Explorar as Aldeias Históricas | Marialva

Os moradores dizem que parece um barco e bem que parámos várias vezes antes de chegar a Marialva, para ver o castelo lá no alto. Depois deste tempo de clausura, Portugal espera por nós e por isso retomamos a série de reportagens Explorar as Aldeias Históricas, sobre estes extraordinários recantos à espera de serem descobertos ou revisitados. Depois de Linhares da Beira e Trancoso é a vez desta freguesia do concelho da Meda, no distrito da Guarda.

Demorámos pouco mais de 2h a chegar a Marialva desde Coimbra, são cerca de 180 km de carro, que é o meio de transporte preferencial a usar. Marialva estende-se desde a planície até ao planalto em três núcleos: Devesa, Arrabalde e Cidadela, cada um com um encanto particular. Vamos apresentá-los e também deixamos algumas dicas sobre onde comer e onde dormir.

Devesa

Estendida pela planície até à ribeira de Marialva, assenta sobre o tempo: foi Castro dos Aravos pela mão dos Túrdulos (séc. VI a.C.) e Civitas Aravorum pela dos romanos. Hoje, a Devesa acompanha o tom da pedra do Castelo que se mostra no alto, incorporando o branco de uma aldeia que acompanha os tempos.

Arrabalde

No planalto, o Arrabalde é a expansão da vila para fora das muralhas e espelha a verdadeira vida rural. Com os jovens cada vez menos presentes, a população tem vindo a diminuir mas a autenticidade permanece em cada rosto que se encontra sentado tranquilamente a absorver os fracos raios do sol de Inverno. No outro dia ouvi uma família que estava de visita a dizer: Isto é só pedra. Mas nós gostamos, é a nossa terra, atirou-nos um morador. A verdade é que o granito transmite mesmo a essência desta história. Já viu, como é que eles eram capazes de construir isto tudo sem máquinas?, continuou. De facto, é impossível visitar Marialva sem viajar no tempo. Estacionando no Largo do Cruzeiro somos logo rodeados por várias relíquias, como o cruzeiro do séc. XV, o próprio posto de turismo nascido de uma habitação judaica e a Capela de N. Sra. de Lourdes, atrás da qual sobrevivem algumas sepulturas antropomórficas rupestres. Mas não se fiquem pela praça pois as ruelas têm mais para conhecer, desde igrejas, fontes (como a Fonte de Mergulho), casas quinhentistas e senhoriais (como o Solar dos Marqueses de Marialva), ou a cisterna que garantia água para a Cidadela. 

Cidadela  

Ainda no Arrabalde, a cereja no topo é a Capela de Santa Bárbara, escondida por trás das muralhas. O pequeno templo é também todo um miradouro sobre as planícies a Sul. Sentem-se nos rochedos, encham o peito de ar, contemplem o infinito e levarão inspiração para a vida. Para enriquecer a experiência, contem com a companhia das andorinhas que nidificam nas muralhas, toutinegras, felosas e, com sorte, algumas rapinas lá no alto, como grifos. Já dentro de muralhas, na Cidadela, sentimo-nos num Portugal que é tudo menos dos Pequenitos. A entrada é vigiada por um anjo da guarda e de imediato o mundo pára. Caminhar pelo silêncio das ruínas enche-nos a imaginação e conseguimos mesmo ouvir e sentir a vida que por ali pulsou durante séculos. Foi aqui que nasceu o nome Malva, pela mão dos árabes, sendo re-baptizada de Maria Alva – Marialva, aquando da reconquista cristã, no séc. XI. Desta que foi uma das mais imponentes e fortes praças de guerra do reino, graças às obras levadas a cabo por D. Dinis e D. Manuel (séc. XIII – XVI), permanecem uma série de vestígios que relatam a sua autonomia administrativa.  

Desde a casa dos magistrados, por cima da cadeia, ao pelourinho ou mesmo à câmara, reutilizada como escola primária já nos séculos XIX – XX. Lado a lado, a Capela Senhor dos Passos e a Igreja de Sant’Iago fazem companhia à torre de menagem do castelo, de onde se tem uma das melhores vistas sobre a cidadela e o horizonte. Para que a veia de exploradores não se esvaneça, deixamo-vos descobrir por vocês todas as portas, todas as torres e todos os vestígios de cultos, de casas ou de ocupação judaica que por aqui resistem às badaladas dos agora silenciosos sinos. 

Para comer e dormir, no Largo do Cruzeiro têm o Nicho, que não falha na hora do cafezinho e alguns produtos regionais. Para pernoitar, com tudo o que o ambiente pede, as Casas do Côro têm todo um leque eco-friendly de actividades, gastronomia, lazer e descanso. Anualmente é realizada uma Feira Medieval, que mais do que nos levar para o passado, consegue trazer o passado até nós. A cidadela está aberta de segunda a Sábado, das 10h às 13h e das 14h às 18h. Custa 1,5€ e pode ser guiada se fizerem marcação. O passeio a Marialva também faz parte das Road Trips do Turismo Centro Portugal que podem descobrir aqui.

Texto: Inês Teixeira
Fotos: Inês Teixeira e Pedro Costa

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Lecinio Ferreira
07.06.2020

Foi preciso chegar aos 67 anos para ler o que é tudo sobre Marialva.mas ainda deve haver .uito mais obrigada a que escreveu este texto

Anselmo Nascimento
24.06.2020

Excelente levantamento da realidade de Marialva, só os mais antigos (a minha avó sabia tudo de Marialva ) tinham uma vaga ideia desta verdadeira. descrição de esta aldeia maravilhosa.