É arte que espreita desta janela em Miranda do Corvo

Em tempos de isolamento, nasceu uma galeria efémera no Atelier do Corvo, no Rocio de Cima, em Miranda do Corvo. No início da Primavera, o espaço fundado pelos arquitectos Désirée Pedro e Carlos Antunes levou a cabo Senso. Galeria Efémera para Dias de Clausura, mostrando obras de arquitectura e artes plásticas nas portas e janelas do edifício que também chamam casa. Apartados de outros lugares que são uma parte vital das nossas vidas — o Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra, onde leccionamos, e o Círculo de Artes Plásticas, onde programamos —, será então a partir das portas do nosso atelier que continuaremos a dar um sinal do que nos ocupa, interagindo com o mundo, anunciaram no Instagram.

Mostraremos alguns dos nossos projectos de arquitectura, assim como obras de artistas convidados. Serão dois pares de exposições por semana, ritmo que dá um sinal da nossa esperança de vivermos um tempo breve, que desejamos superar com urgência, como antes dissemos no anúncio deste projecto, continuavam. Senso. Galeria efémera para dias de clausura foi um acto simbólico contra o desânimo e a letargia. José Pedro Croft, Rui Chafes, António Olaio, Nuno Sousa Vieira, Joana Monteiro, Pedro Tudela, Laura Vinci e Ângela Ferreira foram alguns dos artistas a participar. Quando o Estado de Emergência acabou, deu lugar a Vitrina. Janela Galeria, que continua a procurar vínculos entre aquilo que no atelier vão fazendo como arquitectos e o que vão fazendo com os artistas que amam. 

Vitrina. Janela Aberta

Arrancou com Poda de Inverno e Triângulo infinito (2015) de Alberto Carneiro. Seguiu-se um diálogo entre uma das três pinturas de Túlia Saldanha da colecção do CAPC com a proposta museográfica do Atelier para a exposição Habitar Portugal 2012-14, CLOUD, para a qual encontraram uma resposta denotativa: uma nuvem pixelizada formada por uma constelação de caixas (pixeis) contendo imagens das obras seleccionadas e outra série de arquivadores horizontais com os desenhos técnicos dos mesmos projectos.

O projecto de galeria doméstica Vitrina. Janela Aberta continua Senso e é semelhante nos propósitos. São 12 mostras por ano que podem ser vistas online ou no espaço mas sem fim anunciado. O Atelier explica no Instagram que a vitrina é um suporte corrente na museografia, quase sempre presente nos museus das mais distintas naturezas temáticas. Recorre-se a ela para expor objectos e obras que necessitam de protecção, sendo por isso um objecto de mediação com o público. 

"Considerada como a primeira vitrina para expor e mostrar objectos valiosos e sagrados, o pentapyrgion, estrutura de madeira e metais preciosos, composta por cinco torres, mandada erigir no Crysotriklinos e na Magnaura, pelo imperador Theophilos (829-843), no seu palácio em Constantinopla, abrindo as portas aos seus súbditos durante as festas religiosas. Posteriormente, Constantino VII, no Book of Ceremonies, cria os protocolos oficiais e rituais da corte para o usos desta vitrina. O modo como se colocam os objectos expostos, a sua organização, disposição e representação espacial, continuam a criar uma aura de sacralidade e contextualização ritual destas encenações. Dele temos apenas descrições, não tendo chegado até nós nenhuma imagem ou ilustração."

in Atelier do Corvo

"A janela — ou a porta —, esse dispositivo arquitectónico que os constructores inventaram num tempo primordial, é o lugar de fronteira entre o espaço interior e o espaço exterior por onde se entra, ou pelo qual se sai ou se espreita, não privilegiando nenhum dos dois sentidos sobre o seu complementar. É apenas por essa razão que o seu nome tem origem em Janus, o deus romano de duas faces, olhando em simultâneo nos dois sentidos, dois espaços, dentro e fora, mas também dois tempos, passado e futuro, a partir de um tempo presente que este dispositivo representa. Nessa medida, é também um lugar de troca de energias, de vento, de renascimento, e ocorre-me a este propósito pensar na expressão «ventos de mudança». «Window» e «Ventana», grafadas assim na sua língua de origem, testemunham a relação deste dispositivo com a ventilação, a oxigenação, enfim, a renovação."

in Atelier do Corvo

Atelier do Corvo

Fundado em 1996, o atelier de arquitectura foi responsável por obras que vão desde a Remodelação do Edifício do Laboratório Chimico para a Prefiguração do Museu das Ciências da Universidade de Coimbra ao Círculo de Artes Plásticas de Coimbra – Círculo Sereia, a reconstrução e musealização da Torre e necrópole do Antigo Castelo de Miranda do Corvo até à Sociedade de Cerâmica Antiga de Coimbra, em co-autoria com Luísa Bebiano.

Director e vice-directora do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC) e da Bienal de Coimbra, Carlos Antunes e Desirée Pedro também têm sido os autores do desenho dos espaços da bienal que agora tem o convento de Santa-Clara-a-Nova como epicentro. Talvez tenham visto Hortus conclusus, as impressionantes construções informais, uma feita com imensas troncos de madeira, edificados no convento.

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Atelier do Corvo (Senso com António Olaio, Vitrina com Túlia Saldanha e Atelier do Corvo, Sociedade de Cerâmica Antiga de Coimbra, Hortus Conclusus

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