Relato de uma nonagenária: “Vivo um bocadinho em pânico”

Hoje está contente. Suzana Queiroz aprendeu a fazer videochamadas a partir do computador portátil que tem na mesinha, junto à televisão. Eu pedi e a minha neta ensinou-me, é muito bom para mim e é bom para eles, para verem que estou bem, conta a reformada ao telefone da Alta de Coimbra, o coração da cidade e um dos principais pontos turísticos e de boémia, onde por estes dias pouco mais se ouve do que os sons das máquinas das obras. Toda a zona sofreu grandes alterações nos últimos anos, graças à requalificação das vias e do património, classificado em 2013 pela UNESCO, e ao investimento em negócios relacionados com o turismo, como o alojamento local. Longe vão os tempos do Quebra Costas e do Largo da Sé Velha de 1929, ano em que a antiga modista e funcionária dos Hospitais da Universidade de Coimbra lá nasceu, mas há uma coisa que se assemelha este dias: a ausência do trânsito automóvel.  

Há cerca de três semanas que Suzana está em quarentena profiláctica, devido à pandemia no novo coronavírus (COVID-19). Não vai além do que umas dezenas de passos da porta de casa. É uma situação assustadora e estou impressionada com as notícias, diz. Como tenho 90 anos, sei que vou ser posta de lado não havendo aparelhos disponíveis, já estou fora do prazo e vão salvar os mais novos. 

Não sei como é que [o vírus] é, não me aproximo das pessoas, mas estou a fazer tudo o que me dizem, mesmo sem compreender como é que ele contagia tanta gente. Viúva, Suzana vive sozinha mas conta com o apoio dos netos, amigos e vizinhos. Diz que em 90 anos nunca viu nada igual à crise que levou ao actual estado de emergência no país. Vivo um bocadinho em pânico mas como sou católica praticante acho que se tiver de acontecer acontece, cada um parte na hora para que está marcado, então reflicto...será a minha hora? Será que tinha de passar por isto? Deve ser uma agonia muito grande ficar infectado junto de pessoas mais novas. Apesar de saber que tem de se manter informada, Suzana evita ver demasiadas notícias, que acompanha quer na televisão quer na Internet. Vou sabendo do meu país e da minha cidade mas não vejo tudo, estou muito sensível, não tenho reservas nenhumas; passei por muita coisa e sempre achei que de alguma maneira tinham de acontecer mas isto é diferente. 

Independente quanto baste, do banho às refeições e organização da casa, a nonagenária faz quase tudo sozinha e confessa que tem a sorte de viver rodeada de quem gosta. Pessoas que, como o Deus em que acredita, agora não pode ver ao vivo nem tocar, mas sabe que estão lá. Quantas vezes me dá vontade mas sei que não devo, Deus me livre de não respeitar as normas.    

Rotina

Às 7h, no máximo, Suzana Queiroz já está acordada. Reza 50 minutos antes de fazer o que quer que seja e depois toma a medicação, o pequeno-almoço, o banho e, num dia normal, apanharia o Pantufas, o miniautocarro eléctrico que a leva até à Baixa para aviar recados e caminhar os minutos prescritos pelo médico. Agora, fica em casa. Caminha do quarto até à cozinha e da cozinha até ao quarto, às vezes arrisca uns minutos à porta de casa. Sente dores nas pernas inchadas, o corpo com fraca circulação a pedir movimento e a cabeça que já não passa sem a televisão ligada para disfarçar o silêncio. À hora do almoço, reza de novo, come, depois vê a telenovela, faz alguma coisa que precise - nem que seja pregar um botão - e lê. De cada vez que leio vejo as coisas de maneira diferente e medito naquilo até ao lanche. Diz que às vezes também viaja. Na televisão e no computador vou a imensos sítios! Vou a museus, vejo notícias e histórias de pessoas que têm vidas muito diferentes da minha, sei que há muita coisa além daquela que eu imagino. E o vírus? E a pandemia? Há-de haver uma grande degradação social. Isto vem na Bíblia, que havia de vir uma epidemia e matar muitas pessoas. Estão a acontecer coisas que nós não imaginávamos que podiam ser reais. No entanto, as coisas vão-se compor, o mundo vai voltar depois deste grande trambolhão. Não é só a peste, é a formação das pessoas, a educação. A morte é sempre uma coisa triste e má, vai levar o seu tempo mas vai-se purificar um pouco e depois entrarão num novo mundo, mais calmo. Eu já não vou estar cá para ver mas acho que vai ser assim. 

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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