Coimbra tem tanto encanto pintada por Rui Gaspar

Tem um carrinho onde leva um pequeno banco, as aguarelas e o papel. Depois vai mudando de sítio, como quem muda de ares, senta-se e pinta tudo num só take. É o meu ioga, a minha meditação, porque para mim a pintura não é uma fuga, é o meu encontro, diz Rui Gaspar. Já tínhamos visto o artista a desenhar sentado num café da Praça da República. Também já tínhamos visto o trabalho dele online e nos postais do Mapas CCC. Agora vamos poder ver e até levar para casa obras do pintor, que é doutor noutra especialidade, e cujos In_pulso(s) em Coimbra estarão expostos no Liquidâmbar, até 18 de Julho.

Foi lá mesmo que conversámos com Rui Gaspar, na mesa do café/bar conimbricense onde desenhou uma das 22 obras da mostra. Está um pouco ansioso, porque mudou de casa já em plena pandemia e ficou sem Internet. Mas o tempo que perdeu no vício que acaba por ser o mundo virtual foi bem aproveitado. Pintava todos os dias, conta. Moedas, selos, pequenas coisas - tudo pode comunicar. Mas apesar de a arte falar por si, Rui diz que gosta de abrir espaço à opinião dos outros e acredita que nisso as redes sociais têm um papel crucial, mesmo não equivalendo à presença. Falámos sobre isso e muito mais, a começar pelo princípio. 

As raízes

Natural de Torres Vedras, como artista é completamente autodidacta mas de formação e carreira académica é biólogo. Desde criança que tive aquela coisa de estudar a Natureza e a pintura sempre fez parte de mim, como uma extensão normal de mim mesmo, conta Rui Gaspar. No 9º ano teve uma crise existencial enorme. O professor de Educação Visual disse-lhe que não dava 5 (nota máxima) a ninguém, mas se ele seguisse Artes dava-lhe um. Rui teve 5 a Educação Visual (e às restantes disciplinas) mas não cumpriu a promessa: foi para Ciências. Cheguei a ponderar estudar pintura quando terminei a licenciatura mas depois pensei: "O principal da pintura é tu pintares, é executares, é trabalhares e pintares pintares pintares, porque gostas e porque queres". Numa espécie de ano sabático passado em Londres, em 2006, diz que devorou todas as galerias da cidade. Foi uma espécie de escola de vida, atira. Chegou a expor e vender na capital britânica mas regressou a Coimbra e foi cá que, recentemente, tomou consciência de que a pintura é uma necessidade absoluta.  

O processo

Explorou várias técnicas de pintura desde que era criança e à medida que ia conhecendo materiais. Não havia Internet, recorda Rui Gaspar, mas isso não impediu que Antoni Tàpies influenciasse muito o artista na busca pela pintura, Van Gogh se transformasse num ídolo e David Hockney uma belíssima descoberta. Posso usar qualquer material, mesmo tela, tenho várias antigas com muitas coisas, explica o pintor, mas o papel, a aguarela e as canetas BIC são os favoritos e uma das maiores vantagens é a portabilidade. A tradição da pintura ocidental é um pouco de fora para dentro, tu vês e registas; na tradição da pintura oriental tu inspiras-te e há um de dentro para fora aí, eu posso pintar de dentro para fora, mas aquilo que gosto cada vez mais de fazer é captar o exterior e às vezes coisas que são relativamente banais ou uma interpretação disso, com uma certa poesia associada talvez. Admirador confesso da caligrafia, dos pincéis e da tinta da China, Rui diz que para o mundo do papel toda essa sensibilidade é única e um processo fundamental é pensar não o que pintar mas como, depois o trabalho nasce por si. 

A exposição

De 19 de Junho a 18 de Julho podem ver os In_pulso(s) em Coimbra de Rui Gaspar no Liquidâmbar, todos em tamanho A3 e com uma história para contar. Quando olhamos para os desenhos do artista quase conseguimos sentir a brisa a bater no rosto, até porque se nota que é tudo captado ao vivo e à vista. As Papoilas, que agarrou num campo e levou para casa para desenhar, a universidade, as variações a partir do Tropical e a que fez sentado no sítio onde tivemos esta conversa e que tem um personagem felino escondido. Já dizia naquela frase do Livros dos Cegos, que está na epígrafe do 'Ensaio sobre a Cegueira' do Saramago: Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara, remata o pintor. Nada como uma boa exposição para entender também o valor deste nosso desconfinamento, provocado pela pandemia de Covid-19. Há um trabalho que é a Ophelia, de John Everett Millais, na Tate Britain, que é...a experiência de presença, diz Rui Gaspar, enquanto acende mais um cigarro, com os dedos tingidos de sonhos. De veres uma pintura e ela transmitir, ela transportar, uma certa...Não é só a imagem que fala é aquilo que a imagem diz, percebes? É a emoção extraída da imagem. Para conhecerem o trabalho de Rui Gaspar online basta irem ao Instagram e à página Facebook do artista.

Resultados da WebHá um trabalho que é a Ophelia, de John Everett Millais, que está na Tate Britain, e é um daqueles casos que…é a experiência…a presença…de veres uma pintura e ela transmite, transporta, uma certa. Não é só a imagem que fala, é aquilo que a imagem diz. A emoção extraída da imagem.  As peças estarão à venda e também há postais.

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Rui Gaspar

Deixa-nos a tua opinião!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Cristina Rufino
18.06.2020

Que orgulho nos meus amigos Rui e Filipa. 😊