Diário de viagem: costa portuguesa em bicicleta (DIAS 13 – 19)

Este é o diário das férias pela costa portuguesa fora em bicicleta de Henrique Patrício. São 1.200km de Rota da Costa Atlântica sobre duas rodas, de Caminha até Coimbra, de Coimbra até Lisboa e sempre a descer até ao Algarve, sempre na companhia do catalão Alex Tebar.  

DIA 19

FARO - VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO
64 KM
TOTAL: 1293 KM

Para terminar vou regressar ao princípio. 

Lembram-se da epopeia do transporte de bicicletas que se passou com o Alex, no início? Pois continuou. Já lá vamos.

Acordámos com ganas de terminar o périplo mas também com aquela sensação de quem termina uma sobremesa deliciosa e não se importava de comer outra de seguida! Saímos directos para Olhão, onde tomámos o desayuno junto ao mercado e depois seguimos caminho. Aqui a Ecovia Litoral está melhor do que em algumas partes. Há zonas em que acompanhámos os carros na estrada e outras em que fomos pela Ria Formosa e pelas Salinas. Em ambos os casos, está tudo bem marcado. Diria até exageradamente marcado. Depois da Fuseta começam a aparecer as setas amarelas de Santiago de Compostela em barda! Anunciam já a ligação à Via de la Plata, o caminho mais longo e dos mais duros de fazer para Santiago. São tantas as setas que em alguns locais há 4 e 5 no espaço de 20 metros! Ninguém se perde!

O caminho não é nada feio ou não estivéssemos nós na Ria Formosa. Até quando nos enganámos numa parte nas salinas a coisa correu muito bem pois fomos de encontro a um bando de flamingos a petiscar! É sempre uma visão bonita ver estas aves raras de pernas e pescoços longos e os seus bicos estranhos à procura das algas e crustáceos na água. Estes, provavelmente devido à falta do caroteno na alimentação, eram de um rosa pálido e mais forte na zona por baixo das asas. Mal nos viram levantaram voo. Lá fomos seguindo caminho parando ainda em a Tavira para comer e, depois, na bela Praia da Cacela Velha, de onde fomos directos para Vila Real de Santo António. 

Foi com aquela sensação do Já acabou? mas também Yeah, já acabou! que tirámos a foto logo à entrada. Depois fomos ter com o Celso Bento e a Paula Gaitas para beber uma cerveja e festejar o fim dos quase 1300km de costa. E, agora já se pode dizer: sem furos nem nenhuma avaria técnica! Zero. Mesmo atravessando locais mais feitos para uma prova de downhill ou tractor do que para duas bicicletas carregadas. Nada! Depois do ligeiro descanso e da cerveja, a ideia era apanhar o ferry até Ayamonte e entregar a bicicleta do Alex na MRW, onde já esperavam com uma caixa de transporte, regressar no ferry a Vila Real e apanhar o comboio para Faro onde já tínhamos hostel para a noite. E foi quase isso que aconteceu! Depois de brindarmos ao final, o Alex decidiu que iria levar todos os Fritos da Matutano que conseguisse! Sim, isso. Em Espanha, onde se fabricam, já não se vendem há anos. Pelos vistos há até um grupo de Facebook onde pessoas pedem o regresso e o Alex está entre alguns que escreveram cartas à Pepsico a perguntar a razão de terem terminado. Quando viu que havia cá, passou os dias a comer daquilo e comprou 18 pacotes para levar!

Quando regressou das compras fomos directos ao ferry e descobrimos que, afinal, tínhamos como ir a Ayamonte mas não como regressar. Os horários que estão online de nada servem pois: não estão bem porque ainda não conseguiram mudar no site. Aqui, entra o lost in translation que tanto caracterizou o nosso percurso. Mesmo explicando que o ferry arrancava às 18h30 SE houvesse muita gente, senão só arrancava às 19h, o Alex já visivelmente preocupado decidiu que ia e regressava de táxi sozinho, mesmo depois de o Celso dizer que nos levava de carro. Eu regressei ao centro calmamente, deixei a bicicleta em casa deles e fomos os 3 a Ayamonte.

