Este Museu é que nem Pão quente e os miúdos vão adorar

Casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão, a pão e água, pão nosso de cada dia, mão na massa, quantas expressões usamos no dia-a-dia relacionadas com a super estrela dos alimentos feita de farinha, cereal, água e sal ou açúcar? Até a quarentena, no início da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), foi demonstrativa da importância do pão nas nossas vidas, com o regresso à produção caseira e as prateleiras da farinha nos supermercados completemente vazias. 

Em Seia, no coração da Serra da Estrela, há um gigante complexo museológico onde é possível não só almoçar ou jantar muito bem como fazer uma enorme viagem ao mundo do pão. 

Miúdos e graúdos podem divertir-se a descobrir processos de feitura, curiosidades, história e até arte relacionada com o alimento, enquanto apreciam a imersão no delicioso cantinho do país mais perto do céu. 

O Museu do Pão é privado e fica na Quinta Fonte do Marrão, onde, desde 1996, faz um trabalho contínuo de recolha, preservação e exibição de objectos e património do pão português nas vertentes: etnográfica, política, social, histórica, religiosa e artística. Surgiu na sequência de sinergias criadas entre historiadores, empresários e docentes e abriu em 2002. Dina Cruz apresentou-nos os seus encantos, a começar pela atenção aos visitantes mais especiais: as crianças.

Espaço temático

Se quiserem começar com verdadeiro encantamento, comecem pelo Espaço Temático. Peço que mantenham a mente aberta porque vamos recuar mais de 2 mil anos no tempo e voltar aos Monter Hermínios, assim se denominava a nossa Serra da Estrela na Antiguidade, diz Dina Cruz. Não nos vamos cruzar com os lusitanos, quem eu quero que conheçam são os Hérmios, os nossos duendes do pão. A área é absolutamente deliciosa, com enormes cenários coloridos e marionetas em ponto grande. São os gnomos, protetores dos primeiros habitantes dos Montes Hermínios, que nos levam numa viagem imaginária e mitificada ao passado do pão. Cavar, semear, alfaias, sementes, espigas a serem ceifadas e transportadas para a eira, moinhos, noras. Se cada criança que aqui vier sair daqui com uma certeza, a de que a história não começa nas prateleiras dos supermercados, para nós é uma vitória. Formada em Economia e padeira de 3ª geração, nota-se na nossa simpática guia a paixão que tem pelo museu onde se alia o saber ao sabor.

Museu

A recolha de espólio do Museu do Pão é contínua. As úmais recentes e importantes aquisições foram a escrivaninha de Fernando Pessoa, uma rara 1ª edição da obra Mensagem e um par de óculos (emprestados à Brasileira do Chiado), adquiridas pelo Museu num leilão de bens pertencentes à família do escritor que em muitos poemas faz referências ao pão, alguns destacados no Museu. Além da sala Arte do Pão, com azulejaria, vidro, arte sacra, madeira, postais antigos, diplomas, calendários, iconografia, cerâmica, prata, entre outros, existe a sala expositiva Ciclo do Pão, que pretende reconstituir o antigo ciclo tradicional do pão português através de painéis ilustrados e onde se recria uma antiga padaria e observam-se moinhos em laboração, por exemplo. Na sala Pão Político, Social e Religioso reconstitui-se a história do pão em Portugal, desde a Restauração da Independência (1640) até à Restauração da Democracia (1974). São cerca de 300 anos de História reproduzida em centenas de documentos originais dos mais variados tipos. 

Não faltam referências a personagens como a Rainha Santa Isabel - autora do célebre Milagre do Pão e uma das santas padroeiras dos padeiros -, senhas de racionamento usadas durante a Estado Novo, entre outros que fizeram os nossos olhos arregalar. O pão é universal e o seu universo é vastíssimo, atira Graça Freitas. Ainda hoje adoptamos no dia-a-dia expressões e gestos que estão ligados ao pão, o simples gesto de roçar os dedos indicador e polegar para indicar dinheiro ou que alguma coisa é cara vem do pão, por causa da farinha - era asssim que o moleiro descobria a qualidade e textura.  

Se quiserem ver com detalhe, preparem-se para passar algum tempo no espaço museológico que está aberto de terça a sexta-feira e ao Domingo das 10h às 18h e aos Sábados das 10h às 18h. A entrada custa 5€ aos adultos, com desconto para os reformados, e 3€ às crianças. Há desconto também para grupos que fazem pré-marcação e transporte, é uma questão de consultarem o site oficial ou contactarem o Museu.

 

Restaurante

Não menos importante do que o Museu e, aliás, motivo para muitos visitantes lá irem de propósito, é o restaurante do Museu do Pão. O restaurante ocupa uma espaçosa sala de pedra com uma vista incrível sobre a Serra da Estrela e é um espaço privilegiado para apreciar a gastronomia da região, com destaque para os pratos que têm o pão como base. Provámos o Bacalhau à Museu, Bacalhau com pão broa mas há Entrecosto com feijocas e grelos e Açordas várias, entre muitas outras coisas. Por um preço fixo, podem saborear de tudo porque funciona em sistema buffet que inclui entradas, pratos quentes, de carne e peixe, e sobremesas. Está aberto de 3ª a 6ª ao almoço, das 12:30 às 15:30, ao Sábado das 12h às 15h30 e das 19:30 às 22:30 e ao Domingo também almoço: das 12h às 16:30.

Dentro do museu também há um surpreendente bar, decorado com candeeiros feitos com a massa do pão e repleto de obras de arte, que vale a pena a visita. Acreditamos que a cultura deve ser acessível a todos, rematou Graça Freitas. A peça mais antiga é um quadro barroco do século XVII que representa a Pietà e que está lá, onde toda a gente entra. 

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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