Estão cá mas na mesa de Natal metem plätzchen, panetone, fidjose e brigadeiros

Há quem tenha passado o mês inteiro a fazer biscoitos e cumprir tradições do Advento e há quem já bata o pé ao som de uma batida familiar à espera da última grande festa do ano. 

Falámos com uma alemã, uma cabo-verdiana e brasileiros para perceber como passam o Natal e as Festas em Coimbra, a cidade onde vivem ou, no caso de um certo grupo especial, vêm apoiar as famílias. 

Ulrike Zechs, Alemanha 

Ulrike Zechs é alemã e vive em Coimbra há mais de uma década. A casa está decorada a preceito desde o início de Dezembro, só a árvore ficou para mais próximo do Natal. Primeiro cumpre-se o Advento. Dia 6 de Dezembro de manhã os filhos têm à espera em meias penduradas nas botas limpas os doces "que S. Nicolau deixou quando passou durante a noite". Também fazemos os biscoitos (Plätzchen) e o calendário em que a cada dia abria-se uma janela onde se viam pequenas imagens, mais tarde passou a ser feito de chocolates, explica Ulrike. Com o meu filho mais velho Matteo fiz eu própria o calendário com pequenas surpresas para cada dia. Há ramos de plantas naturais espalhadas pela casa e uma coroa com 4 velas em cima da mesa da sala. A cada semana acende-se uma e na consoada todas iluminam o repasto. Comemos salada russa de batata com salsichas e depois no Natal comemos pato ou ganso assado no forno, recheado com maçã, pão e um pouco de açucar e acompanhado ou com batata cozida ou umas bolas de farinha de batata e couve roxa muito cozida que leva banha de porco, cebola, macã e cravinho. Além dos plätzchen, na Alemanha têm outro bolo tradicional parecido com o bolo rei que se chama Christstollen, com uvas passas embebidas em rum e frutos cristalizados. Como a família é alargada, não trocam presentes entre todos. Se começamos a dar prendas a todos nunca mais acaba, damos só às crianças, e eu até gosto mais de dar prendas quando em qualquer outra ocasião vejo uma coisa e sei que a pessoa vai gostar muito.

Leonardo Silva, Brasil 

Está em Coimbra há apenas dois meses com a família por isso o Natal vai saber sobretudo a saudade. No Brasil, existe uma tradição muito forte de reunir a família no Natal e este vai ser o primeiro distante por isso optámos por ficar em Coimbra mesmo, conta Leonardo Silva. Como não trouxeram as decorações e 'pisca-piscas', compraram apenas um pinheiro e os presentes, só por causa do filho habituado a fazer a associação com as festividades. Leonardo admite que estão a descobrir mais semelhanças do que diferenças em termos culturais, até o bacalhau, mas há uma diferença que é notória. Lá o único doce típico é o Panetone e coisas com uva passa e frutos secos. Também se usa muito o peru na ceia de Natal. Se estivesse em Garanhões, por esta altura estavam a preparar um prato doce ou um prato salgado para juntar aos dos outros membros da alargada família. Em Coimbra, com a mulher e o filho, o jantar de Consoada vai ser tagliatelle com gorgonzola. Um jantar bem simples em casa, com uma comida que é especial para nós, e tentar aproveitar antes o reveillion. A família vai entrar em 2020 em Salamanca, Espanha. 

Clara Spencer, Cabo Verde

Clara Spencer é cabo-verdiana e vive em Coimbra. Diz que o Natal é semelhante ao português. Nos centros urbanos das ilhas generalizou-se o prato de bacalhau, geralmente cozido com legumes e o peru assada no forno. Nas zonas mais rurais há a chamada 'cabritada' e dependendo da ilha o xerén, a chanfana, o djagacida e o tchacina. Os doces são de coco e de leite acompanhados com grogue e ponche e há ainda os fidjose, pastéis de milho, bolo rei e, mais recentemente, as rabanadas, os sonhos e as broas. Os tempos mudaram mas apesar das mudanças trazidas pela globalização a essência do meu povo continua - a sua alegria, a sua entreajuda, a nossa contagiante 'morabeza', ou seja o nosso saber receber de forma quase única, conta Clara admite que, apesar disso, não pode deixar de apontar que nos dias de hoje o Natal está muito mais comercial e virado para o consumismo. Mas acabamos por ser levados por esta energia que nos transporta para outra 'galáxia', principalmente na passagem de ano. A tradição é todos pegarem em instrumentos e cantarem e dançarem noite fora e rua fora. Em Portugal, Clara não pode viver as festividades em clima quente, tomar um banho no mar nos primeiros minutos da passagem de ano, mas partilha connosco alguns clássicos que ouve por esta altura. Luís Morais, Paulino Vieira, Manuel de Novas, Mayra Andrade, Lura, Dany Silva. O Natal chegou mais cedo para os cabo-verdianos este ano, há poucos dias a música maior do arquipélago foi oficialmente reconhecida como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

Andrea , Brasil 

Tudo começou quando o filho veio estudar para Coimbra, em 2015. Na altura ainda eramos poucos aqui, diz Andrea Garbelotti de São Paulo, Brasil. Os anos foram passando e a ela juntaram-se mais mães de estudantes brasileiros, empenhadas em apoiar a integração dos filhos e outros conterrâneos em Coimbra e, actualmente, também no Porto, em Aveiro, no Algarve e em Lisboa. A Associação Casa do Brasil Coimbra organiza este ano pela terceira vez uma Consoada alargada. Na primeira eramos 7, na segunda 30 e agora vamos ser cerca de 70, continua Andrea. As mães (e uma avó bracarense radicada no Brasil há 60 anos) são 15, prepararam a decoração e os comes e bebes, parte trazidos do Brasil como o Toddynho e o Panetone. Informaram-se com as outras mães de qual era a comida afectiva dos filhos. Vai haver bacalhau, peru, farofa, pão de queijo, bacalhau e brigadeiros. Os mais novos contribuem para as compras e levam os jogos de tabuleiro, as cartas e a música. Claro, imagina festa de brasileiro sem música? Tem sax, violão e o que vier, até um globo para colocar no tecto! À entrada da residência universitária onde vai ser a festa está uma pequena árvore de Natal e um monte de cartas. Foram as mães no Brasil que nos pediram para trazer, depois distribuimos e fazemos vídeos com o momento em que eles abrem, é bem emocionante. 

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