Belarmino: “Tínhamos a guerra de um lado, do outro estávamos sempre a dançar.”

Era só ligar um rádio ou passar música que as pessoas reuniam-se e tentavam esquecer um bocado o que se estava a passar. Belarmino Nascimento nasceu no Uíge, em Angola, depois do fim da ditadura em Portugal e início da independência mas durante a nova guerra que o país africano atravessava. A própria guerra, interna e civil. Vi a cidade toda metida num caminho, imagina que Coimbra toda está a dirigir-se para um lado só, com trouxas na cabeça e malas. Tinha de acordar às 3h da manhã e levar o que podia. Os meus pais não me podiam levar ao colo porque viajámos uns 40 km até encontrarmos o local mais seguro. Enquanto aprendia a tocar flauta com o pai, nos anos 1980, aumentava o número de mortos e refugiados e cidades inteiras eram completamente destruídas, inclusive a dele. Já não era a mesma coisa, viviamos de improviso. Já não tínhamos cinemas, já não tínhamos jardins. Havia umas pequenas casas de pessoas que queriam oferecer algum entretenimento e punham um televisor que era como se fosse um cinema, nós pagávamos para ir ver os filmes. 

Eram os videoclubes. O bichinho musical começou aí. Porque antes dos filmes passavam videoclipes e Belarmino ficava fascinado com os artistas angolanos, sobretudo os O2, ex-N'Sex Love. Quando saía ia para casa e começava a imitá-los, começava a cantar e a dançar zouk. Mas a música começou bem antes. A mãe cantava e a irmã também. Eram dirigentes de grupos da Igreja Baptista, evangélica, e eu ouvia sempre a minha mãe a cantar e às vezes ia com ela aos ensaios. Depois, por imitação, criaram-se grupos e os grupos transformavam-se em bandas, com instrumentos musicias e tudo. Instrumentos fabricados por nós, lembro-me que o meu primeiro era uma flauta, foi o meu pai que me ensinou e eu tocava enquanto os outros tocavam batuques. Tinha 10 anos. A flauta era feita com um cano da electricidade. O som saía perfeito. Mais tarde, integrou um grupo que também tocava na Igreja e começou a aprender a coisa ficou mais séria. Em casa, lembra-se que o pai ouvia umas coisas old school. Na altura a música angolana não estava tão desenvolvida mas há um país vizinho que já tinha música muito sofisticada e com muita qualidade que é o Congo Democrático. Se não fosse do Congo, era cabo-verdiana e do Brasil. Eu acho que fazia-nos muito bem, ao mesmo tempo que tínhamos a guerra de um lado do outro estávamos sempre a dançar. Eles podiam atacar a cidade nesse mesmo dia e a música distraía tanto as crianças como os adultos. Trazia esperança. Há músicas que hoje em dia nem consigo ouvir porque me fazem chorar.

Com 12 anos, Belarmino foi viver para a província do Huambo, do outro lado do país. Foi lá que cresceu, fez a formação obrigatória e começou a trabalhar com 15 ou 16 anos em lojas de roupa, e não por acaso. Passei uma fase em que vestir bem era o primeiro sonho. Os angolanos são vaidosos, acho que tirando os pretos americanos os angolanos são os que mais pensam em vestir e às vezes até exageram um bocado. Só não temos a indústria da moda senão seria um escândalo. Foi nessa altura que pisou pela primeira vez um estúdio de música e começou a tentar compor e produzir no computador. Já o movimento do hip hop a fazer parte de mim. Houve uma fase em que foi criado pelo irmão mais velho que tem como pai. Achava que me ia perder, que estava metido com drogas, na altura olhava-se para um rapper e achava-se logo que era um drogado. Mas mudou de ideias quando ouviu o músico dar uma entrevista a rádio local como responsável por uma iniciativa solidária. Aos 22, Belarmino entrou na Função Pública. Trabalhou como professor do Ensino Básico. Era uma fase em que o país estava a começar a abrir e fiz parte dos primeiros professores a irem trabalhar em zonas do país de difícil acesso. Sinto-me orgulhoso por ter passado por isso, encontrar crianças que não tinham brinquedos mas um lápis já lhes fazia muito bem, tenho boas memórias disso.

A guerra acabou em 2002. Belarmino mudou-se para Coimbra 8 anos depois. Vim para estudar Direito só que as coisas vão acontecendo e hoje já me sinto mais de cá. Sinto-me em casa. Escolheu a Lei porque já tinha dois irmãos advogados, um cá e em Angola lá. Na verdade aquele país precisa de muita justiça por isso quanto mais advogados melhor. Graças a Deus tenho irmãos a trabalhar na área e professores na universidade que estão a contribuir para a mesma coisa, eu também gostava de fazer isso. A música esteve sempre presente. Se não fosse a música eu teria passado por alguma fases menos boas na universidade, de pressão, de integração. Quando saía das aulas apanhava o comboio para Aveiro ou Espinho onde tinha amigos com estúdios de gravação. Em Coimbra, abraçaram-no MC Ruze e outros artistas locais. O único que vinha de Angola era LG, com quem fez dupla. Há alturas na vida em que não conseguimos fazer nada sozinhos e preferimos ir beber experiência na companhia de outras pessoas. Foi a fase kizomba guetto zouk.

Coimbra é uma cidade de ninguém. Está aberta para todos mas quem chega tem de arranjar forma de se integrar e há quem tenha mais e menos dificuldades. Como não fiz parte da praxe, não bebia álcool nem podia estar perto de um cigarro aceso, se calhar tive mais dificuldades por causa disso mas já me sentia à vontade para estar perto dessas coisas num ambiente musical. Hoje, Belarmino já bebe um copo socialmente. Foi pai há dois anos, a vida mudou, o trabalho e a música também. O que eu quero fazer agora é algo no estilo comercial pop, dança quem quiser e como quiser. Não é kizomba, não é hip hop, é música. Doce Mel e Feiticeira já se ouvem por aí. Tem contrato com uma editora e umas aulas de edição na Escola Superior de Educação permitem-lhe fazer os próprios vídeos e os de outros artistasO que eu queria conseguir realmente era ter a minha música a tocar nas rádios principais e a partir daí tudo surge. Com jeitinho, até realiza o sonho de pisar um palco com o Anselmo Ralph.

E Angola? Olha, na verdade se eu quisesse deixar tudo para trás estava lá em Angola a viver da msica, mas já tenho uma vida aqui e não é fácil fazer as malas e dizer que me vou embora. A minha mulher é de cá e o meu filho também. É uma questão de tempo. Belarmino acha que Coimbra é das melhores cidades para se viver no mundo. Não conheço o mundo todo mas tenho quase a certeza. Tem as condições principais para estarmos bem: segurança, as pessoas e o Mondego. Não é ideal para comprar roupa, mas para isso é que serve a Internet. Se pudesse mudar alguma coisa eram as oportunidades de emprego para os jovens. Se formos a ver as pessoas dificilmente se conseguirão realizar com a maior parte dos empregos que a cidade oferece. Sobre a guerra pouco fala. Quando digo certas coisas do que eu passei noto que as pessoas não percebem ou acham que é muito além, como se fosse algo de filme. Uma vez estávamos a ver uma fotografia de uma cidade destruída na Síria, estava uma criança a caminhar por ali e eu mostrei a um amigo e disse: Olha, eu estive aqui há uns anos, eu sou essa criança. Ele disse: Estás a brincar comigo, achas? Então prefiro nem contar. Mas hoje percebo. Se nascesse cá e não tivesse passado o que passei não teria percebido se me contassem.  

© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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