Diário de viagem: costa portuguesa em bicicleta (DIA 6)

Esta é a primeira parte do diário das férias pela costa portuguesa fora em bicicleta do Henrique Patrício: 1.200km de Rota da Costa Atlântica sobre duas rodas, de Norte a Sul de Portugal, na companhia do catalão Alex Tebar. Continua aqui.

DIA 6

COIMBRA
(Descanso)

Sim, hoje foi dia de descanso e passeio. Foi o dia em que o Alex provou finalmente o delicioso cochinillo, que há dias que ouvia falar. Mas não só. Em parte acompanhados pelo Amigo Sérgio Flores, fizemos um passeio pela Universidade - com a visita possível à Prisão Académica nestes estranhos tempos e à Biblioteca Joanina onde lhe expliquei/explicaram que são os morcegos que ajudam à manutenção dos livros, e onde nos contaram que uma montanha de caca de morcego foi retirada de uma das colunas ocas por onde entram. Até lhe deixaram tirar uma fotografia, sem flash, transgredindo todas as regras. (Ups!) Fomos à Sala de Armas, Sala dos Capelos, Faculdade de Direito, Museu da Ciência e Galeria de Zoologia! E claro, ainda o levei ao meu gabinete para trocarmos impressões sobre o nosso trabalho. Ah, pois,  porque o Alex também é designer gráfico. Um mal nunca vem só! 

Da Universidade descemos à Baixa e comprámos um pastel de Tentúgal antes de apanharmos boleia com o meu primaço Ricardo, para irmos comer leitão ao Santos, nos Fornos. E que delícia! Não falha nunca. À noite, foi o prometido jantar na República da Saudade, como um encontro dos deuses do palato para uma festa de sabores: Mexilhão, Ceviche, Punheta de Bacalhau, Polvo Panado, uma Experiência do Talasnal (que é entrecosto em vinha de alhos com arroz de carqueija e grelos), Salmão e Bochechas - que tivemos de repetir por pura gula. Depois de tudo isto, nem imaginam as sobremesas: Pudim Abade de Priscos e Gelado de Tangerina, entre outras delícias de bradar ao céus! E, claro, sempre bem regado, que o Pedro Lopes nunca deixa faltar nada. O Alex, por exemplo, teve a oportunidade de provar um vinho do Porto que dificilmente o comum mortal prova: de 1960! E eu também.  

Só que depois de uma breve apresentação do Pedro, fizemos o brinde e…ele virou o copo de golada como se fosse um shot de tequila!! Todos ficaram brancos de pavor. Lívidos! Obviamente que depois lhe demos um pouco mais, para saborear.

A conversa fluiu noite fora, fosse com a Patrícia Dulce Bola de Berlim, a Andreia Hablo Mas Rápido que Speedy Gonzales ou a Joaninha Te Estoy Mirando!. Com a dificuldade do Adérito em encontrar uma fórmula matemática para o Alex se sentir mais entrosado na conversa com a Andreia, fomos fazendo discos pedidos ao mestre do cavaquinho Alexandre de Barros Não Vir Um Mar de Merda e Levar-vos, com a Filipa e o Francesco a fazer de coro! Com o meu primo Ricardo e a Caroline, o Pedro e a Cátia, o papá Hugo, o Gamboias e a Inês, a Filipa Godinho, o João Lameiras, o André Sou Muito Anti-social Reis - e a sua boa disposição nata -, o Sebastião a colocar o seu castelhano perfeito a funcionar e o Leo, que logo fez amizade com o Rodrigo, foi melhor serão que podia imaginar. Sobretudo porque, a acabar, tivemos a companhia do meu Sócio P'ra Vida Ricardo Cação e do Nuno Botelho, para descanso da sua Bruna, que tanto o esperava! Comida perfeita e companhia de luxo. Saí a pensar: Agora sim, preciso pedalar.

Até amanhã e ponham-se a pedalar!

DIA 5

AVEIRO - FIGUEIRA DA FOZ - COIMBRA
123.2 KM
TOTAL: 365.2 KM

E hoje voltei a casa! Mas só de passagem, porque o Alex não podia vir a Portugal sem conhecer Coimbra. De manhã, a venezuelana que encontrei a estudar sentada no chão da casa de banho partilhada à 1h da manhã, ainda continuava por lá. Sim, a estudar no banho! Agora já estava fechada na zona do duche a ler baixinho. Também não percebemos.

