Coronavírus: testemunhos e dicas de quem está em Macau e Xangai

Somos muitos no mesmo barco mas uns começaram mais cedo do que outros e não há nada como ouvir a voz da experiência para apaziguar o espírito ou tirar dúvidas. Já falámos aqui sobre como lidar com uma situação de isolamento, mesmo que voluntário, e agora trazemos testemunhos de quem já está, há cerca de 2 meses, a viver a entretanto declarada pandemia mundial do novo-coronavírus (COVID19). 

A abordagem chinesa à contenção da pandemia foi elogiada pela Organização Mundial da Saúde e Macau foi considerado um exemplo a seguir. Ana Marques, Marco Cannarelli, Jordan Miguel de Freitas, Fátima Peralta, José Drummond e Rita Gonçalves vivem em Macau e na China continental e atiram-nos ideias, experiências e dicas sobre como enfrentar este nosso 'novo normal' que não se sabe por quanto tempo vai ficar. 

Ana Marques

Directora-Geral Smallworld Experience, Macau

'No início, como eram os feriados do Ano Novo Chinês, fiquei sossegada em casa. Ainda estava a tentar perceber o que se passava e porque seria assim tão grave. Questionava-me se não seria apenas pânico generalizado, um exagero. De qualquer forma achei melhor ficar em casa, tal como recomendava o governo. Não fui para a rua fazer compras em pânico, não fui a correr comprar máscaras. Dia 30 de Janeiro tinha de voltar a trabalhar. Podia trabalhar de casa se quisesse mas como queria finalmente sair um pouco e felizmente tenho a sorte de viver a 10 minutos a pé do escritório pus-me a caminho. Já se via muitas pessoas com máscaras mas eu ainda não sabia como funcionava o sistema de distribuição e nas farmácias por onde passei não havia stock. No dia 2 de Fevereiro houve a segunda distribuição e lá fui para a fila da farmácia comprar, toda a gente que esperava estava a usar máscara menos eu mas desde desse dia que nunca mais a tirei.

Há umas semanas houve um dia em que me esqueci da máscara e só me apercebi a meio caminho (ia distraída ao telefone). Senti os olhares recriminadores ou curiosos, ou seria simplesmente a minha consciência a dizer que estava errada e a colocar-me a mim e aos outros em perigo. Já não haviam casos activos, que soubéssemos, mas continuamos todos a prevenir e a ter cuidado. Têm sido dois meses de casa- trabalho-casa, supermercado ou mercado se necessário, fins de semana em casa, alguns jantares em casa de amigos e saí uma vez para beber um copo. Ninguém tinha máscara mas confesso que no dia seguinte me senti irresponsável. 

A nível profissional, estamos a tentar manter a motivação. Aproveitamos para trabalhar em coisas para as quais normalmente não temos tempo e mantemos a cabeça ocupada. Durante o mês de Fevereiro a cidade estava deserta e silenciosa, uma sensação estranha de não reconhecê-la mas que me dava segurança. As reuniões de trabalho foram feitas de máscaras e sem apertos de mão mas foram tão poucas que os dedos de uma mão chegam para as contar.

Metade da nossa equipa está a trabalhar de casa. Entretanto tivemos de tomar medidas que incluem licenças sem vencimento. Não sabemos o que o futuro reserva mas baixar os braços não vai resolver nada e como tal continuamos a trabalhar, melhorar ferramentas, criar produtos, ocupar a mente, sermos produtivos e encarar isso como um investimento. Até quando nos vamos aguentar não sabemos. Tendo este factor em conta, além das medidas de prevenção optei por cortar em tudo o que fossem despesas desnecessárias: trazer comida para o escritório em vez de ir comer fora foi a primeira, até porque estava tudo fechado e como tal era o mais prático e seguro. 

Como me sinto? Auto-motivo-me todos os dias, quero que a empresa continue a funcionar e como tal tenho um motivo forte para acordar de manhã e cumprir com o que me proponho. Quero voltar a ganhar o meu salário sem restrições e para tal sei que tenho de dar mais do que o meu melhor, um motivo egoísta que me leva a dar mais de mim para o bem de todos. Tudo isto enquanto lavo as mãos 100 vezes ao dia e uso máscara.

Tenho viagem marcada para ir a Portugal em Abril. Vai ser o meu mês de licença sem vencimento e estava contente por poder ir ver a família e amigos, buscar o equilíbrio mental que ir à minha primeira casa me proporciona, mas agora a probabilidade de adiar é muitíssimo elevada. Confesso que me preocupa muito muito a situação em Portugal e até que ponto pode afetar os meus. Isso tem-me afectado mais do que quando tudo começou aqui em Macau. Estou preocupada mas motivada! Tenho tentado o melhor que sei aconselhar a família e os amigos que estão em Portugal para se protegerem e deixarem o factor económico para mais tarde mas bem sei que ainda nos lembramos da crise económica de há pouco mais de 10 anos e isso afecta e mexe.

Andamos todos meio sem saber o que fazer, mas espero que a malta comece a ficar meio sem saber o que fazer em quarentena, como deve ser, e não em esplanadas. Nunca vi nada ser resolvido com pânico e histeria por isso a primeira medida a tomar é a calma. Digo que se puderem usem máscaras, mesmo que não estejam ou achem que não estão infetados, é uma questão de respeito próprio e para com os outros; lavem muito as mãos, sabão azul nunca fez mal a ninguém (eu já o usava e tenho lido que desinfecta tanto ou melhor do que os frasquinhos de desinfetante e será mais sustentáve). Nas últimas semanas não se fala tanto na guerra contra o plástico mas mais do que nunca a poluição será um problema com o lixo hospitalar a crescer e se pudermos contribuir, nem que seja um pouco, já ajuda.

