Descobrimos Abrantes do castelo medieval à street art

Se Portugal tivesse umbigo era em Abrantes e a terra é tão querida, por quem lá vive e por quem a visita, que até os campos se desenham em forma de coração, na terra que tem por trás do nome uma lenda romântica. Desbravámos a cidade que pertence ao distrito de Santarém, na província do Ribatejo, mas que ainda é região Centro e sub-região do Médio Tejo. São 13 freguesias ao todo e cada uma veste a sua camisola, tanto que quem lá vive diz que Abrantes é terra de todos e terra de ninguém, ao mesmo tempo. São 700 km2 e dois rios para conhecer: o Tejo e o Zêzere, onde nasce a lindíssima Albufeira de Castelo do Bode

Pode-se ir de expresso e até comboio, apesar de a estação de caminho-de-ferro ficar a 2km do centro. Nós visitámos Abrantes de carro e com um guia muito especial, Carlos Bernardo, autor do blogue O Meu Escritório É Lá Fora e uma espécie de embaixador da localidade e das suas gentes. Sigam-nos desde o castelo conquistado aos mouros por D. Afonso Henriques no século XII, de onde têm uma vista espantosa a 360 graus sobre a região, até às labirínticas ruas cheias de casas apalaçadas, lojas bonitas, street art, mosaicos coloridos e, claro, muitos sabores.

Castelo medieval

Fundado em meados do século XII, o castelo de Abrantes teve vários propósitos, sobretudo o militar porque a zona é estratégica e até tinha uma muralha, da qual hoje ainda há resquícios. Lá do cimo salta à vista a belíssima faixa azul do rio Tejo, o obstáculo natural que protegia dos inimigos e, ao mesmo tempo, era via de comunicação por onde se transportavam produtos do interior do país e de Espanha para a capital e no sentido inverso. Além da torre de Menagem, a vista e alguns edifícios existe a igreja gótica de Santa Maria do Castelo. Junto à entrada podem pisar o mesmo terreno onde D. João I, D. Nuno Álvares Pereira e respectivas tropas terão descansado antes de partir para a batalha de Aljubarrota, em 1385. Devia ser um momento mítico estar aqui a ver o pessoal a chegar, ao estilo 'Senhor dos Anéis' ou 'A Guerra dos Tronos', atira Carlos Bernardo. Algumas pedras também terão testemunhado a ocupação pelas tropas francesas, em 1807, comandadas pelo General Junot, a quem Napoleão concedeu o título de Duque de Abrantes. Daí a expressão: Tudo como dantes, Quartel General em Abrantes! Segundo Marta Sampaio, a técnica do Turismo da Câmara Municipal de Abrantes que é preciso contactar para o visitar, Estão a ser criados serviços de apoio para que o castelo seja visitável, explicou-nos Marta Sampaio, .

Abre antes!

Na altura em que o castelo foi consquistado, o Alcaide era Hibrahim-Zaid, senhor de quase todas as terras da Ribeira da Abrançalha e pessoa querida pelos cristãos por ser bom e tolerante. Tinha uma filha chamada Záhára que consta que era lindíssima, e um filho bastardo chamado Samuel, filho de uma cristã. Desconhecendo o parentesco os irmãos eram apaixonados mas depois da consquista, Samuel foi feito prisioneiro por um cavaleiro chamado Machado, que salvou Záhára dos soldados cristãos, tornou-se o novo alcaide, interessou-se pela bela donzela e ter-se-à proposto a visitá-la. Samuel não gostou nada mas, reza a lenda, que o pai Abraham-Zaid terá defendido Machado dizendo: Eu nada temo, nem receio da tua virtude Záhára...e tenho provas da confiança e da honradez do alcaide, abre antes a porta! A coisa soube-se e a expressão terá passado de boca em boca até fazer com que o Castelo de Tubucci se passasse a chamar Castelo de Abreantes, depois abreviado para Abrantes. Hibrahim-Zaid e a filha ter-se-ão convertido ao cristianismo e Záhára rendido aos encantos de Machado, enquanto Samuel se fez também ele cavaleiro e se dedicou a ajudar D. Afonso Henriques a construir Portugal. 

Ruas e ruelas 

O Castelo de Abrantes está envolto por um perfumado (e muito 'instagramável') jardim público, agora recuperado e com uma vista de perder o fôlego. Era aqui que se tiravam as fotografias nos casamentos, conta Carlos Bernardo. À medida que vamos descendo a encosta, damos conta de vários edifícios apalaçados. Havia aqui muitas indústrias importantes, o que fez com que muitas famílias abastadas se fixassem, continua o nosso guia. Outra coisa que chama a atenção é o chilrear dos passarinhos. Nós estamos numa cidade que tem tudo para a qualidade de vida dos seus habitantes mas ao mesmo tempo tem esta preciosidade, de podermos estar um bocadinho no campo também, comenta Marta Sampaio, que ainda nos acompanha. Abrantes é cidade desde 14 de Junho de 1916, feriado municipal bem comemorado pela população, como todas as festas das 13 freguesias ao longo do Verão. Eu faço parte de um clube da minha terra, Os Patos, e é super dinâmico nessas alturas, atira Carlos. A terra dele é a freguesia de Rossio ao Sul do Tejo, onde fica o infelizmente pouco usado mas óptimo para um bom piquenique ou para passear e fazer desporto: Aquapolis. 