Arrancámos com pouco nevoeiro, decididos a fazer a distância toda: de Aveiro à Figueira da Foz e depois Coimbra. E conseguimos, claro, mas só ao fim de algum sofrimento! Não foi tanto pela distância, nem pelas subidas - a única, aliás, da Serra da Boa Viagem. A dureza é mesmo pela falta de subidas e estradas demasiado rectas. Estivemos numa recta de 25km ao longo da costa, que vai quase da Praia de Mira até Quiaios! 

Tivemos de sair antes do fim, na Tocha, porque mentalmente é muito desgastante olhar o infinito e não lhe ver o fim. Além de que, como está toda esburacada, a trepidação também fez estragos.

Ao chegar à Figueira fizemos a paragem para almoço na Sagres, junto ao relógio. Ficámos obviamente tentados com as mariscadas mas optamos por umas tostas, mais simples. Da Figueira da Foz até Coimbra, fizemos um caminho que eu já conhecia: percorremos os poucos quilómetros da futura ciclovia, em direcção à Central Termoelétrica de Lares e daí a estrada do campo (mais rectas planas esburacadas) até Ereira. Ligámos por terra a Montemor-o-Velho, passámos o Centro de Alto Rendimento (tudo recto e plano) e depois fizemos a estrada do campo até ao Choupal, nas últimas rectas planas e esburacadas! 

Para quebrar a monotonia fizemos o caminho superior da ponte ao Choupal e entrámos dentro da Mata Nacional. Só para verem o estado mental de tanta recta plana: ambos ficamos contentes por subir a Avenida Sá da Bandeira até ao AcadémicoFoi um dia com mais de 120 km, muito calor e desgastante, sobretudo pelas cansativas rectas infinitas.

Em Coimbra, fomos com a Filipa Godinho à Baixa comer Jaquinzinhos Fritos com Açorda de Coentros à Dona Lúcia. Depois, claro, às minhas Escadas do Quebra Costas. A sobremesa foi um delicioso Crumble de Ruibarbo e Morango com Gelado no Tapas nas Costas e depois um Mojito, oferecido pelo Luís Barroso, no Quebra o Galho enquanto o ouvíamos acompanhar, juntamente com o Hugo Martins, a voz da doce Inês Graça.

Como não podia deixar de ser, o serão acabou na companhia do Sebastião e do Miguel Lima no melhor bar da cidade: o Quebra Bar. What else? Amanhã é dia de descanso da bicicleta e passeio por Coimbra para depois arrancar em mais uma etapa rumo ao sul! 

Até amanhã e ponham-se a pedalar!

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DIA 4

ESPINHO - TORREIRA - COSTA NOVA - AVEIRO
71.2 KM
TOTAL: 242 KM

Espinho anoiteceu com frio, vento e algum nevoeiro mas amanheceu como uma tarde de Agosto! Acordar, arrumar e montar os alforges, comer o desayuno e...descomer o dia anterior leva o seu tempo. Acordados às 8h30, começámos a pedalar às 11h! Mas tudo bem. Há tempo. Hoje foi dia de suar e puxar pelas pernas por ciclovias e estrada, sempre que não havia passadiços de madeira sobre as dunas com o mar a embalar a pedalada. A Barrinha de Esmoriz é fantástica para isso, com uma ponte em arco a meio! Depois foi só rolar forte até São Jacinto, com um pit stop rápido e estratégico na Torreira, para abastecer. Atravessámos a ria de ferry boat (qual é mesmo o nome em português? Aposto que é mais bonito!).

Na Costa Nova, encontrámos, como prometido, o Gafanhense mais conhecido de Pombal e Coimbra: Bruno Raposo. E também a bela Inês Campos, agora ainda mais bonita, grávida de 6 meses do António Pedro. Depois de um belo repasto no Bronze - Seafood/Lounge Bar, com o clavo (Prego) que o Alex ainda não tinha provado - dividimos um tradicional e um de atum -, seguimos para Aveiro, onde tínhamos dormida marcada. Mas não sem antes...fazer cerca de 1 km na A25!!! Culpa do Apple Maps, claro. Já desconfiados do Google Maps, que por vezes nos mandou por estradas nacionais bem movimentadas, quando havia opções mais calmas, decidimos seguir o Apple Maps, do Alex. 

