Entre quatro paredes também há Liberdade

Não poderia ser mais terrivelmente simbólico o facto de, este ano, muitos passarmos o 25 de Abril em casa, devido ao Estado de Emergência causado pela pandemia do novo coronavírus.

Mas não é por ser passado entre quatro paredes que tem de deixar de ser celebrado, sobretudo por quem reconhece a enorme importância do dia que assinala a Revolução dos Cravos de 1974, o movimento político e social que depôs o regime ditatorial do Estado Novo, vigente desde 1933. 

Hoje em dia parece impensável mas há apenas 46 anos não podiamos ler todos os livros, ver todos os filmes nem ouvir todos os discos que nos apetecesse. Se fossemos mulheres então, nem andar sozinhas à noite na rua, usar biquíni ou viajar para o estrangeiro sem autorização por escrito do marido. 

Antes do 25 de Abril não podiamos dar um beijo em público e era pouco provável que conhecessemos sabores de outros países, como sushi ou mesmo caramelos.

Estamos há mais de um mês em confinamento por causa da crise do COVID-19, imaginemos 48 anos sob uma ditadura. Porque o momento que vivemos além de sacrifício pede (muita) reflexão, sobre o presente mas também o passado e o futuro, convidamo-vos para uma viagem no tempo. Uma viagem até ao dia em que a acção liderada pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), com o apoio de oficiais milicianos e da população em massa, levou à nova realidade do nosso país, onde as pessoas podem pensar e dizer o que pensam livremente, entre outros direitos.

A nova constituição entrou em vigor no dia 25 de Abril de 1976, dia das primeiras eleições legislativas da nova República e em que foi instituído o feriado nacional: Dia da Liberdade.

Imagens

Se quiserem contar ou relembrar a história aos miúdos, este vídeo da RTP conta o 25 de Abril num Minuto. Neste link também podem ver um programa que traça uma retrospectiva histórica do Estado Novo, destacando as questões que mais contribuíram para a queda do regime: perseguição política e repressão policial, a censura e a guerra colonial. Mas são inúmeros os registos em imagens no arquivo do primeiro canal de televisão do país e também vale a pena descobrir relatos sobre a sociedade na época, como o Ideal Feminino do Estado Novo.

 

Documentos e objectos

Há um sítio em Coimbra onde podem descobrir tudo sobre o 25 de Abril através de textos e inúmeras outras peças originais, muitas doadas até mesmo pelos protagonistas da Revolução dos Cravos. O Centro de Documentação 25 de Abril fica na Rua da Sofia, em Coimbra, e falámos dele aqui, há um ano, a propósito do Roteiro do 25 de Abril em Coimbra que fizemos com o investigador Pierre Marie. O Centro está fechado por estes dias mas se entrarem no site podem ver, entre outras coisas, muraiscartazescartoons e fotografias da época.

 

Música

Para muitos, imaginar um mundo em que não podiam ouvir aquilo que lhes apetecesse é praticamente impossível, tendo em conta que hoje podem levar centenas de canções no bolso, mas era assim.

A música teve um papel crucial não só na comunicação entre a população como na própria Revolução. E depois do Adeus de Paulo de Carvalho e a Grândola, Vila Morena de Zeca Afonso, proibida na época, foram os sinais transmitidos via rádio que fizeram avançar o golpe de estado.

Outros temas importantes são A Cantiga é Uma Arma, de José Mário Branco (falecido no ano passado), Liberdade de Sérgio Godinho, Pedra Filosofal, poema de António Gedeão cantado por Manuel Freire e a Tourada, de Ary dos Santos, interpretada por Fernando Tordo.  

Cravos

Além da história, da música e da arte que podem pesquisar na Internet e partilhar com os mais novos, sugerimos que os desafiem também a ligar aos avós se forem vivos e pedirem-lhes para contarem como foi viver aquela época.

Também podem desenhar e recortar juntos alguns cravos para usarem ou pendurarem na porta em comemoração do Dia da Liberdade. Contem-lhes que reza a história que uma senhora ofereceu um cravo a um soldado antes de ir para o Largo do Carmo, local da rendição do Estado Novo, que colocou no cano da espingarda e o gesto foi visto e imitado, acabando por se tornar um símbolo da revolução pacifista que foi. 

Comemorações

Em Coimbra, a Cooperativa Bonifrates anunciou que vai associar-se às Comemorações Populares do 25 de Abril, através de uma participação em parceria com A Escola da Noite, no respectivo site, coordenado pelo Ateneu de Coimbra. A participação, sob o mote José Mário Branco...muito mais vivo que morto, será disponibilizada na noite de 24 para 25 de Abril, antes da Queima do fascismo.

A Camaleão, a MPAGDP - A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria e o 23 Milhas organizam o Festival Liv(r) em live streaming, nos dias 24, 25 e 26 de Abril, às 21:30, com mais uma emissão especial no dia 25 às 17:30. Podem ver os concertos de 12 artistas, em 4 sessões de três concertos de meia hora cada, em direto na página de Facebook d'A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria. ClãGalandum GalundainaJoão BerhanAdéliaJoão FranciscoPedro MestreMariana RootEdgar Valente, Quiné Teles, Tiago Sami PereiraTiago Jesus e Vasco Ribeiro são os artistas que fazem parte do programa, oriundos de diversas zonas do país e ligados por uma visão comum da música e do seu papel interventivo, construtivo e redentor. 

Pela palavra, pela composição ou pelo propósito das suas canções, foram selecionados pelos três organizadores para cantarem a liberdade e entre cada concerto há uma entrevista, com base em algumas das questões colocadas pelo público durante os concertos.

A emissão também é difundida nas páginas de todos os parceiros e no apoio à divulgação estão o BONS SONS e a Associação José Afonso. De notar que no Liv(r)e, estão assegurados pagamentos aos artistas mas o evento só é possível graças ao trabalho voluntário das várias equipas. O público é liv(r)e de contribuir com donativos. Os horários dos concertos serão divulgados ao longo desta semana.

A Câmara Municipal e a Assembleia Municipal de Coimbra prepararam um programa de celebração do 46º aniversário do 25 de Abril com vários momentos gravados que vão ser partilhados nas redes sociais (Youtube, Facebook e Instagram) e no portal de notícias do município.

O programa começa com a partilha do momento do hastear das bandeiras nos Paços do Município de Coimbra, gravado em 2019, inclui um vídeo institucional e dois momentos culturais com bandas locais a interpretarem músicas de intervenção gravadas ao longo desta semana no Convento São Francisco: Anaquim e Quatro e Meia. 

Texto e fotos: Filipa Queiroz
Fotos: RTP, Youtube e Festival Liv(r)e

Actualizado às 16h30 de 24 de Abril, 2020

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