Este é o Parque da Cidade e das memórias de todos nós

Se há lugar em Coimbra que remete para a infância de quem por cá viveu ou para os primeiros amores, esse lugar é o Parque Dr. Manuel Braga, o chamado Parque da Cidade. Encostado à Avenida Emídio Navarro, que acompanha a margem esquerda do Mondego, o parque vai ser requalificado em breve e os muros da orla ribeirinha, em toda a sua extensão, estabilizados.

Qualquer desculpa seria boa mas vamos pegar nesta para contar a história do lugar que tem o seu quê de encantado e que inicialmente pertencia aos monges beneditinos. Conseguem imaginar lá corridas de cavalos? Pois chegou a haver, num descampado. Ainda se chamava Ínsua dos Bentos, tinha muitos laranjais e também chegou a jogar lá a Académica. No instável rio Mondego, que por isso até foi baptizado de Basófias, passavam as barcas serranas, para cima e para baixo. Dal, viam-se bem as imensas manchas brancas dos lençóis imaculados estendidos pelas lavadeiras. 

Com certeza volta e meia lá passavam as tricanas também, descritas por escritores e poetas, carregadas com os seus cântaros de barro ou lata para ir buscar água. A Ínsua dos Bentos foi comprada pela autarquia há mais de um século e transformada em jardim público já nos anos 20, do século XX. Quem lhe desenhou as formas e encheu de plátanos, tílias, olaias, castanheiros-da índia e ulmeiros foi o paisagista floricultor portuense Jacinto de Matos. Foi construído com aterro e protegido por um talude marginal revestido a pedra, onde fazem as delícias de todos as chamadas namoradeiras, os banquinhos com dois lugares, um virado para o outro, decorados com azulejos da Fábrica Aleluia, de Aveiro.

Por quê Dr. Manuel Braga? Porque foi um grande impulsionador na valorização e criação de espaços verdes na cidade, como a Mata de Vale de Canas e os jardins da Avenida Sá da Bandeira. 

Alameda dos plátanos

Não deve haver conimbricense ou coimbrão que não tenha uma foto na imponente alameda dos plátanos no Parque da Cidade, junto ao rio. Aí ou no coreto, desenhado pelo arquitecto Silva Pinto e inaugurado por ocasião das festas da Rainha Santa, no dia 4 de julho de 1904. Estava noutro sítio, foi transferido para o actual local passados 30 anos e nunca passa despercebido com a sua bonita cúpula de ferro fundido decorada, a meio de cada face, por uma harpa e uma grimpa em ferro forjado no coroamento.

Também há uma alameda de tílias e canteiros ajardinados para descobrir, com desenhos de buxos e flores que compõem, por exemplo, o brasão da Rainha Isabel de Aragão, padroeira da cidade, o escudo de Coimbra e o símbolo da Associação Académica. No pequenino lago, costumava haver patos e cisnes - quem se lembra de lhes dar de comer? -, agora encontram patos um pouco mais à frente, no moderno Parque Verde, que prolonga o manto verde pela beira rio fora. 

Barca serrana

Outro favorito é a barca serrana, estacionada junto ao actual Museu da Água. As barcas faziam o transporte de mercadorias entre Penacova e a Figueira da Foz, devem o nome ao facto de virem da serra carregadas de lenha, carqueja e ramagem, vendida para os fornos da cidade.

O Museu da Água, ocupa a antiga estação elevatória e de tratamento de água para abastecimento da rede pública, construída em 1922 e conhecida como Casinha do Parque. Foi concebida pelos arquitetos João Mendes Ribeiro, Alberto Lapa e Paolo Monzo para retratar a própria história do abastecimento público de água e inaugurado em Março de 2007. Costuma albergar exposições e outros eventos culturais. Já experimentaram entrar e descer? Foi aproveitado o túnel subterrâneo e há uma esplanada mesmo junto às margens do rio. Tem vista privilegiada para a fonte luminosa (ou fonte cibernética flutuante), inaugurada em 2018 pela empresa municipal Águas de Coimbra, por altura das Festas da Cidade. 

Monumentos

Há vários monumentos espalhados pelo parque, sobretudo esculturas em bronze e mármore, a começar pelo belo busto de Antero de Quental (1842-1891), do escultor Diogo de Macedoque. Na verdade, foi feita e inaugurada originalmente em Lisboa, oferecido por um jornal açoriano (terra natal de Antero de Quental) e colocado no Jardim da Estrela, mas depois foi oferecida pelo Município lisboeta a Coimbra, cidade onde o escritor estudou Direito e manifestou as primeiras ideias políticas. Fundou aqui a Sociedade do Raio, que pretendia renovar o país pela literatura, além de publicar sonetos e ter iniciado a Questão Coimbrã. 

Florbela Espanca (1894-1930) também mora no Parque da Cidade. Uma obra encomendada pelo Grupo de Arqueologia e Arte do Centro ao escultor galego Armando Martínez, presta homenagem à poetiza assinalando o primeiro centenário do nascimento, em 1994. Alentejana, Florbela foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar um curso liceal, chegou a ser jornalista e a estar matriculada na Faculdade de Direito de Lisboa. 

Memória

Mais recentes, há ainda dois monumentos a duas personalidades bem ligadas à cidade. O monumento a Manuel Alegre, em bronze, onde o escritor e político, conhecido pela obra mas também pela tomada de posição contra a ditadura, a guerra colonial e o regime do Estado Novo, aparece envolto numa capa de estudante a simbolizar o espírito inconformista da academia de Coimbra, pautado pela liberdade, pela justiça, pela igualdade e pela poesia. Foi feita para comemorar os 40 anos de vida literária de Alegre e inaugurado em 2005. Pedro Figueiredo assina um busto de homenagem ao advogado e político António Arnaut, antigo ministro e fundador do Serviço Nacional de Saúde, falecido em Coimbra em 2018. Na placa lê-se uma frase do também poeta e escritor: Todo o fruto é vontade da semente.

Dos banquinhos vermelhos aos tapetes de enormes folhas de plátanos e tílias caídas, tudo faz parte do imaginário poético da cidade, querido por quem vive e por quem passa e não menos impressionante visto do céu - com a sua forma de triângulo -, ou do rio. É lá que fica a entrada para o passeio no barco Basófias. Já deram uma voltinha?

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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