Explorar as Aldeias Históricas | Trancoso

Quem gosta de caminhadas não pode perder um dos percursos que mais espelha Portugal: a Grande Rota das Aldeias Históricas (GR22), eleita uma das melhores da Europa pela Associação Europeia de Caminhantes. São cerca de 600 km de Natureza e História que ligam 12 Aldeias Históricas. 

Cada uma conta um pedacinho de como chegámos aqui e ao longo dos próximos 12 meses vamos trazer-vos um cheirinho de cada. Arrancamos com a aldeia que também é vila medieval e, desde 2004, cidade. Vamos até Trancoso, a terra do frio que nos aquece o coração.

Passeio pela cidade

Se são muitas as páginas de Trancoso na história do país, muitas outras são aquelas sobre mitos, lendas e personalidades históricas que permanecem gravadas na memória colectiva. É o caso de Gonçalo Anes Bandarra (1500-1556), sapateiro, poeta e profeta. Para além de referência para Fernando Pessoa e Padre António Vieira, Bandarra foi o responsável por continuarmos à espera que D. Sebastião apareça numa manhã de nevoeiro, imagem que transcende a imaginação quando olhamos para as Portas d’El Rei numa densa manhã de Inverno. São muitos os vestígios dos séculos passados, desde pontes e estradas romanas, a muitos outros com
assinatura judaica. Afinal, estamos em terras da mais importante comunidade judaica da região, dos séc.
XV e XVI, e isso é reflectido na Casa do Gato Preto, na réplica de uma antiga sinagoga, no Centro de Cultura Judaica Isaac Cardoso, ou mesmo em alguns dos cruciformes gravados na fachada de granito de algumas casas.

Dentro e fora de muralhas

Para além das várias capelas e igrejas - que vão desde o românico-gótico ao barroco -, e do Convento dos Frades Franciscanos, Trancoso está salpicado de momentos e monumentos. Fontes e poços espalhados por cantos e recantos aguardam por ser descobertos. Paços e palácios fazem de nós pequeninos. Chegamos mesmo a sentir-nos gigantes quando passamos pelo Boeirinho, um pequeno postigo que permitia a entrada de retardatários. Sepulturas rupestres antropomórficas, que não nos deixam esquecer que a história é contínua, e mesmo um romântico parque municipal com mais de 40 espécies arbóreas, entre as quais sequoias gigantes que chamam por um abraço. Vale a pena perderem-se nas ruas e ruelas do Centro Histórico que no Verão vos brindarão com as cores vivas das maravilhosas hortênsias, tão estimadas pelos moradores. O Inverno não traz menos encanto, se tivermos em conta que o frio aquece a alma de quem vê um dos mais belos fenómenos desta época: o sincelo, resultado do congelamento de partículas de água, do nevoeiro, quando em contacto com uma superfície. 

Terra de muitos sabores

Castanhas, nozes, queijos, enchidos, Trancoso não se faz rogar a uma variada culinária que espelha a sabedoria secular. É o caso do ensopado de míscaros e das famosas sardinhas doces de Trancoso, receita conventual do Convento de Santa Clara. Com sorte, apanham um dos muitos eventos anuais como a Feira da Castanha, o Festival de Música no Castelo ou as Bodas Reais, que recria o casamento real de D. Dinis com a Rainha Santa Isabel. Têm informação sobre onde comer, onde dormir e o que fazer aqui e aqui. Nós recomendamos o Cantinho dos Arcos, Restaurante São Marcos, O Museu e O Retiro do Castiço

Viagem no tempo

A cerca de 860 metros de altitude, entre a Serra da Estrela e o Vale do Douro, Trancoso viu fundado o seu castelo, nos séculos VIII-IX. Fica numa localização estratégico-militar privilegiada que lhe conferiu um lugar de extrema importância na história de Portugal. Hoje, com uma torre de menagem resistente a séculos de conquistas, é considerado uma das fortificações mais importantes da região. Com carta de Foral cedida por D. Afonso Henriques (1162-65), foi da carta de Feira cedida por D. Afonso III (1273) que nasceu a mais antiga feira franca viva do país - a tão afamada Feira de S. Bartolomeu. Mas foi D. Dinis o responsável por pintar a imagem mágica que conhecemos da vila porque garantiu a expansão das muralhas, dentro das quais desenhou uma malha urbana ortogonal. Desde cedo que o então Rei de Portugal sentiu Trancoso como um lugar especial, celebrou aqui as bodas com D. Isabel de Aragão - a nossa padroeira Rainha Santa - ficando o acontecimento imortalizado com a construção da capela de S. Bartolomeu.

Numa zona de fronteira instável, esta vila da Alta Idade Média foi palco de conflitos e batalhas fundamentais para a formação e independência do reino. Foi o caso da Batalha de Trancoso, que infligiu pesadas baixas a Castela, diminuindo-lhe as forças na Batalha de Aljubarrota. Se o ego dos castelhanos foi afagado ateando fogo à capela de S. Marcos, a lenda que impera é a de que apenas serviu para que o próprio S. Marcos se juntasse aos portugueses, como cavaleiro, na batalha que firmou a independência. Já dizia Luís Vaz de Camões n'Os LusíadasJá na cidade Beja vai tomar/Vingança de Trancoso destruída/Afonso, que não sabe sossegar,/Por estender coa fama a curta vida.

Boa viagem até terras onde o frio nos aquece!

 

Texto e foto: Inês Teixeira
+ Fotos: Município de Trancoso

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