Quando chegámos já a MRW estava quase a fechar e o Alex ainda estava no barco, ao sol, de máscara… e em Portugal! Fomos falar com a senhora atrás do balcão que,  super compreensiva, junto com o colega que apareceu mais tarde, disse logo: OK, nós esperamos, sem problema! Que descanso. Só faltava chegar a bicicleta. O Celso foi sozinho ao cais carregá-la no carro para ser mais rápido a chegar, enquanto o Alex mudava de roupa em andamento! Como agradecimento, deixámos 4 cervejas que comprei no único tasco aberto ali próximo e um pacote de Fritos. 

Mais descansados, regressámos a Portugal pois tínhamos 40 minutos para apanhar o último comboio! Chegámos com tempo e, depois do agradecimento aos salvadores, lá regressámos a Faro. O jantar foi-nos sugerido pela Helena do Alameda Exclusive House. Ela que, confessou, também tem o sonho de fazer a costa de bicicleta. Será a próxima? Fomos à A Tasca do João num largo bem simpático, com uma esplanada arborizada e um espaço a lembrar os pequenos restaurantes de Monmartre. Comemos petiscos mas de uma qualidade muito acima da média. Só precisámos de negociar os pratos com e sem cebola e tomate, por causa da alergia do Alex. 

Bacalhau Fresco com Creme de Coentros era o único com cebola mas eu não resisti a pedir. Divinal! Atum com Molho de Mostarda e Mel, Lingueirão Alhado, Pica Pau com Maçã (num tempero asiático a lembrar o pato à pequim) e uns Cubinhos de Peru. O Alex faz questão de regressar hoje, já reservou mesa. Descanso, banho para a Alzira, que se portou tão bem, e jantar de despedida.

Foram 19 dias em que partilhei(ámos) com vocês esta aventura que há muito queria fazer. Dias de muita coisa, nem tudo possível de passar para texto e em que vimos o melhor e o pior de Portugal, com momentos de riso e felicidade e horas passadas ao calor em cima da bicicleta. Mas essa parte é aquela que me faz querer continuar. Sei que muitos só passam os olhos nas fotos mas escrever diariamente ajudou-me a rever mentalmente o dia e guardar, para mais tarde recordar. Escrevia quase sempre ao deitar e quando (várias vezes) adormecia de cansaço acabava assim que acordava. Nos próximos dias vou tentar deixar dicas técnicas e sugestões pessoais na minha página e disponibilizar registos do percurso, para quem se quiser aventurar. Um abraço a todos e todas e um grande beijo à Filipa Queiroz e à Coolectiva pelo convite, disponibilidade e trabalho nestas semanas. A todos, muito bem hajam pela companhia! 

Até breve e já sabem: ponham-se a pedalar, porra! 

DIA 18

PORTIMÃO - FARO
91 KM
TOTAL: 1199 KM

Percorremos o país todo e em todo o lado encontrei amigos disponíveis para nos receber. Sempre muito bem e cada um à sua maneira, outros até houve que, querendo, não lhes consegui dar essa oportunidade desta vez. Mas a recepção em Faro, quase a terminar a aventura, foi por demasiado boa e encheu-me o coração!

Hoje contávamos com uma etapa mais pequena, com o estudo que fizemos. Até nos demos ao luxo de demorar um pouco mais para resolver a questão do envio da bicicleta do Alex para Barcelona. Em Espanha as empresas facilitam uma caixa, onde cabe a bicicleta desmontada e até os alforges vão juntos. Não há que enganar. Aqui nem as empresas espanholas fazem esse serviço e as que responderam disseram que teríamos de ser nós a embrulhar ou encaixotar a bicicleta. Solução? Já que está marcada a ida a Ayamonte para finalizar o périplo, enviamos de lá! Fácil. Tinhamos tudo combinado mas levou-nos tempo precioso de manhã que pagámos à tarde. Disparados até à Praia do Carvoeiro, não nos cruzámos com o Beto Kaluku mas a sua música soou na minha coluna portátil todo o tempo, enquanto por ela passamos.

