Há uma loja de discos irresistível no coração da cidade

A expressão 'voz da experiência' nunca fez tanto sentido. Nesta loja, compram discos e pedem sugestões ao antigo manager de The Legendary Tigerman, Belle Chase Hotel, Wraygunn, Sean Riley & The Slowriders e actual agente de várias outras bandas de sucesso de Coimbra. Ex-presidente da Rádio Universidade de Coimbra (RUC) e autor do programa Cover de Bruxelas, Rui Ferreira garante que conheceu muito boa banda à custa das versões. O risco de entrar na Lucky Lux é o de sair com bem mais do que aquilo que se procurava, porque o prazer também está na surpresa. Como com qualquer boa rádio. 

O meu pai tinha um leitor de cartuchos e só ouvia coisas do pior, tipo Marco Paulo, e no rádio só ouviamos onda média mas a minha vida mudou quando a minha mãe me ofereceu um com FM e comecei a ouvir o 'Som da Frente', do António Sérgio. Rui tinha 17 anos quando comprou o primeiro disco ali ao lado, na extinta Nova AlmedinaSteve McQueen dos Prefab Sprout - é um ganda disco, ainda hoje gosto. Mais à frente dispara: Nunca fiz um download. A princípio pensamos que ouvimos mal mas depois faz sentido. Os que fiz foi de bandas que me mandaram discos para eu ouvir mas comprar sou incapaz. 

Rui Ferreira é coleccionador e já fez (mesmo) de tudo na música menos cantar ou tocar um instrumento. Compro discos desde sempre, tenho mais em casa do que na loja, cerca de 40 mil. Lojas, feiras, concertos, compra e não é daqueles que vai ao Google ver quanto vale. Prefiro levar 'no feeling' e compro montes de discos pelas capas ou só porque conheço a editora, o produtor ou um artista que participa, e penso: Bom, para ter aqui este gajo deve ser bom. E é isso que faz a diferença. Rui já vendia discos online, no site da Discogs. Há 3 anos, abandonou a carreira de mais de 20 anos como enfermeiro para abrir a discoteca na Rua Sargento Mor, em Coimbra. O espaço é óptimo, era uma loja gourmet já tinha muita coisa que eu precisava, como o balcão e algumas estantes. E fica num pit stop turístico, em frente à Casa Medieval. Depois do desaparecimento de lojas como a Valentim de Carvalho, a Baixa ganhou de novo espaço para a cultura musical: local, nacional, internacional, nova e usada, acessível ou cara. Muito cara. Hoje vendi um vinil raro do Elvis para Itália por 375€, conta Rui. Casos que acontecem sobretudo online porque de resto vende mais na loja e em vinil, se bem que o comerciante acredita que podem vir aí mudanças. 'Ch-ch-ch-ch-changes', como diria Bowie, que nos pisca o olho da prateleira. 

Vinil e CD

Em 3 anos, o negócio cresceu. A Lucky Lux factura e sobretudo o vinil mas o melómano tem uma teoria. Acho que o CD vai ter o revivalismo que o vinil teve, porque é um bom formato, não se deterioram com o nº de audições, são mais fáceis de transportar e armazenar e dão para ouvir no carro; depois há uma faixa etária que viu nascer o CD que na altura tinha 18 anos e agora já tem dinheiro e quer ter, que foi o que aconteceu com o vinil. O disco mais caro que vendeu até hoje foi precisamente um CD. Vi um concerto dos Nirvana a 6 de Fevereiro de 1994, meu dia de anos, e o Kurt suicidou-se em Abril do mesmo ano. A editora tinha editado um 3º single, que era o 'Pennyroyal Tea', que acabou por ser cancelado porque um dos temas se chamava 'I Hate Myself And I Want to Die' - o que não era bom -, eles cancelaram-no mas já tinha saído um camião com um carregamento do armazém na Alemanha e houve quem comprasse no dia em que chegaram, que foi o meu caso. Custou-me 900 escudos, hoje 4,5€. O disco tornou-se raro. Vendi-o por 800€ a um americano. 

Best sellers

Novos ou usados, há discos a partir de 2€ e todos estão rigorosamente embalados e em bom estado. Mesmo estando selados, a roçarem uns nos outros vão-se estragando, por isso mesmo os usados têm protecção, explica Rui Ferreira. Irritam-me discotecas que metem o preço directamente nas capas, por exemplo. Funk, independente, pop/rock, jazz, brasileira, africana, clássica, indie, portuguesa, também há cassetes e há discos que estão guardados no 1º andar por falta de espaço. Enquanto lá estivemos, pelo menos duas pessoas levaram um conjunto deles, fizeram encomendas e pediram para reservar. Até hoje o maior best seller foi AM dos Arctic Monkeys, em vinil, que vendeu às dezenas. London Calling dos The Clash também saiu muito, Velvet Underground, Pink Floyd, Nirvana, U2, Led Zepellin, Nick Cave e Doors estão sempre a dançar nas prateleiras. Os portugueses também, sobretudo Amália e Carlos Paredes, os turistas procuram, as bandas novas já é por modas. 

Lux Records, Lux Interior e A Date With Lux

Já deixei de ir muito a concertos mas um dos meus sonhos é trazer cá a Poison Ivy. Ivy é a viúva de Lux Interior, dos The Cramps, que fizeram parte dos primórdios do movimento punk nova-iorquino, precursores do estilo psychobilly. Lux morreu em Fevereiro de 2009 e foi em homenagem a ele que Rui baptizou o Festival Lux Interior. A Lux Records começou em 1995. Os primeiros discos sairam no ano seguinte, como o RUC 10 Anos Sempre no Ar. Pouco depois rebentou Fossanova (1998), dos Belle Chase Hotel. Já lá vão meia centena de lançamentos, os mais recentes foram dos The Parkinsons e The Twist Connection em 2019, e Coimbra pôde ver vários dos artistas editados pela Lux ao vivo no festival que este ano vai para a quarta edição. Também há o ciclo A Date With Lux que Rui diz que não são só concertos e revela que vai dar um livro este ano, com ilustrações de Toni Fortuna. O próximo Date é com Mão Morta a 20 de Março no Teatro Académico de Gil Vicente e há ainda o Epicentro! que a Lux Records organiza em parceria com outra editora local, a Blue House. Podem acompanhar as novidades aqui e aqui. A loja está aberta de 2ª a 6ª das 10h às 19h (com pausa para almoço) e Sábado até às 18h. 

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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