Não havendo opção de bicicleta em nenhum deles, pesquisamos sempre o percurso pedonal, contando que seja pedalável. Ora, mandar uma pessoa caminhar pela auto-estrada não me parece muito boa ideia. E pedalar, também não! Lá conseguimos encontrar uma saída, saltando a rede, que ali não tinha arame farpado. Encontrámos logo a estrada certa, que atravessa a mesma ponte, e chegámos a Aveiro num instante. Na Pousada da Juventude fomos recebidos pela simpática Rita Bairradina que, depois de um longo check-in, nos deixou dormir com as amantes no quarto, para não ficarem sozinhas ao relento! Bem hajas, Rita! Deixei-lhe duas músicas com o nome dela por temática. Se se chamasse Alzira era bem mais difícil. De banho tomado, demos uma voltinha pelos canais de Aveiro - a tal Veneza de Portugal -, onde o Alex provou os ovos moles, a ginjinha em copo de chocolate e um licor de maracujá (quase quis comprar uma árvore do maracujá!). Bebemos uma cerveja na Praça do Peixe, onde encontrámos os futuros (se calhar já actuais, quando lerem isto) papás: a minha Martinha Guerreiro e o Senhor Conde André Matias. Faziam a caminhada da praxe para ver se a Margarida se digna a vir ao mundo! Que bonito!

O jantar, aconselhado pelo Bruno, foi onde eu já há algum tempo esperava ir: Restaurante Palhuça. Fica na zona mais central e turística de Aveiro mas é descomplexado, simples, tradicional e acolhedor. Como eu gosto, portanto. É frase feita mas se querem bom e barato, não há igual! Inspirado pelo Jorge Amado, quando se referia a todas as mulheres do mundo, digo: Posso não ter comido todos os pratos disponíveis, mas vou morrer tentando! (ler com sotaque brasileiro). Como o Raposo se chegou à frente via telemóvel, deixámos uma garrafinha de espumante paga para ver se ele festeja o nascimento do mai nobo como deve ser.

A sobremesa foi uma Tripa de Aveiro, na Praça. Aposta ganha: Tripa não falha. E esta surpreendeu. Comi com gelado de chocolate e avelã! Queriam ver-me mais magro no regresso? Não vão ter sorte.

 

Até amanhã e ponham-se a pedalar!

 

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DIA 3

PÓVOA DE VARZIM - ESPINHO
63.9 KM
TOTAL: 170,8 KM

Hoje amanhecemos mal e com nevoeiro. O problema não foi o último, com o seu ligeiro vento fresquinho - e que sabíamos que desapareceria mais rápido do que um chocolate preto nas mãos da Filipa Godinho! -, o problema foi que alguém mexeu nas bicicletas durante a noite, mesmo estando num pátio interior do hostel, com acesso limitado. Como estavam onde ficaram e aparentemente bem, só demos conta mais tarde, quando eu reparei que o suporte dos meus alforges estava todo dobrado, como se alguém se tivesse sentado nele, que aguenta pouco mais que 15kg. Claro que enviei uma queixa à dona da Churrascaria Franganito Garrett, que é a mesma da Guesthouse Junqueira76. 

Refiro os nomes para não me esquecer de que ela viu a mensagem e nada disse até agora. Com calma e a respirar fundo várias vezes, lá consegui torcer o ferro de novo ao lugar e parece que se está a aguentar. Veremos.  

O resto da viagem foi à boleia da Santa Nortada, por ciclovias e passadiços nas dunas (mas em muitos é proibida a circulação às bicicletas, gostava que explicassem isso). Pela primeira vez tivemos de levar as biclas à mão, por causa da areia! Em Matosinhos atacámos um Bacalhau à Lagareiro e nem tivemos de seguir os conselhos do Rui Eusébio, com quem nos cruzámos no caminho e que nos deu dicas e histórias. 