Depois foi a vez de entrar no Algarve que não tem piada nenhuma: casas gigantes atrás de casas gigantes e jardins ainda maiores. Andámos em alguns parte-pernas, como a descida e depois subida de Benagil ou do Carvoeiro, entre outros.

Pelo meio tivemos uma aventura quando nos metemos num caminho onde o mato crescido nos fez carregar a bicicleta à mão por um bocado, enquanto trincava umas alfarrobas. Cansados, como estávamos perto da Guia fomos trincar um franguinho grelhado e no fim tivemos a companhia do Mário Santos, que na sua bicicleta elétrica nos mostrou o caminho e acompanhou até à Marina de Albufeira. A melhor parte do percurso foi mais tarde, da Praia da Falésia até Vilamoura, pelo cimo das escarpas. Não é caminho para quem tem vertigens mas adorei! É divertido, com muitas subidas duras e técnicas e descidas igualmente desafiantes. Em Vilamoura fizemos a Marina por entre Ferraris, Lamborghinis, Bentleys, Rolls Royce e outras máquinas envergonhadas perante a presença da minha Alzira, claro!  

Lá, subimos ainda pelas escadas rolantes com as bicicletas. Se todas as praias tivessem isto teria sido bem mais fácil! Como todos os caminhos que tomamos de referência nos levavam à volta de Vale do Lobo assim o fizemos para depois, na Praia do Ancão, entrarmos na Ria Formosa. Fizemos um dos percursos mais bonitos a pedalar até ao aeroporto, que contornámos na companhia de outros três ciclistas, enquanto os aviões nos sobrevoavam para aterrar ou levantar voo. Experiência interessante onde até eu quase aterrei enquanto um avião fazia o mesmo! Chegámos exauridos a Faro mas o Artur Filipe recebeu-nos como manda a lei: choco frito (4ª vez e a melhor de todas!) e umas fresquinhas! Depois veio a recepção das gefaquianas em casa da Ana Miguel, com as cozinheiras Mariana Keating e Inês Cardoso! À entrada de casa tivemos direito a uma meta com espumante, taça, flores e beijinhos das meninas! Foi espectacular! Depois tivemos um jantar excelente, onde o Alex teve direito a lasanha especial só para ele (sem cebola nem tomate) e à meia-noite celebrámos os 40 do Artur! Que bela data para estar presente. Parabéns, Amigo! Saímos tarde mas de coração cheio. Hoje quando lerem isto já estaremos a pedalar a nossa última etapa. Logo contarei os detalhes. 

 Até amanhã e ponham-se a pedalar, porra!

DIA 17

SAGRES - PORTIMÃO
73 KM
TOTAL: 1108 KM

Hoje tivemos mais um dia de parte-pernas! Não seria complicado se não tivéssemos feito ontem aquela etapa louca e se estivesse mais fresco…mas não, o sol também não ajudou. Acordámos com a vontade de um soldado que vai para a frente de batalha - pouca! Logo fizemos 8km de Estrada Nacional, peito ao vento, até ao pequeno-almoço em Vila da Bispo. O habitual abatanado ou americano con hielo foi acompanhado por uma torrada e um pastel de alfarroba, que o açúcar pode ser necessário. 

O Eurovelo 1 parecia perfeito, pois afastava-nos da 125 que tinha mais trânsito, mantendo-nos mais junto à costa. E foi bom, muito bom, mas bem mais duro! Um constante sobe e desce de cada vez que chegávamos a uma praia. É preciso força para puxar 30kg  numa subida a rondar ou até acima dos 20% de inclinação, mas também é preciso ter bons travões que aguentem a mesma inclinação a descer, como em Salema. E sim, o cansaço do dia anterior fez-se notar.

