Vale a pena cada quilómetro para ir a este restaurante

Acabámos a refeição a dizer que vamos voltar. Isto podia ter acontecido no calor do momento e com os estômagos satisfeitos mas, umas semanas depois desta visita, a vontade passou a certeza e vamos voltar a fazer mais de 100 quilómetros para regressar a um sítio que nos marcou. Falamos do restaurante Santa Isabel, em Abrantes, que habita uma casa tipicamente ribatejana com várias salas de refeições.

Os proprietários são um casal, Isabel e Alberto Lopes: um guarda os segredos de tudo o que sai da cozinha, o outro é a alma da casa. O percurso até à mesa permitiu-nos ver inúmeras fotografias de figuras públicas que também por ali passaram como Manoel de Oliveira, José Saramago, Bruno Nogueira, Carminho, Mariza, Áurea, Rita Ribeiro, entre muitos outros nomes conhecidos. Alguns deles já passaram de clientes a amigos como Paulo de Carvalho, António Zambujo e Tim.

O nosso olhar mais atento também descobriu algumas moedas coladas nas paredes, uma ideia trazida por uma família de portugueses que veio de Serra Nevada que frequentava um bar com esta tradição: cola a moeda e pede um desejo. Uma brincadeira mas há quem acredite que funciona, como uma senhora que chorou quando regressou a este restaurante e explicou que, depois de colar a sua moeda, conseguiu resolver um problema muito grave na sua vida.

Mas o maior milagre de todos é o que acontece na cozinha e é servido sem quaisquer artifícios, em frigideiras, tachos ou em louça de barro. Se achavam que ninguém vai de propósito a Abrantes para comer é porque ainda não ouviram falar no Santa Isabel, onde tudo é bom, da primeira à última garfada.

Entradas

Há várias opções para abrir o apetite mas provámos um prato de presunto pata negra (8,5€) e outro de paio de porco preto (6€) divinais e que nos fazem imediatamente querer repetir a refeição na companhia de mais amigos e familiares – porque há experiências boas demais que têm mesmo de ser partilhadas. A mesa também acolheu queijo de ovelha em azeite (4€), ovos mexidos com espargos selvagens (7,5€) e ainda umas enguias fritas (12,5€) acompanhadas por açorda de ovas, um verdadeiro pitéu.

Alberto Lopes vai a Salamanca apenas para buscar presuntos, que representam 11% das vendas. Chego às 6h30 e na primeira meia hora sou eu que corto o presunto. Há miúdos que brigam em casa porque querem vir aqui comer presunto.

Pratos

A cozinha deste restaurante é um exercício de autenticidade, com uma forte aposta em produtos de boa qualidade preparados com aquele sabor caseiro irrecusável. Não pensem duas vezes, peçam filetes de polvo com arroz malandrinho de feijão (14,50€), um dos ícones do restaurante. Repetimos a dose (uma vez, duas vezes, mais não por vergonha): o polvo é muito tenro, bem frito e o arroz de feijão é mais do que um acompanhamento. Não há condimentos em excesso, os produtos brilham no prato.

Na ementa há várias opções de pratos de peixe, como os Sabores do rio com açorda (sável, enguias e ovo de sável) (32€/duas pessoas), Ovas de sável grelhadas com açorda e alface miudinha (17,5€), gambas fritas com açorda de ovas (17,5€), choquinhos na frigideira à algarvia (16,5€), sável frito com açorda de ovas do mesmo (15€), bacalhau à lagareiro com batata a murro e legumes (13,5€), entre outros.

Se preferirem carne, há Telha de porco preto com vários acompanhamentos (24,5€/duas pessoas), Medalhões do lombo de vitela grelhados (19,5€), Churrasquinho de porco preto com migas de alheira (14,5€), Costeletas de cordeiro grelhadas com esparregado (13,5€), entre outros.

Sobremesas

A tigelada e a Palha de Abrantes são os doces típicos da região e o Pijama de doces conventuais (9,19€) é a melhor opção para quem quiser uma mostra do melhor da doçaria local. Destacamos os Queijinhos do Céu, uma espécie de bombons feitos de maçapão com recheio de doce de ovos, feitos pelas Irmãs Clarissas do Mosteiro de Nossa Senhora da Boa Esperança, em Constância. Para além da experiência gastronómica que proporcionam, estes doces vêm delicadamente embrulhados em papel recortado pelas mãos pacientes das Irmãs.

Quando todos os pequenos detalhes são feitos com esta entrega, o resultado só podia ser divinal.

História

Alberto Lopes é um ingrediente tão importante no restaurante Santa Isabel como a comida que é servida em cada prato. Prendemos os nossos clientes pela boca e pelo coração e numa altura em que costumava estar fora às quartas-feiras, ligavam-me: “Ó Alberto, a comida está excelente mas isto sem ti não é a mesma coisa.”

Nascido no concelho de Mação, veio para Abrantes com 4 anos. A veia pelo negócio vem da mãe que vendia fruta na praça e Alberto achava um piadão aquilo. Em frente à praça, havia o café Combinado e foi convidado para fazer umas noites lá. O Elísio foi o meu grande mestre, aprendi muito com ele. Até às 22h funcionava como café e espaço de petiscos ligeiros, onde iam alguns clientes conhecidos, depois mudava as luzes, alterava a tabela de preços, ele mandava vir umas cassetes com acidentes de carros em corridas americanas e o pessoal ficava doido com aquilo. Quando Alberto tinha 20 anos, Elísio disse que lhe alugava o espaço: eram 85 contos por mês que era uma barbaridade e eu fazia 160 contos de caixa só à segunda-feira. Mas houve alguns devaneios e perdas de controlo pelo meio. Beneficiou de um programa de apoio da associação comercial local e, muito a custo, fez obras no restaurante e aumentou os preços. Diz que a comunicação social sempre valorizou o espaço, a forma como recebemos, a comida, as salas e José Quitério aconselhou-o a mudar o nome (antes era snack em vez de restaurante) e para deixar de fazer refeições rápidas, que assim teria muito sucesso na vida. O caminho não foi fácil, andou anos pelo país inteiro a divulgar o restaurante em feiras, mostras, eventos de turismo, festivais de gastronomia. A estratégia compensou e há quem venha de muito longe para comer as açordas (de ovas, de coentros), as migas de feijão com couve, de espargos, arroz de feijão. O ano passado, havia noites em que não se falava aqui português. Ajuda muito sermos recomendados no Guia Michelin, isso tem influência a muitos níveis.

Texto: Joana Pires Araújo
Fotos: Restaurante Santa Isabel e Joana Pires Araújo

* A Coolectiva viajou a convite da TAGUS – Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Interior que, em parceria com O Meu Escritório Lá Fora, dá a conhecer o território, numa lógica informal de viagem onde as pessoas são o destaque.

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