Explorar as Aldeias Históricas | Piódão

É a aldeia histórica mais badalada e também a que está mais perto de Coimbra, a cerca de 90km. É 1h40m de caminho que pode ser bem aproveitada se disfrutarem da paisagem. Depois deste tempo de clausura, Portugal espera por nós e por isso continuamos a série de reportagens Explorar as Aldeias Históricas, sobre estes extraordinários recantos à espera de serem descobertos ou revisitados. Depois de Linhares da Beira, Trancoso e Marialva é a vez do Piodão.  

Fomos pela N110, conhecida por Estrada de Penacova. As curvas que outrora tornavam a viagem um autêntico pesadelo para miúdos e respectivos pais, hoje são um miradouro que acompanha as águas do nosso Mondego. A garantia é que todo o tempo dispendido em curvas e contracurvas terá valido a pena quando, de repente, se depararem com o postal tão característico do Piódão a pousar numa encosta escarpada da Serra do Açôr.

Portas e entrada

Camuflada pelo xisto que a esculpe nos socalcos, esta aldeia-presépio é denunciada pelo azul das
portas e janelas, e pela luminosidade da Igreja Matriz. O primeiro impacto do potencial
turístico no largo que nos recebe é imediatamente atenuado pela imagem desta Igreja aparentemente descontextualizada. Um nexo desconcertante que transporta para as beiras um templo que nos remete ao sul do país. Acredita-se que nasceu, no séc. XVII, onde havia um antigo mosteiro da Ordem de Cister, possivelmente responsável pela localização do povoado Casas Piódam (séc. XIII). As obras de reformulação posteriores, levadas a cabo pelo Cónego Manuel Fernandes Nogueira (finais do séc. XIX), cujo busto permanece de sentinela no largo de mesmo nome, vieram reavivar o estilo manuelino-mudéjar que casava, 4 séculos antes, a arquitectura manuelina com a arte islâmica. Hoje, o templo branco com quatro torres cilíndricas terminadas em cones, é dedicado a Nossa Senhora da Conceição. Neste que é o núcleo onde as ruelas desaguam, as esplanadas com licores e petiscos regionais misturam-se com o artesanato em xisto e a promessa é que não faltarão souvenirs para as enchentes que a aldeia consegue tão bem comportar. Se as ruas e monumentos não vos contarem toda a história de Piódão, por 1€ o Núcleo Museológico vos guiará pelos séculos de costumes e tradições.

Por ruas e ruelas

Mesmo que o largo principal acolha mais visitantes, a tranquilidade instala-se quando deambulamos
pelas ruelas. A disposição da aldeia em anfiteatro poderá tornar desafiante a subida, mas chegando
à Eira, espaço comunitário de produção e bem-estar, a vista panorâmica sobre os socalcos e os telhados terá valido a pena. Antes de retomarem a descida, olhem para os pés e encontrem as gravações em algumas pedras, que simbolizam votos de boas colheitas. Continuando pelas ruelas há mais para descobrir, como a Capela das Almas, a Capela de S. Pedro ou a Fonte dos Algares, construída no interior de uma parede de xisto e cujo som da água se confunde com o som que dá melodia a toda a aldeia: o som das levadas, uma espécie de canais de rega em xisto. Esta grande disponibilidade de água foi aliás das principais razões para a fixação de pastores, que encontraram aqui, há séculos, excelentes pastagens para ovelhas, cabras, éguas e cavalos.

 

Praia e ribeira

Seguindo este percurso hídrico, vamos ter ao sopé da encosta, onde a água das fontes e nascentes se junta e dá origem a uma praia fluvial encantadora, junto da Ribeira do Piódão. Como se o contraste entre o castanho e o verde não bastasse, as pitorescas pontes que sobrevoam o curso de água dão um toque místico. Para além da Grande Rota que passa pelas Aldeias Históricas, o Percurso Pedestre Os Povos das Ribeiras de Piodam (PR2 AGR) liga o Piódão a Foz d’Égua e Chãs d’Égua num trajeto circular de 10 km, acompanhando a ribeira. 

Transpondo o isolamento

Já conta a lenda que, por ser uma aldeia inóspita, foi no Piódão que se refugiou um dos assassinos de Inês de Castro, Diogo Lopes Pacheco, após D. Pedro IV assumir o trono e o poder pela busca de vingança da morte da sua amada. Do acontecimento fica o nome, já que desde o séc. XIX, com a fundação do Colégio/Seminário pelo Cónego Manuel Fernandes Nogueira, Piódão passou a ser um
importante polo cultural, trazendo gente de todo o lado até aos dias de hoje. O nosso conselho é que aproveitem o Piódão com mais tranquilidade fora da época alta, com a certeza de que a beleza se mantém em qualquer estação do ano, ainda que as mudanças de temperatura possam ser bruscas. Com a trovoada escusam de se preocupar, pois no dia de Sta. Cruz a povoação coloca nas portas pequenas cruzes de madeira, louro e oliveira, benzidas no Domingo de Ramos, para a afastar: Cruz bendita, aqui te coloco para guardares tudo aquilo que vires e não vires.

Comer e dormir

Para comer a escolha recai sobre o Solar dos Pachecos, o Fontinha, o Delícias do Piódão ou o café A
Gruta. Para dormir, é optar pela própria aldeia – Casa da Padaria e Casas de Xisto -, ou na colina mais próxima com
vista privilegiada – Hotel Inatel Piódão. Sem esquecer também a Venda do Lourenço, para as lembranças mais típicas.

Texto: Inês Teixeira
Fotos: Inês Teixeira e Pedro Costa

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