Cândido Costa Lopes: “O ser humano precisa de ser abanado para ser mais solidário.”

Cândido Costa Lopes (67 anos, aposentado) não precisa da quadra natalícia para ser solidário e para ajudar os outros. Há cerca de 15/20 anos que faz giros pelas ruas da cidade e dá apoio a quem precisa. Nesta conversa ficámos a saber um pouco mais sobre o trabalho de voluntariado que tem desenvolvido junto da população sem-abrigo em Coimbra.

Quando descobriu esta vocação, esta necessidade de dar aos outros?

Sou um bocado apelidado de ter umas ideias fixas, gosto de discutir muito mas dizem-me sempre que penso muito com o coração e até tenho tido problemas com isso. Desde muito cedo fui muito sensível às injustiças: ver uma pessoa a pedir, uma criança a pé na rua a chorar fazia-me impressão. Não posso dar esmola a toda a gente mas, às vezes, quando não dou, chegava à frente e fazia sempre uma reflexão: não sei se ele está a enganar as pessoas, o meu papel era ajudá-lo. Nesses momentos só penso “Porquê? Uma pessoa a pedir na rua..” e ainda hoje penso muito nisso.

O que decidiu fazer?

Inscrevi-me como voluntário no programa de acção social da Câmara Municipal de Coimbra, há cerca de 15/20 anos e sou o único que continua a fazê-lo. Foi uma oportunidade para estar mais activo a praticar o sentimento que tinha. Embora não se encontre tanta gente como naquela data, há sempre alguém na rua, nunca deixei de encontrar alguém na rua. Entretanto, como abriram a associação CASA [centro de apoio ao sem-abrigo], mesmo em frente ao restaurante O Pátio, passou a fazer-se aí, para quem quiser lá ir.

Mas faço duas voltas por semana, às sextas e aos domingos. Agarro no carro, eles já sabem. Tentei ir com outras pessoas, alguns nem querem ir a locais de apoio. Digo-lhes para terem um comportamento mais calmo mas alguns não querem ir. Não se querem expor. Às quartas ainda vou à CASA para levar aquilo que a pastelaria me dá, principalmente o pão. De vez quando também levo agasalhos, café, leite, faço sandes. Alguns deles já não precisam daquilo mas viciaram-se naquele momento.

 

Ao fim destes anos todos, porque continua?

Às vezes perguntam-me “não tens medo?” mas eu já me sinto tão à vontade e ao fim destes anos todos já me habituei a ir visitar aqueles amigos. É uma ideia de lhes dar, de passar um bocadinho para que não seja tão difícil. Ganhei uma certa amizade, vejo muitos deles durante o dia a arrumar carros. Há muita gente que fica incomodada por estar a ser cumprimentada por um indivíduo destes... eu quero lá saber disso, toda a gente é pessoa, todo o ser humano é pessoa. Em matéria de humanidade, merecíamos todos o mesmo. O ser humano precisa de ser abanado para ser mais solidário.

As pessoas costumam dizer “tenho de ir visitar uns amigos” e não é bem uma obrigação - e é isso que sinto quando vou ter com eles, hoje em dia já os conheço.

Consegue realmente ajudar?

Eles deviam ter mais apoio psicológico porque metem-se na droga, aquilo não é fácil. Não sou especialista mas vejo muito bem o que se passa: têm um escapezinho 3 ou 4 vezes por dia e talvez se tivessem outro apoio psicológico, que os entretivesse um bocadinho mais, talvez conseguissem portar-se de outra maneira. Esta coisa de os mandarem ir aos gabinetes não funciona muito bem, só se eles tiverem alguma carência ou se estiverem predispostos a isso, porque lhes falta vontade. Enquanto eu puder, vou continuar.

 

Texto: Joana Pires Araújo
Fotos: CASA Coimbra – Centro de Apoio ao Sem Abrigo

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