Façam reuniões de trabalho com máscara, visitem os amigos com máscara. Evitem visitar pessoas nas casas delas, não se sabe o que se traz da rua. Não cumprimentem as pessoas fisicamente, não se toquem, esqueçam os beijinhos, os apertos de mão. Quando chegarem a casa tomem logo banho e não toquem mais na roupa com que andaram na rua até meterem na máquina de lavar. Não toquem na cara quando andarem na rua e trabalhem de casa se puderem. Se não puderem, arranjem coisas para fazer como um curso online, dediquem-se àquele hobbie para o qual nunca têm tempo ou arranjem um novo (o artesanato está muito na moda, aproveitem para ensinar os filhos a tricotar, restaurar um móvel, cozinhar ou ir para a horta se forem sortudos e a tiverem).'  

Marco Cannareli

Arquitecto, Macau

'No princípio pensei que fosse limitado a Macau, não me preocupei muito até porque parecia baixa a mortalidade e fez-me pensar que era simplesmente uma gripe um bocado mais séria, mas ainda assim simples. Com o passar dos dias crescia o número de infecções e a ansiedade colectiva mas acho que eu ainda estava 'calmo'. Quando fecharam os casinos comecei a ficar na dúvida sobre se estaria a subestimar a situação ou se era realmente perigoso, mas estava mais preocupado em perder o emprego do que em apanhar o vírus. Felizmente parece que o pior já passou mas agora estou muito mais preocupado com a minha família e amigos em Itália e recomendo a todos que usem a máscara em público durante 2 meses e fecharia todas as fronteiras por pelo menos um mês, além de limitar as viagens e a liberdade até a curva de contágio diminuir.'

Jordan Miguel de Freitas

Realizador, Macau

'Tirando a máscara fiz a mesma vida mas eu já saía mais tarde por não haver multidões, para desfrutar mais da cidade. Nunca entrei em pânico, fiz sempre as minhas compras como sempre mas eu tenho sempre comida em casa suficiente para dois meses ou mais. Andei com gel desinfectante, toalhetes húmidos e lenços e estou sempre a lavar as mãos. Não saí de Macau. Quarentena ou manutenção de distância é sempre o melhor e às mãos junta-se o não tocar na cara.'

Fátima Peralta

Médica, Macau

'A pandemia do CoViD19 surge neste momento como uma guerra implantada em todas as frentes, atacando indiscriminadamente qualquer cidadão, qualquer sexo, raça, grupo etário ou social. O que se impõe é uma boa estratégia de defesa, já que as armas de ataque ainda estão a ser produzidas. Precisamos de vozes de comando que terão que ter à frente os técnicos, os profissionais que conhecem melhor o inimigo. Temos que ter oficiais, sargentos e praças. As ordens têm que ser ouvidas e cumpridas por todos. Temos que defender os nossos familiares, amigos, conhecidos e a própria sociedade em que vivemos. Não há tempo a perder. Cada minuto de espera aumenta o número de infectados. Acima de tudo, é preciso organização, material de defesa para os soldados na primeira linha e que todos os outros estejam entrincheirados. Sempre fomos bons guerreiros e tivemos bons líderes em alturas cruciais da nossa história e é disso que precisamos neste momento.'

José Drummond

Artista visual, Xangai

'Antes de mais quero deixar uma mensagem de esperança. Acreditem. Não se deixem ir abaixo. O momento é agora difícil para todos. Começou deste lado, na China, e espalhou-se por todo o planeta mas somos todos um e vamos conseguir. Esta guerra contra o Covid19 está longe de estar terminada. A união entre todos é mais necessária que nunca. Este é um momento em que o individual é o colectivo e o colectivo é o individual. Todos dependemos do esforço de cada um. Todos temos que estar vigilantes e todos temos um papel a desempenhar. É necessário que todos se comprometam a ficar em casa e que sigam as recomendações. Apelo aos jovens para que também o façam. Os jovens são o futuro do país e não é o facto de poderem ter um sistema imunológico mais forte que vos salva da doença. É urgente a responsabilização de todos para que o SNS não fique sobrecarregado e se possa tratar do número crescente de doentes da Covid-19 e, ao mesmo tempo, continuar a tratar de outros problemas de saúde.  

Eu sei que é um momento assustador. Nas minhas oito semanas de quarentena aqui em Xangai tive que reinventar os dias. Todos os dias. Dias seguidos a usar a mesma roupa num estado de monotonia e ansiedade. Não será fácil dormir. Não será fácil abstrairmo-nos do que está a acontecer. Os dias vão-se baralhar. O mesmo com as horas. É essencial que se mantenham criativos, que encontrem coisas para fazer que nunca fizeram antes. Dediquem-se ao que existe dentro de cada um. O choque é grande mas não se deixem esmagar pelo medo. É importante que pensem em todas as outras coisas que vos dão alegria e pelas quais vale a pena lutar. Coragem. Perseverança. Amor. Nós somos o mundo.'

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Ana Marques, Banco de imagens, José Drummond

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