Já pensaram em quem vai trabalhar na consoada?

Para muitas pessoas, pensar na consoada de Natal implica decidir quem faz as rabanadas, se alguém se mascara de Pai Natal, se este ano calha na família de um lado ou do outro ou que grupo de amigos se junta para assinalar a data. Depois da lufa-lufa dos presentes e dos preparativos, ao entardecer do dia 24 de Dezembro a cidade começa a abrandar e a preparar-se para umas horas de banquete e festa.

Mas esta data significa muitas coisas diferentes: há quem tenha perdido entes queridos e esta quadra é particularmente dolorosa, há quem se encontre longe do país de origem, há quem não tenha sequer um tecto para se abrigar e ainda quem trabalhe neste serão. Reunimos 3 testemunhos de mulheres que vão estar ao serviço na noite da consoada.

Filipa Almeida (25 anos), enfermeira

Como foi decidido que iria trabalhar na noite da consoada?
Os nossos chefes organizam os turnos em função das nossas preferências por época (passagem de ano ou Natal) e em função do tempo de permanência [do número de anos de trabalho]. Este ano tive que me sujeitar porque sou das mais novas. Faço a manhã de 24 e volto a entrar às 21h30 [desse dia] para fazer a noite.

O que sente quando sai a escala e percebe que vai estar longe da família?
Tenho uma filha pequena, preferia mil vezes estar em casa e sinto que aquilo que recebemos por todo o trabalho que fazemos acaba por ser injusto. A nossa carreira não evolui, estamos presos numa escala salarial que não corresponde às exigências profissionais. Temos direito a pouco, a remuneração faz falta mas ainda mais o apoio humano, emocional das chefias. No serviço de neonatologia, os bebés não escolhem quando nascem, quando estão bem ou não. A vida de um recém nascido significa tudo e muitas das decisões partem também da equipa de enfermagem, um pequeno erro pode ser fatal. Se eu não for trabalhar num turno e se ninguém me for substituir, pode estar em causa a vida de um bebé. O nosso SNS [Serviço Nacional de Saúde] não está preparado para as necessidades da nossa população.

Como encontra motivação?
No próprio trabalho. É fazermos uma reanimação e aquele bebé sobreviver. 

Natália Silva (42 anos), auxiliar de saúde

Qual a sua reacção quando sabe que tem de trabalhar na consoada?
Fico a sentir-me bem porque sei que estou a trabalhar em prol de alguém que precisa. Sinto nostalgia mas nunca senti tristeza. Sempre com todo o gosto.

É gratificante trabalhar nesta data?
A nível pessoal, sim. A motivação maior é saber que se calhar consigo dar uma palavra que atenue o sofrimento nesse dia. 

Os utentes têm sempre uma palavra de gratidão carinho e apoio. A nível interno não há reconhecimento nem valor nenhum. As pessoas não o demonstram.

Consegue compensar a ausência em casa?
São coisas que nunca se compensam e o Natal de há dois anos para cá é diferente porque há um bebé pequenino em casa. No dia 25 saio às 15h e fazemos o Natal em casa à tarde. Mas é aquilo que digo: nunca venho com o sentimento de obrigação, em prol de trabalhar para alguém que precisa mais do que eu

Liliana Santos (27 anos), assistente operacional

Sente-se motivada a trabalhar neste serão?
Este ano é complicado, fui eu que pedi para trabalhar o Natal porque a minha mãe faleceu há relativamente pouco tempo e, apesar de ter uma filha pequenina (2 anos), optei por trabalhar. Ou trabalhamos no Natal ou na passagem de ano. Este Natal para mim não faz sentido.

Como encara o trabalho nesse dia?
Eu trabalho na parte da lavandaria e tenho contacto com vários doentes. Fazemos a parte do lar e dos trabalhos continuados. No lar é muito complicado: são poucos os utentes que recebem visitas regulares e custa-me muito ver que as pessoas vão para ali, depositam-nas, pagam a mensalidade e nem sequer aparecem lá. Se há recompensa deles? Isso já vai das pessoas, há pessoas muito atenciosas que nos tratam maravilhosamente bem e outras que são mais ásperas porque a vida assim os fez.

Celebra o Natal no local de trabalho?
Fazemos um almoço em convívio todos juntos mas algo rápido e a correr.

Como compensa em casa a ausência na noite de Natal?
A gestão em casa é muito simples. A minha mãe sempre trabalhou, já estamos todos habituados, ninguém estranha.

Texto: Joana Pires Araújo
Fotos: Banco de imagens 

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