Ficámos a saber, por exemplo, da ligação de Santiago a Matosinhos através da lenda de Cayo Carpo, que terá dado origem à simbologia das conchas (vieiras) de Santiago. No Porto estivemos só mesmo de passagem, com uma curta paragem, na Ribeira e depois de atravessar a ponte, num café que pareceu menos turístico, para apreciar a paisagem e beber uma cerveja. O Porto é uma cidade lindíssima mas ficará para outro tipo de viagem. 

Seguimos caminho pelos 16 km de praias de Gaia  e pelas melhores ciclovias em que já pedalei. Da última vez que lá tinha passado, algumas estavam ainda por terminar. Agora, até Espinho é um saltinho! Lá, já enfrentámos um vendaval e comemos as Gauffres de Espinho (que eu não sabia que eram uma cena) bem acompanhados pela minha querida Banetxi (Vânia Couto), que fez o seu papel de anfitriã...também de bicicleta! Que bem! Agora descansamos, a ouvir o vento e o mar. E todos os outros barulhos de uma cidade destas, mas só esses. Aceitei o desafio de ir amanhã almoçar a Aveiro com o Gafanhense mais conhecido de Pombal e Coimbra. Sabem quem é? Vamos ver se ainda conseguimos montar nas bicicletas depois.

***

DIA 2

VIANA DO CASTELO - PÓVOA DE VARZIM
51.6 KM
TOTAL: 106.9 KM

O dia iniciou com o peso da noite anterior. As garrafas de vinho verde e os mojitos terminaram a batalha mas deixaram alguns estragos a reparar. Lenta e tardiamente, já bem depois do sol acordar, preparámos as malas e deixámos a Maçã de Eva, já a Léa rodopiava entre tachos e panelas para fazer mais uma das delícias habituais. Ontem ainda falámos em enviar as tendas até Coimbra e,  até acampar lá, ir tentando ficar em albergues de peregrinos ou outros. Tentámos mas ao sábado está tudo fechado. Ainda me lembrei de enviar pela Rede Expresso mas a central de Camionagem de Viana do Castelo parecia um deserto. Estarrecedor. Principalmente por ser 1 de Agosto! Como não tivemos sorte, passámos a despedir-nos da Sara e seguimos para o Porto…era já meio-dia. Nesta zona, como esperado, a Santa Nortada não falha e fizemos alguns quilómetros a rodar a grande velocidade, sem grande esforço. É delicioso. 

Dá para ver a paisagem, não sentir demasiado o calor e ir parando aqui e ali para fazer umas fotos e apreciar a calma daqueles que aqui vivem todo o ano, vestidos de calças e camisolas até ao pescoço (conhecedores de que o sol não é brincadeira), apreciando debaixo da sombra o corrupio dos turistas cor-de-camarão que ainda insistem em andar meio despidos.  Ó menino, pode tirar fotos à vontade mas veja lá se não lhe partimos a máquina! Ao que respondi: Não se preocupe que esta máquina já tirou muitas fotos a esta cara feia e sobrevive! Depois de apanharmos um troço de estrada com areia, e com as bicicletas a bailar estrada fora, fizemos alguns quilómetros de passadiços fantásticos. Tinham um sinal circular, vermelho, com um símbolo de uma bicicleta preta no meio. Não sei bem o que significa mas, estive atento e não vi nenhuma igual atravessar-se à nossa frente. Estranho. Por vezes a água do mar batia nas rochas e sentiamo-la na pele, mas ainda não foi desta que parámos para o mergulho.  

Ao chegar a Esposende, a Rita Brás e o Rui Macedo tentaram dar-nos as melhores dicas mas falhamos por uns metros. Almoçámos sardinhas (bem boas) a uns metros dos restaurantes aconselhados! Mas não foi grave. Acabei a provar uma Clarinha de sobremesa. Frita e com doce de Chila, acabada de fritar! Sim, eu não sei como mas ainda estou bem dos intestinos. Com a associação cultural Tarrafo (de Coimbra) com grande representação na Póvoa de Varzim - inclusive bracarense, com a Sofia, Ricky e Andrea -, cravámos ao Adérito que nos levasse as tendas até Coimbra e assim aliviei mais ou menos 2 quilos. O Alex deixou meia bicicleta, amanhã vai a voar! Decidimos ficar por cá, num hostel muito bonito e recente que vos aconselho: Junqueira76. O nome não é incrível mas assim que ligam para o número disponível, o nome que vos aparece no ecrã é melhor: Churrasqueira O Franganito Garrett!! Não sabia se havia de reservar quarto ou pedir um pito com picante, mas lá qualidade tem, com um terraço pequeno mas confortável (onde escrevo), limpo e decorado com bom gosto. Já em relação ao pito não posso atestar a qualidade, terá de ficar para outro dia porque hoje experimentei algo que provavelmente nenhum de vocês jamais imaginou: Robalo Grelhado à Bolhão Pato com Amêijoas (era o nome na carta). Na companhia dos meus queridos Tarrafeiros Maria João, Paula, Nelas e Adérito, aos quais se juntaram o Gil e a Céu, a noite não podia ter sido melhor. Bem hajam! Pela companhia, pelo incómodo de carregarem as nossas coisas e pelo delicioso jantar. Até amanhã e ponham-se a pedalar!