Mas lá viemos! O percurso vale muito a pena. Não temos as escarpas maravilhosas da Costa Vicentina, mas entrámos pelo Algarve rural adentro, onde não há carros nem turistas, em caminhos de alcatrão ou de terra marcados para as bicicletas que atravessam quintas e montes, de praia em praia. Salema, Burgau, Praia da Luz, Dona Ana, Lagos, Meia Praia e Praia da Rocha, onde fizemos questão der ir dar um mergulho, levando as bicicletas até à areia. A Alzira adorou, acho que até vai estranhar não ter areia e sal quando isto terminar! Na verdade, assim como a nós, também o sal em demasia lhe faz mal, vamos ver se não foi já demasiado! 

Está tudo mais que escolhido e esgotado pelo Algarve, mas conseguimos ficar num quartinho com WC da Pousada da Juventude, com varanda e duas camas individuais. Não se está nada mal. 

Ainda melhor, apanhámos os amigos Pedro Serra e Cátia Melo com os seus rebentos, que nos trouxeram uma geladinha Portuguese Pedro para abrir as hostilidades e nos ofereceram o jantar (muito bem hajam!) num sítio que vos recomendo e que foi sugestão do amigo Tó-Zé Baptista, do Portugal Profundo, Celorico da Beira: a Taberna da Maré! Situada no Largo da Barca, ao pé da Ponte Velha, com uma decoração à antiga e três salas para servir, não falharam nada. Um Arroz de Lingueirão irrepreensível, a escorrer, acabado de fazer e carregado de bicho, um Bife de Atum Grelhado, umas Amêijoas (gigantes) e Camarões Fritos, com uma delícia algarvia e uns medronhos a rematar! Estava tudo impecável e só a companhia ultrapassou a qualidade da comida.  

Agora descansamos para o dia de amanhã. Faltam-nos dois dias até Vila Real de Santo António. Embora hoje tenha sido um dia extenuante, em que já começámos a pensar em largar a bicicleta, também começa a bater a nostalgia habitual do fim de férias. Mas…se durassem para sempre, não seriam férias, certo?

Até amanhã e ponham-se a pedalar, porra! 

DIA 16

NOVA DE MILFONTES - SAGRES
132 KM
TOTAL: 1035 KM

Já está, mais a Sul não dá!

Se ontem fizemos só 35 km e a etapa de Coimbra tinha sido a mais longa, a de Sintra a com mais subidas e a da Arrábida aquela a que subimos mais alto, hoje quebramos quase todas essas marcas. Só a da Arrábida não conseguimos nem vamos conseguir, nesta viagem. Fizemos 132 km, com uma média de quase 20 km/h e com o acumulado de elevação de 1355 metros. Isto, quando só atingimos o ponto mais alto de 180 metros! É um constante sobe e desce, com rampas bem duras! Já experimentaram a subida de Porto das Vacas? E subir ao Castelo de Aljezur continuando depois até Monte Clérigo? E sair de Monte Clérigo de barriga cheia? E a saída Sul da Zambujeira? Já? Se fizeram em bicicleta carregada com alforges percebem então a dureza! Mas hoje tivemos algumas surpresas que nos fizeram o dia e, ainda por cima, apareceram nos melhores locais! 

Logo de manhã, ao pequeno-almoço, tivemos a companhia do Nuno Ribeiro, em Almograve! É sempre bom estar com ele, nem que seja por um bocadinho. Antigo companheiro de muita pedalada, muitos quilómetros pela zona da Serra da Estrela mas também de aventuras pelo associativismo jovem local. É uma amizade que a distância não diminuiu em nada. E sei que lhe deixámos o bichinho de voltar a pegar na bicicleta para se juntar numa viagem, um dia destes! Depois de fazermos todo o Trilho dos Pescadores, desde o Cabo Sardão até ao Porto das Vacas - em curva e contra-curva e ligeiro sobe e desce por cima das escarpas, numa paisagem deslumbrante -, tivemos de descer a escadaria de Porto das Vacas com a bicla na mão e fomos saltitando entre o alcatrão e as estradas de terra, que circundam os vários hectares de terrenos de estufa da zona até à Azenha do Mar, com as suas ruas com nomes de peixes. 

