Já podem ver e ouvir os Animais que revisitam Paredes

Saíram da toca e agora já ninguém os apanha. Os músicos de Coimbra que, há 17 anos, se juntaram para celebrar a obra de Carlos Paredes, transformaram o projecto em disco. Raquel Ralha, Ricardo Dias, Pedro Lopes, e Pedro Renato, de bandas como os Wraygunn, Belle Chase Hotel, The Twist Connection, Mancines, Quinteto de Coimbra, aCapella e Na Cor do Avesso, são o colectivo Animais que assina 15 Anos Sem Paredes. Um álbum intenso para almas irrequietas, ouvidos exigentes e espíritos livres, nas palavras deles, eeditado pela Lux Records.

Além de exímio compositor, Carlos Paredes foi um dos principais responsáveis pela divulgação e popularidade da guitarra portuguesa e em particular do estilo musical coimbrão, apesar de a vida lisboeta também o ter marcado e inspirado.  

Paredes morreu em 2004, um ano depois de ter assistido ao espectáculo Mondego Chase no Teatro Académico de Gil Vicente, que deu origem ao projecto que agora nasce. Mondego Chase tinha sido criado a partir de alguns dos temas mais emblemáticos do músico e juntava os Belle Chase Hotel com o Quinteto de Coimbra. O mestre aplaudiu-o, segundo o grupo, mas ficou na gaveta o projecto agora regressa, inclusive ao mesmo palco. Podem ver os Animais no próximo 24 de Abril, noite da Revolução, no Teatro Académico de Gil Vicente.

Contem com a revisitação de temas como Noite, Verdes Anos e Despertar. A acompanhar a música, os Animais atiram-nos um Manifesto, que podem ler em baixo. O disco está à venda aqui e aqui

Manifesto

Estamos cansados de tanta Humanidade!

Quem parou para se questionar porque cometemos sempre os mesmos erros? Sim, Tu também! Tu que segues acreditando, confiante, no futuro! Mas alguém poderia confiar no presente? Ou no passado? Esses que se vão escondendo debaixo do tapete roto do progresso…

No que se diz Humano diz-se sempre mais do mesmo: Eu, Meu, Nosso. Nós, Eu, Eu! Não cuidamos de nada, nem de ninguém! Pelo caminho à sorte, vamos destruindo o céu e a terra.

Desistimos! Acabou-se!

Tu que partes sempre de Ti para o mundo, Usas e Abusas das estacas conceptuais e dos objetos sólidos e frígidos (incluído falantes) para Teu bom consumo e proveito. Tu que morres ao serviço das coisas e nem disso deste, eternamente, conta. Ouves e lês pouco, falas muito e vês desmesuradamente – eis o controlo, a apreensão, o domínio, a superioridade. – Ah! Ah! Ah! Olha o tsunami atrás de Ti! Os olhos não te salvam das correntes invisíveis do mundo! Enquanto isso o que tens de verdadeiramente vivo vai definhando. A alteridade esvaziando. A terra agonizando.

Escondeste-Te atrás de Deus para do animal tirar a alma. Não sabendo o que fazer com o sopro divino encheste pneus e ateaste fogos. Sem a carne do animal fantasiaste o sonho do Imortal, majoraste letras para ser Homem e diminuíste o homem, a mulher, a criança, o velho, a natureza, a vida.

Iluminamos esta evidência contra a escura sombra que alguns interessados, ínfimos, nela investem com prolongado sucesso. Lá vais Tu na corrente, pateta!!!
Perante eles, e este estado de coisas, assumimos aqui oposição integral – nunca de partidos, ideologias, religiões, pátrias ou filosofias –, uma oposição, simplesmente, de natureza.

Não aceitamos mais ser parte dessa ficção rebuscada! Queremos voltar à raiz, à essência, ao que somos; ao que sempre fomos em vitalidade, em energia, em ação, em força fértil, em criação. Assumimos uma oposição integral a este estar abstracto, fabricado, idolatra, repetidor, controlador. Queremos ser o que sempre fomos, anima!

Nem sequer cumpriste a herança de cooperação! Estás a ouvir? Isso é uma herança não humana! O todo, o comum, mantém-se condenado às meras palavras e às boas intenções! O primordial é secundário e a pátria define-se por proximidade. Que mesquinhez! Que pena!

Poucas crianças com tudo; outras, tantas, sem nada! Eis a vergonha da era atómica!

Eis a verdadeira bomba atómica!

Queremos apenas a nossa voz em minúsculas! Porque uma vida assim é pouca!
Assim, descreditados desta pseudo vida, optamos por aceitar a morte natural! Um morrer digno, entrega invisível, dádiva flutuante, expressão contínua, música ou verdade. Não nos permitindo morrer humanos – até hoje quem o fez? – preferimo-nos em carácter, fiéis à nossa matriz natural.
Deixamo-nos ir neste mundo de minúsculas: humano, uno, divinal, artístico, de mudança contínua, criador. Um mundo de vida e de morte; um mundo audível, um mundo musical.

Permitimo-nos ser
Animais
2020

Texto: Filipa Queiroz
Foto (capa): Bruno Pires

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