DIA 1

VALENÇA DO MINHO - CAMINHA - VIANA DO CASTELO
55.3 KM

Ontem, o Alex conseguiu apanhar boleia da Maria, de A Guarda (não é essa que estão a pensar, é na Galiza) e conseguiu vir jantar comigo. Menos mal, já só contava com ele perto das 23h. De manhã usámos o tempo necessário para preparar tudo com calma e, antes de partir, falar um pouco com os restantes hóspedes do Bulwark Hostel, onde ficámos. Nestas viagens também se saboreia um pouco das viagens dos outros, como a do casal espanhol, a viver em Berlim, que estava a fazer o Caminho da Costa, quando decidiu virar para o Caminho Interior porque Vigo es muy fea! Ou o casal português, que resolveu fazer a Volta a Portugal com o filho de mota.

Já a senhora das limpezas do hostel estava triste por não nos poder abraçar e beijar. Dizia ao Alex, em bom português: A COVID é uma merda! Atestados com um pequeno-almoço de banana e sandes de fiambre de peru, desenrascada no hipermercado, lá seguimos caminho. Como se esperava, foi uma viagem tranquila e bastante plana. Viemos (quase) sempre ao longo do rio Minho, numa Ecovia enorme que nos fez passar Vila Nova de Cerveira quase sem darmos por ela. Só perto de Caminha é que tem alguns quilómetros que ainda não foram feitos mas foi a escolha ideal, com muita de sombra, super plana e confortável! 

Em Caminha almoçámos umas barras energéticas portuguesas (entenda-se Costeletinhas de Porco Grelhadas) e metemos alguma gasolina para o caminho (entenda-se uma garrafa de vinho verde, para o catalão saber o que há de bom por cá). Seguimos caminho até Vila Praia de Âncora e percorremos a marginal ao som de um filho da terra e amigo da Taxa: o grande Quim Barreiros. Tema do dia: O melhor dia para casar. E é não que é hoje mesmo? 31 de Julho. 

Depois do prometido fino no bar Oceano, ao regressarmos às bicicletas deparo-me com o melhor bigode de todo o Minho: o do pai da Mariana Taxa! Nada mais que isso! O senhor não me conhecia de lado nenhum mas fiz questão de o ir cumprimentar e tirámos a selfie da praxe - óbvio. O resto do caminho, até Viana do Castelo, foi um passeio por ecovias junto ao mar,  com o cheiro das ondas e algas até às famigeradas Bolas de Berlim do Natário. Sim, são boas quentes, mas não batem uma fresquinha…ou uma Palmeirinha (!). Certo, Carina Fonseca? Neste momento em que escrevo, de regresso ao Hostel Maçã de Eva, aguardamos o jantar retemperador, descansados e de banho tomado. Amanhã há mais, ponham-se a pedalar! 

***

Pré-viagem

COIMBRA - VIANA DO CASTELO - VALENÇA DO MINHO

Quando se parte à aventura, até os planos mais afinados podem sair furados. Eu já não planeio muito por causa disso mesmo. Saí de Coimbra para dormir em Viana do Castelo e aproveitar a companhia da Sara, que já não via há um ano, desde a penúltima viagem a Santiago, e para não ter de acordar demasiado cedo para apanhar o comboio até Caminha, onde estava previsto encontrar o Alex e começar a viagem. Viajar de comboio com a bicicleta está bem mais fácil do que há uns anos, mas ainda não é perfeito. Só não podemos circular no Alfa Pendular e só podemos comprar bilhete antecipadamente para o Intercidades. Até aqui, porreiro. Uma viagem destas quer-se lenta,  para absorver todos os estímulos que nos vão sendo bombardeados como, por exemplo, uma boa meia hora de espera em Campanhã - desta vez foram 45m - a deglutir uma bifana da Cervejaria Astro e...dois finos a cada meia bifana! 