Quando tivemos a confirmação de que teríamos companhia para almoço, decidimos marcar este em Monte Clérigo, que eu ainda não conhecia. A caminho, em sentido contrário, vinha a trupe GEFAC com o Fong, a Maria, a Andrea e o Ricky (estes dois repetentes nesta viagem) que nos esperaram ao fundo da ponte na fronteira entre o Alentejo do Algarve! Foi incrível. Começamos a ouvir palmas e gritos e pessoas aos saltos! Eu reconheci logo mas o Alex, mesmo depois de parar, estava meio desconfiado com tanto louco junto. Só quando viu o Ricky percebeu que eram amigos, principalmente porque trazia umas minis fresquinhas para nos dar força na subida dura de Odeceixe que tínhamos pela frente! Foi o melhor encontro que eu podia ter tido hoje. Bem hajam, do fundo do coração. 

Saindo com a força da barra energética que nos deram, chegamos a Aljezur a rolar a mais de 30km/h. Fizemos uma paragem rápida e decidimos subir ao Castelo, como se não houvesse subidas suficientes pela frente. Ao chegarmos a Monte Clérigo tivemos outra surpresa! Já os esperávamos, mas não atravessados na estrada com um cartaz! Os carros paravam sem saber o que se passava e quem ia de chinelo para a praia parou a olhar! 

Eram dois grandes amigos do Alex: Anjels e o filho, Janluca. Saltavam com uma cartolina  branca a desejar boa viagem! Sozinhos fizeram um festão! Quanta alegria e felicidade! Foi o melhor encontro que o Alex podia ter tido hoje.

O almoço foi logo ali, no restaurante O Zé de Monte Clérigo, onde o Fong havia passado a deixar uma garrafa para nos acompanhar a refeição. E a qualidade não falhou. A comida estava impecável. Amêijoa não havia mas fizeram Conquilhas, deliciosas, os Percebes fresquinhas, cozidos a vapor na hora e a transbordar de mar, umas Lulinhas Fritas, um Bacalhau com Marisco para compor e um medronho para terminar! É local para regressar!

Depois disto tudo, ficámos sem coragem de fazer os últimos 70km por estradas de terra e optámos por fazer 50 km pela Nacional. E ainda bem. Chegámos a Sagres rebentados mas a tempo de comprar duas fresquinhas e dois pastéis de amêndoa para ir ver ainda os últimos 10 minutos de pôr-do-sol!  Agora, depois de banho tomado e uma bifana ali no Oliveirinha, já estamos pela cama e o sono está a chegar rápido sobre este corpo cansado, mas com a alma feliz. 

Até amanhã e ponham-se a pedalar!

DIA 15

SINES - VILA NOVA DE MILFONTES
35 KM
TOTAL: 903 KM

Sim, leram bem, hoje só fizemos 35km - nas calmas e a apreciar a paisagem da bela Costa Vicentina. Saímos de Sines depois de virarmos a caixa de Vasquinhos, com doce de amêndoa e gila para dar a energia necessária à etapa, e a ajuda do amigo Zé Mendes que ofereceu o café. Assim que chegamos a São Torpes, logo o azul turquesa começou a dar vontade de entrar mar adentro. Já sabia que ia ser assim por isso, há dois dias, marcámos o hostel em Milfontes para chegarmos com tempo de dar um mergulho. Fizemos parte do Trilho dos Pescadores – sempre que possível, pois há zonas com muita areia – e passámos junto às minhas praias favoritas. 

Parámos em Porto Covo para abastecer de água. Quem conhece de certeza que não ficou indiferente à aldeia costeira de casas tipicamente alentejanas, rasteiras e caiadas de branco, este ano com menos turistas, o que só lhe aumenta a beleza. Descemos à Praia da Baía de Porto Covo e seguimos caminho até à mágica Ilha do Pessegueiro, por um caminho de terra por cima das escarpas. Depois de repormos o nível de cevada com uma cervejinha a olhar a ilha, seguimos junto ao forte por um estradão de terra batida e nem ouvimos a Bárbara Gil a chamar para mais uma (não te safas da próxima)! O estradão, apenas interrompido por uns 2 km de alcatrão, levou-nos até Vila Nova de Milfontes, onde passei muitos verões de infância. 

