Relato de uma retroseira: “Até foi bom porque de elásticos foi uma maravilha!”

Ai, o que isto era e o que isto está. Ao balcão da retrosaria Mateus, Maria Ducília Soares recorda outros tempos. Mas não são os tempos antes do confinamento provocado pela pandemia de covid-19, que esvaziou a Baixa de Coimbra como as baixas de tantas cidades em todo o mundo, obrigando os comerciantes a um penoso mês e meio de encerramento forçado. Há 25 anos, quando viemos para aqui, já não tinha muita gente, mas antes? Antes, quando eu era miúda, eram filas e filas de gente, fartavamo-nos de esperar.

Maria Ducília tinha 13 anos, quando veio de São Paulo de Frades aprender a costurar com uma modista, no centro de Coimbra. Ao fim-de-semana os autocarros vinham cheinhos de gente que ia aviar-se à praça e depois aqui às da Baixa, conta. Hoje dormem a manhã na cama ao sábado e depois à noite vão ao shopping, porque é passeio. Quando Maria Ducília diz hoje, é forma de expressão, porque as grandes superfícies comerciais estão encerradas. As maiores da cidade, o Coimbrashopping, o Alma e o Fórum Coimbra, só têm hipermercados e farmácias abertas. Já viu? Quem diria.   

Desconfinamento

Portugal saiu do Estado de Emergência. Ainda é de Calamidade mas a ordem é para desconfinar gradual e cautelosamente. Maria Ducília diz que passou a quarentena em casa, na aldeia. Andei a semear batatas, a semear feijão, a plantar couves, andei na terra - a terra é uma maravilha! Apesar de estar aposentada e de ser grupo de risco, apoia a nora e os filhos e abre as portas do negócio que comprou para eles, depois de uma vida de muito trabalho, da agricultura às limpezas e costura. Tenho 68 anos mas estou protegida, Deus o sabe, vai ser o que for. O marido, antigo ourives, faz-lhe companhia. Não temos empregados, é o que vale. Abrimos ontem e, por acaso, até foi bom porque pelo menos de elásticos foi uma maravilha! Foi vender elásticos e linhas! Até faltou. A retrosaria Mateus não tem máscaras à venda, mas tem os materiais para as fazer. Maria Ducília usa uma cirúrgica e tem uma viseira, mas como sabe que tem de usar a máscara na mesma, por agora, deixa-a debaixo do balcão. 

De resto tenho os cuidados que posso ter, estar assim afastada das pessoas, ir lavando bem as mãos, diz. Os próprios clientes fazem o trabalho todo. Entram um a um e fazem uma fila cá fora, com a distância de segurança entre eles. Enquanto faziamos esta entrevista, quatro entraram a perguntar se havia elásticos. Ontem estava a entrar uma senhora inglesa, sem máscara - não era francesa, notava-se - e eu lá consegui avisar; ela tirou a máscara da bolsa, pôs na cara e pediu desculpas lá na língua dela. Tem de ser, a gente não está habituada.

Maria Ducília diz que foi difícil chegar à cidade e ver uma Baixa triste mas o pouco movimento deixou a retroseira feliz. E depois gosto muito de conversar, as pessoas que vêm da aldeia são assim; há pouco uma senhora que eu conheço veio aqui e eu até lhe disse: chegue-se cá para dentro que eu fecho a porta e ficamos aqui ao paleio. Eu gosto de paleio. Faz parte da vida, então não é? A Retrosaria Mateus existe há mais de 60 anos no nº 34 da Praça do Comércio, em Coimbra. Tem linhas (e babetes e lingerie) mas não está em linha, não tem site na Internet nem página no Facebook, mas eecebe com um sorriso e dois dedos de conversa, sem custos adicionais. 

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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