Lojas e cafés

Continuamos a percorrer as ruas do centro de Abrantes, fixámos a que foi apelidada de Rua da Polícia, onde descobrimos obras de arte urbana que Isaac Cordal fez durante o Creative Camp, em 2014. Quanto mais caminhamos mais percebemos que Abrantes só pode ser fascinante para quem goste de fotografia e arquitectura. Depois de uma pausa no café Chave D'ouro, onde vale a pena entrar só para ver a mobília vintage e admirar mais arte espalhada pela Praça Barão da Batalha, não pudemos resistir a visitar a Drogaria Nova. É uma loja de produtos antigos portugueses mas também gourmet ou ecológicos que fica no nº 22 da Rua Alexandre Herculano. Além dos clientes habituais, faz as delícias dos curiosos por causa do mobiliário original, em madeira. Esta foi a primeira loja que o meu avô abriu, em 1943, e como era muito bonita sempre tivemos vontade de fazer aqui qualquer coisa, conta a proprietária, Joana Borda D'Água. Em 2013, a arquitecta dedicou-se ao negócio que cresceu e diversificou a oferta. Um dos best sellers é um branqueador para a roupa mas também vendem peças da Bordallo Pinheiro, Castel Bell e a interessante marca da própria Joana, Ursa Design, com recurso a tecnologia de impressão 3D. 

Terra e rio

Na Rua Monteiro de Lima descobrimos, mesmo a estrear, a Janela dos Sabores na Nacional 2, da responsável da marca artesanal de compotas, geleias, marmeladas e temperos em bisnagas. Passei a quarentena a pintar móveis, fui eu que fiz tudo, contou-nos Elsa Cristóvão, abrantina de gema, agora merceeira também com produtos tradicionais como enchidos, azeitonas, compotas, pão e sopas – confecionados com recursos a produção própria e vendidas em regime de take-away. O calor aperta e o almoço é na pacata vila de Constância, para depois se passar a tarde a percorrer as zonas à volta, apreciando e fotografando as paisagens da zona, como a incrível Albufeira de Castelo de Bode.

A albufeira tem a primeira estância de wakeboard do mundo - um desporto aquático praticado com uma prancha tipo snowboard que é puxado por uma lancha - e é banhada pelo extraordinário rio Zêzere, que conflui com o Tejo logo a oeste de Constância. Desafiamo-vos a descobrir as praias fluviais da zona, como a imperdível Praia Fluvial de Fontes.  

Terra e rio

Na Rua Monteiro de Lima descobrimos, mesmo a estrear, a Janela dos Sabores na Nacional 2, da responsável da marca artesanal de compotas, geleias, marmeladas e temperos em bisnagas. Passei a quarentena a pintar móveis, fui eu que fiz tudo, contou-nos Elsa Cristóvão, abrantina de gema, agora merceeira também com produtos tradicionais como enchidos, azeitonas, compotas, pão e sopas – confecionados com recursos a produção própria e vendidas em regime de take-away. O calor aperta e o almoço é na pacata vila de Constância, para depois se passar a tarde a percorrer as zonas à volta, apreciando e fotografando as paisagens da zona, como a incrível Albufeira de Castelo de Bode.

A albufeira tem a primeira estância de wakeboard do mundo - um desporto aquático praticado com uma prancha tipo snowboard que é puxado por uma lancha - e é banhada pelo extraordinário rio Zêzere, que conflui com o Tejo logo a oeste de Constância. Desafiamo-vos a descobrir as praias fluviais da zona, como a imperdível Praia Fluvial de Fontes.  

Restaurantes 

Depois de tanto passeio e visita, nada como confortar o estômago em alguns dos melhores restaurantes locais antes de recolher, no nosso caso na magnífica Quinta da Eira Velha, na Aldeia do Mato. O Santa Isabel é um incontornável, cuja fama ultrapassa em muito as fronteiras do concelho, mas também se podem deixar surpreender com sabores do mar em Abrantes. Sim, do mar. O Tulipa fica no Pego (ler Pégo), na Estrada Nacional 118, e acaba de ser  totalmente renovado. Há 35 anos que ando aqui a aturar malandros, conta o proprietário António Larguinho, natural de Sines. Já se tinha aventurado com um bar em Ponte de Soure quando rumou a Abrantes, atraído pela abertura da Central Termoelétrica. O espaço começou por ser um bar. Não foi fácil, todos os dias havia zaragatas, atira. Há 15 anos, transformou-o num restaurante, quase sem saber estrelar um ovo. O arroz de marisco aprendi lá em baixo com a malta e os pratos daqui foi com a malta de Pego e nas adegas, a beber copos de vinho com eles, continua o proprietário. Ninguém diria, pela qualidade dos petiscos que provámos - lagostins, sapateira, percebes e as famosas febras na frigideira, que chegam ainda a borbulhar à mesa. Tudo fresco. É um restaurante muito interessante e onde se come muito bem, atesta Carlos Bernardo. Parece que a freguesia tem um grande histórico de tascas, tabernas e casas de petisco. São as tais histórias que só conhecemos com quem é de lá e que fazem com que Abrantes seja especial e cheia de motivos para voltar. 

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Filipa Queiroz, O Meu Escritório É Lá Fora

* A Coolectiva viajou a convite da TAGUS – Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Interior que, em parceria com O Meu Escritório Lá Fora, dá a conhecer o território, numa lógica informal de viagem onde as pessoas são o destaque.

Deixa-nos a tua opinião!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.