Almoçámos no centro e como não ficamos agradados com o restaurante decidimos tomar café noutro lado e, antes de irmos à praia, parámos no Quebra Bar!! Isso mesmo, encontrámos outro! Como a sangria de melancia tinha muito bom aspecto, a Sara, que nos serviu os cafés, logo nos convenceu a regressar para o jantar. E assim fizemos! Depois da expectável soneca na praia, do mergulho e de uma pequena volta pela vila que eu precisava de rever, fomos ao banho e regressámos ao Quebra! Abrimos as hostilidades com umas tiras de entremeada à alentejana, ou seja, com azeite, coentros e alho, acompanhados pela bela sangria de melancia! Delícia gelada! Depois, Lagartos com Migas e Picanha com Couve Salteada! Fiquei mais cheio que a Worten numa Black Friday mas o catalão ainda queria comer todos os doces! Atacou um cheesecake de maracujá com uma amêndoa amarga, enquanto eu me fiquei pela tradicional (delícia) aguardente de medronho. A simpatia de toda a equipa (e da Sara e do namorado, com quem falámos mais) num espaço bem cuidado, com grelhador a carvão e comida bem temperada, fez-nos a noite! O preço foi um pouco mais que o esperado mas compensa sempre quando tudo o resto supera. Com uma voltinha por Milfontes pra desmoer e uns minutos a ver um circo de rua, que há muito tempo não encontrava, regressámos à base, prontos para mais um dia.

 Até amanhã e ponham-se a pedalar!

DIA 14

SETÚBAL - SINES
72 KM
TOTAL: 869 KM

Cansados, chegámos a Sines – como se tivéssemos chegado a um sítio perdido na paisagem da imensa noite – pelas intermináveis e monótonas auto-estradas que terminam, subitamente, no mar.

Al Berto

Lá deixámos Setúbal para trás, atravessando a península no ferry. Antes disso, ainda descobrimos que existiu em Setúbal uma personagem, um homem de mil ofícios, com um currículo impressionante: Francisco Finura! Ora procurem aí e vão ver se era ou não impressionante.  Como já devem ter percebido, nós não somos de muitos luxos e, como tal, optamos por nem ir a Tróia. E talvez algum dia alguém me conseguirá também fazer ver o fascínio da Comporta porque sozinho não chego lá. No entanto, foi espectacular lá chegar e ter, essa sim, uma visão rara: o grande Engenheiro da Noite, Zé Miguel, ao vivo e a cores, à luz do Sol! E não parecia estar a dissolver-se muito mais que os restantes mortais! Obviamente que deu azo à primeira fresquinha do dia! 

Depois seguimos caminho, pelas intermináveis rectas e o calor do Alentejo (finalmente um dia quente) para Melides, onde almoçámos muito bem no snack bar O Fadista, aconselhados pela minha amiga Susana Pereira. Depois do melhor choco frito da viagem - sim, melhor do que em Setúbal - lá fomos nós de pança cheia enfrentar mais uns quilómetros de sol e rectas de alcatrão. Apenas um pequeno troço de terra. Em Vila Nova de Santo André visitei a Pop King da Ana Mendes Silva, mãe da Susana e, ao chegar ao nosso hostel, em Sines, mesmo em frente, estava a outra Pop King, com o irmão e a cunhada que teve alguma luta para me reconhecer mascarado de ciclista! É tudo malta amiga, das Casas de Soeiro, Celorico da Beira, essa terra tão piquena que tão vistosos filhos tem!

Pelo caminho ainda encontrámos um caminhante, de mochila às costas, com uma cadela ao lado e a empurrar um carrinho de bebé…cheio de cachorrinhos recém nascidos! Foi uma distração, disse. Vinha para Sines, espero que tenham chegado bem.

Pela segunda vez nesta viagem não encontrámos nada disponível nos sites de reserva de quartos mas, depois, ao contactar directamente, percebemos que afinal há vagas. Desta vez foi o irmão da Susana, o meu amigo Edgar Silva, que nos safou. 

