A arte, ecologia e intervenção social moram ao virar desta Esquina

A ideia de criar uma associação foi marinando ao longo de anos. No auge da crise, um grupo de pessoas queria trabalhar a cultura como espaço de experimentação e interação com outras disciplinas artísticas e com a intervenção social. Em 2007, criaram um espaço em que todas as ideias eram bem-vindas. No início, dedicavam-se ao teatro, performance e artesanato urbano. Foi na altura em que começaram a aparecer os cowork e havia muita gente sem tecto, conta Filipa Alves, uma das fundadoras.

Agarraram a oportunidade de ocupar uma antiga mansão cor salmão em pleno centro da cidade, próxima do Penedo da Saudade e do Estabelecimento Prisional de Coimbra. A Casa da Esquina fica precisamente numa esquina, da Rua Aires de Campos com a Rua Fernando Melo. A pessoa que a tinha disponível acreditou no projecto e teve a capacidade de ver para além do lucro imediato, explica Sandra Alves, também fundadora, partilha com Filipa a função de facilitadora desta estrutura de programação e criação artística financiada pela Direcção-geral das Artes e Câmara Municipal de Coimbra.

Achámos que era muito grande só para nós por isso fomos convidando pessoas para vir para lá e com esses convites começámos a encaixar valências novas como as artes plásticas e a fotografia. O compromisso é o de ir recuperando a casa ao mesmo tempo que lhe dão vida. Recentemente substituiram o pavimento do rés-do-chão onde fica a copa, casa-de-banho e 3 salas. No 1º andar as divisões estão ocupadas por entidades colectivas e particulares. Havia muita gente - e ainda há, porque nos vêm bater à porta - com ideias e projectos mas sem sítio que os acolha, seja para apresentar seja simplesmente para trabalhar, explica Sandra.

Se antes tinham sobretudo projectos artísticos, hojea Casa da Esquina tem cada vez mais propostas de cariz social, ambiental e ligadas ao femininismo. Interessa-nos pensar a cidade, o que ela pode e deve ser para ser mais agradável para as pessoas viverem, remata Sandra.  

Todos os dias

De 3ª a 6ª, das 10h às 12h30 e das 14h às 18h, as portas estão abertas e há sempre uma exposição para ver ou produtos locais para descobrir. Há livros, ilustrações, produtos ecológicos, comes e bebes de pequenos produtores e/ou distribuidores como a CASA DO SAL DA FIGUEIRA DA FOZ e PORTUGAL COM PAIXÃO. Sandra pode estar numa sala a preparar uma exposição e Filipa a responder a emails, fazer acolhimento de alguém que passa com uma proposta ou a acabar de preparar uma das salas para mais uma oficina. Jornalistas, activistas e coachers entram e saem das salas de trabalho ou fazem uma pausa para um café.

Todas as semanas

GINÁSTICA às sextas, IOGA às segundas e quartas, grupo de consumo HORTA NA CIDADE com distribuição aos sábados e O BANCO DE TEMPO, projecto do Graal. É um sistema de trocas solidárias em que a moeda de troca é o tempo. Quem participa compromete-se a dar e receber tempo. Basta enviar um email a dizer do que se precisa, a sede faz o apelo aos associados e alguém se oferece para fazer esse serviço que fica registado e quem deu ganha o direito a 1h do serviço que precisar, quando precisar.  

Todo o ano

- FEIRA DO LIVRO DADO: acontece duas vezes por ano e nasceu da ideia de Feira da Liberdade, onde se dá e leva o que se quer;

- FEIRA GRÁFICA: exposição e venda anual de obras gráficas de autores nacionais e internacionais;

- SUPERMARKET: venda anual, por altura do Natal, de produtos de nanoprodutores da cidade e região;

- PARADOCMA: em parceria com o ECOSOC /CES é um ciclo de cinema relacionado com a temática do ambiente e conta também com a colaboração do CineEco de Seia

 - MARQUISE: espaço de divulgação da ilustração e desenho contemporâneo que acolhe exposições e residências artísticas;

-  ENCONTROS DE TEATRO: evento realizado pela Escola Superior de Educação;

- MERCADO DE TROCAS DE CRIANÇAS E JOVENS: evento onde crianças e jovens podem trocar objectos que escolhem dar ou 'comprar' usando uma moeda solidária. 

Formação 

A Casa da Esquina alberga ocasionalmente cursos de COSTURA, TEATRO, COACHING e MINDFULNESS, por exemplo. Também já teve cursos de teatro, cinema, fotografia e leitura de portfolios, agricultura biológica e produção de produtos ecológicos. Toda a programação é divulgada aqui, na página oficial da associação no Facebook. 

Inquilinos

Academy4You, Graal, The Porfolio Project, Camaleão e a Coolectiva 'moram' no 1º andar da Casa da Esquina, entre outros profissionais em nome individual de diversas áreas. A dinamizar a Casa da Esquina enquanto associação cultural estão cerca de 20 pessoas, Filipa e Sandra são as facilitadoras da organização que também produz e cria os próprios eventos, obras e espectáculos.

Espaço público 

Dentro da reflexão sobre a cidade nas diversas vertentes, do urbanismo à forma como comemos, como nos vestimos e como consumimos cultura, a Casa da Esquina continua a trabalhar no espaço público, mesmo já depois de ter o espaço próprio funcional. Os Exercícios de Botânica no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra foram a primeira acção subsidiada. Actividades como a Troca de Roupa já foram feitas em sítios originais como os claustros do Museu Nacional de Machado de Castro ou o bairro da Relvinha. 

Infância

A inclusão da Casa da Esquina estende-se ao público infantil. Gostamos de entusiasmar as crianças para serem também elas promotoras de cultura, deixarem de estar ali como meros espectadoras e apropriarem-se do espaço para fazerem eles coisas, diz Sandra Alves. Já fizeram uma exposição feita por crianças, desde a criação das obras à produção e curadoria, e têm o projecto Casa Animada, com oficinas de 'stop motion'. Ao longo do ano albergam sessões de cinema, espectáculos de teatro e outras actividades para o público mais baixinho. 

Teatro

Em 2018 a Casa da Esquina estreou a peça Eu Uso Termotebe e O Meu Pai Também no Teatro D. Maria II. Em 2019 foi e vez de Crise de 69 - O Ano em que Sonhámos Perigosamente no Convento São Francisco, em Coimbra. Ambos espectáculos com texto e encenação de Ricardo Correia.

Futuro

O que é que falta fazer? Tudo, tenho a sensação de que estamos sempre no início, atira Sandra. Certo é que cada vez mais pessoas procuram a Casa, inclusive estrangeiros - estudantes, residentes e visitantes. Na calha está, por exemplo, um projecto mais ambicioso brevemente no Parque Verde. Porque a ideia é mesmo essa, a de criar redes, fomentar a partilha de públicos, trabalhar em comunidade. 

 

Artigo patrocinado

* Actualizado às 15:45 de 11 de Janeiro, 2020

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