante descobrir onde ficam os 6 baluartes com as suas casamatas, que eram as galerias subterrâneas onde a população se recolhia em caso de perigo, que também serviram de prisões miguelistas. O último Esquadrão de Cavalaria saiu de Almeida em 1927 e foi desde então que a vila perdeu a actividade militar que, durante séculos, foi a razão essencial da sua existência. 

Castelo

Se há coisa em Portugal é rico é em castelos, cada um com as suas especificidades. O de Almeida está em ruínas mas nem por isso é menos interessante de conhecer. As ruínas do castelo estão classificadas como Monumento Nacional desde 1928, pressupondo-se que a sua origem seja de fundação muçulmana ou leonesa. Presumivelmente o segundo castelo surge da reedificação do anterior, no reinado de D. Dinis, como já tinhamos referido. O estilo é gótico e a planta não tem mais do que 100 metros, por isso é considerado dos mais pequenos na zona de fronteira.

A nova reforma, já no período de D. Manuel I, foi um projeto de Francisco Danzilho e depois já no séc. XVIII foi refuncionalizado, assumindo a função de armazém de munições e pólvora. Por que é que está em ruínas? Por causa da tal explosão, no dia 26 de Agosto de 1810, durante o cerco da III invasão francesa. 

Picadeiro D'El Rei

Funcionava originalmente como Trem de Artilharia e Arsenal mas sofreu muitas adaptações. Já lá existiram as forjas para a manufactura e reparação do equipamento bélico e esteve instalado um quartel de artilharia e a Fábrica do Pão. Foi reformado no final do século XX e transformado em picadeiro com pequena coudelaria, para prática de actividades equestres. O portal coroado dá-nos uma enorme sensação de realeza e o edifício das manjedouras, o muro circular e as paredes laterais com contrafortes também foram mantidos. Foi lá que conhecemos o Ono e o Wonder, dois belíssimos cavalos que nos levaram num charmoso passeio de charrete pela vila. Quem nos guiou foi Sérgio de Almeida, que contou que faz há 11 anos estes passeios que também podem ser individuais, ou seja, montando o próprio cavalo, desde que já se tenha alguma experiência. A volta à praça-forte dura cerca de 1h e custa entre 14€ e 17€. Não vale terminar  a visita sem ver também as Portas de Santo António, com a interior datada do século XVII e projectada por Jerónimo Velho de Azevedo. 

Celebração do cerco

Almeida celebra todos os anos o cerco de Almeida, que aconteceu entre 15 e 28 de Agosto de 1810, no início da Terceira Invasão Francesa. A praça-forte de Almeida estava sob o comando do Coronel William Cox e uma forte explosão no paiol deixou a praça sem meios de defesa mas alguns oficiais portugueses reagiram e Cox acabou por aceitar a capitulação. Este ano, afectado como sabemos pela pandemia, o Município assinala a data no Facebook e na página oficial na Internet de uma Uma História de Amor entre Henrica e António Cabrera aos olhos do Militar Henegan que mostra que no meio da tragédia há sempre coisas essencialmente belas. 

Texto e fotos: Filipa Queiroz

Viajámos até Trancoso a convite do Turismo do Centro e a propósito do lançamento dos roteiros “Road Trips Centro de Portugal – 1 é bom, 2 é ótimo, 3 nunca é demais”. Podem ver o roteiro da Região Serra da Estrela aqui

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