Fomos bem recebidos no Origens Hostel pela dona Isabel. É super simpática e aposto que nos recebeu com um sorriso - isto porque, agora com as máscaras, não vemos os dentes a ninguém, não é? Tem cozinha equipada, uma sala, 4 casas de banho e temos um quarto só para nós, com dois beliches e WC. Fica mesmo na zona histórica junto ao Centro de Artes de Sines e pertinho do Castelo e da estátua do Vasco da Gama.

A estátua do Vasco da Gama sempre me recordará o meu sobrinho Vasco. Nasceu em 2017, quando o tio se aventurava de Coimbra a Sagres em bicicleta. Coincidentemente parei ali, junto à estátua, para ligar à mana a dar os parabéns, a olhar para a praia Vasco da Gama! Não podia ter sido maior a coincidência.  

Depois do banho tomado, fomos beber aquela cerveja da praxe numa esplanada ao sol, mas ele já se escapava atrás dos muros do Castelo de Sines e o vento, em braços e pernas castigadas pelo sol, fez-nos regressar ao hostel.

No caminho demos com a pastelaria Vela de Ouro, que tinha Vasquinhos e Al'Bertos. Acabamos por tomar um café e enfiar mais açúcar pela goela abaixo, muito por culpa da excelente vendedora atrás do balcão que ofereceu um Vasquinho ao Alex, para logo de seguida lhe vender uma caixa com meia dúzia! Fica para repor as energias gastas. 

De pança cheia com o lanche das 19h, já me informei com a autóctone Filipa Alves onde é que devemos ir comer um prego no pão mais logo. Só espero é não regressar mais magro!

 

Até amanhã e ponham-se a pedalar!

DIA 13

LISBOA - SETÚBAL
77 KM
TOTAL: 797 KM

Meus caros, se ontem foi a Etapa Rainha (pelo acumulado de subidas) na de hoje subimos ao ponto mais alto: a Serra da Arrábida. Uns estonteantes 300 metros de altura! Ehehehhe! Claro que é muito pouco mas, mais do que isto acho que não vamos encontrar. Ou vamos? Nem tenho a certeza mas também não me preocupa, neste momento.

Do Rossio regressámos a Belém e apanhámos o ferry até à Trafaria. Daí, fizemos a Costa da Caparica até à Fonte da Telha, onde chegámos por uma estrada de terra batida, através da Arriba Fóssil da Costa da Caparica! Belo atalho. Depois de comermos algo lá, que já eram 14h, começámos então com a primeira subida do dia. Uma rampa bem inclinada foi a nossa sobremesa!  

E assim fomos, por estradas nacionais (pouco) e por caminhos de terra, até à Cotovia. Como já íamos subir a Serra até ao Portinho da Arrábida, decidimos não descer até Sesimbra para depois tornar a subir tudo de novo. Subimos parte da Serra, por um caminho Municipal, de terra, que não conhecia. Impecável. Fomos subindo, lentamente, mas assim que entrámos no alcatrão logo levámos com a marreta até começarmos a descer ao Portinho. A chegada ao Portinho, até para mim que já conheço, provoca sempre a mesma reacção, bem assinalada pela onomatopeia do Alex: Uau! Parece, ou é, um lugar mágico ali perdido num cantinho da Serra. O difícil é sair. Não tanto pela paisagem mas pela rampa de 20% (!!), que nos leva de novo à estrada que segue para Setúbal. Durinha! Amaina depois de cerca de 100 metros, mas o resto não é muito mais fácil.

Depois foi um passeio junto à costa,  com algumas subidas e entre túneis, até Setúbal. Agora, já de banho tomado, vamos atacar um arroz de lingueirão e um polvo frito com a Joana Bom e a sua cadela Runa, e a Mónica e o seu cão Emílio. 

Até amanhã e ponham-se a pedalar!

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Também podem acompanhar a viagem na página do Henrique no Facebook e no Relive do Alex. 

Texto e fotos: Henrique Patrício
+ Fotos: Alex Tebar

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