Quase demasiado tenra (se é que isso existe), com molho a ensopar o pão (Papo-seco? Molete? Pão de bico?) e com a dose certa de picante. Óbvio que a colecção de cromos que pululam nestas estações urbanas ajuda a entreter, como o arrumador de carros que corria atrás das pombas berrando: Saiam daí p**** do car****, que me espantam os clientes! De Coimbra até Viana do Castelo tive de comprar bilhete de comboio quatro vezes, apesar de ter mudado três. Uma delas foi porque só podia comprar bilhete até onde o revisor ia (Aveiro) e depois tive de comprar novo bilhete ao revisor que o veio substituir. Sim, parece difícil, mas não é assim tanto. Tem a ver com os espaços reservados para as bicicletas nos comboios, que não são muitos, e também porque esse espaço pode ser partilhado com cadeiras de rodas. Eu acho tudo muito bem, se não tiver logo comboio espero pelo próximo e...como mais uma bifana, viro mais um fino.

A minha amiga Sara Dourado é - sempre foi - uma excelente anfitriã. Como tal, acumula agora a enfermagem com a gerência do seu Hostel Maçã de Eva, bem no centro de Viana do Castelo, no caminho de Santiago que passa junto à Sé Catedral. Como quase todos nessa zona, é um edifício antigo, muito bonito e com uma pequena praça em frente, onde podemos ter as refeições mais inesperadas e incríveis vindas directamente do restaurante do hostel.

Além da inédita surpresa de ter visto a cozinheira Léa, a escrever com a folha ao contrário dos comuns mortais - diz que sempre escreveu e também lê assim, por isso imaginem o problema que era na escola para colegas e professores que a tentaram obrigar a mudar -, também tive a surpresa de um incrível Risotto de Bacalhau com Cebola Dourada e Ervas. Sim, isso que estão a imaginar: Explosão das papilas gustativas! Que delícia! Nem a bomba-criadora-de-diabetes que comi de sobremesa, um bolo de profiteroles com creme de ovo e pão de ló, conseguiu suplantar o toque simples e perfeito do arroz. Visitem-nas se puderem, e mandem um beijo à Sara e à Léa da minha parte. 

Quanto a viagem, ficámos a saber que, neste momento, para entrar na Galiza, voando desde a Catalunha, é preciso informar as autoridades. Até aí tudo bem, o Alex conseguiu aterrar em Santiago de Compostela de manhã, mas a bicicleta dele não. Vinha de camião, saiu um dia antes, e à hora prevista ainda não tinha chegado. Claro que temos que contar com estes imprevistos e seguir caminho sem stressar muito, afinal estamos de férias e, enquanto se espera…come-se mais uma bifana e bebe-se mais um fino! Apesar de, em Santiago, o Alex não ter seguramente encontrado bifanas como as de Campanhã. Traçámos um novo plano: ir dormir a Valença do Minho e partir de lá. 

O primeiro a chegar pede duas bifanas e 4 finos - os que iam ser oferecidos pela Mariana Taxa em Vila Praia de Âncora, teriam de aguardar. Mas o dia não terminou sem um novo contratempo. A porta do comboio onde o Alex seguia bloqueou e ele não conseguiu descer onde devia: Guillarei, em Tui. A meio da tarde estava a caminho de Ourense, contrariado, com um vale para regressar no comboio das 21h, que demora mais uma hora no regresso e em cima deles metem-se os 7 km de bicicleta até ao hostel. Talvez recorra a uma boleia através do Blablacar para chegar mais cedo. Ora ajudem-me lá: quantas bifanas e finos dá este tempo todo de espera?

Até amanhã e ponham-se a pedalar!

Texto e fotos: Henrique Patrício

Actualizado às 12h15 de 4 de Agosto, 2020

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