Toni Fortuna: “Eu durante anos achei que dificilmente passaria dos 30”

Quando era mais jovem era gato e como os gatos teve uma série de vidas. Sempre gostei de andar em telhados. Nasceu António Gomes e cresceu na Sé Velha, Alta de Coimbra, mais precisamente na Rua João Jacinto, onde é agora a Casa da Escrita - uma zona muito dissimulada. Por fora tens 4 ou 5 paredes e não vês o que está lá dentro, só quando estás num sítio mais alto. E podem ser quintas com árvores de fruto, animais e palmeiras. Nem cúpulas como a da Sé Nova escapavam, qual Quasimodo com pinta de Batman. Era escuteiro e consegui lá ir numa determinada altura, aí em cima consegues ver uma zona imensa que não vês só da varanda. Os pais gostavam de música mas não tinham propriamente uma grande cultura musical. A minha mãe era costureira, lembro-me de acordar e ouvir o barulho da máquina, aquela a pedais que faziam tac tac tac tac tac. Foi a mãe que fez os primeiros blusões de Tédio Boys. Aqueles baseball jackets que na altura não havia cá e a malta via nas fotografias.

Toni, como é conhecido, é filho único e sempre gostou de cantar. Mas não só. As influências musicais vieram de pessoas com quem se foi cruzando e que lhe iam deixando bocadinhos. Havia uma rapariga, Isabel, que era pianista, gostava 'muuuuito' de Chopin e tinha uma colecção de discos infinita. Stranglers, Leonard Cohen, era horrível ouvir aquilo e dizer: põe outra vez, põe outra vez, põe outra vez. Havia sempre mistura de musicalidades e foi assim que diz que aprendeu a gostar de tudo o que é bom. Quando era adolescente cantava fado de Coimbra à capela. Sem aquela parte mais lírica, não cantava com aquela coisa que me chateia, que são todos iguais e cantam todos pelo nariz, mas o fado de Coimbra é uma canção muito bonita. Chegou a cantar no restaurante Trovador, onde muitas vezes parava para ouvir quem dava espectáculo. Tinha 16 anos e já não andava nos escuteiros. A parte católica afastou-me da espiritualidade e o afastar da espiritualidade levou-me para outros sítios.

Conheceu Sérgio Cardoso e Alex Magno na Escola Secundária Avelar Brotero e disse-lhes que gostava de cantar com eles mas eles responderam que primeiro tinha de fazer um teste. Tive de fazer parte de uma outra banda para eles me irem ver a cantar e decidirem, obrigaram-me a fazer aquilo só para eu fazer figura de urso. Uns tempos depois nasciam os míticos É Mas Foice, também com João Gonçalves (Nito), Miguel Falcão, João Paulo Camilo e Jepê. 'E não há melhor lugar para se divertir/ que o Moçambique para beber até cair'. Começámos a fazer uma série de concertos, eu era um backing vocals/performer/mix/faz-tudo menos tocar e nessa altura começou a aparecer o pessoal todo, já nos encontravamos nos concertos, não havia assim tantos sítios para tocar quanto isso. Tinham influências de tudo, de José Cid a Deep Purple. Eu ouvia uma série de coisas, ouvia Cramps mas também ouvia soul e blues. Galinheiro, Martelo, Foice, Coca Cola Billy. Na altura não fazia ideia, queriamos fazer coisas e fomos fazendo à medida que conseguimos fazer. Eu durante anos achei que dificilmente passaria dos 30.

Em 1989, Toni salta para os Tédio Boys com Paulo Furtado, Victor Torpedo, André Ribeiro e Kaló. Não havia coisas para fazer nós inventávamos, lembro-me de haver festas em que levávamos só um gravador com uma série de pilhas, umas cassetes e umas garrafas e iamos só estar a curtir. Rapidamente começaram as viagens para fora do país, primeiro Londres. Fiquei super espantado porque as pessoas falavam sozinhas na rua e eu não percebia porquê - foi o início dos auriculares. Concertos em todo o lado, o início da cena electrónica. Fui a duas raves lá que não eram festas de música electrónica numa tenda, eram sítios abandonados onde os gajos juntavam as pessoas todas, pagavas um fee, cada divisão tinha um estilo de música ou um DJ e tu deambulavas - não vejo melhor acepção para uma festa. Depois vieram os Estados Unidos e Coimbra ia-se tornando pequena para tanto sucesso, mas apesar de ter tentado sair várias vezes nessa altura nunca se mudou para lado nenhum. Se tivesse feito mais força tinha saído, acho que nunca foi com a força suficiente, e também sempre tive esta coisa do vou ali já venho. O ideal seria estar 3 meses aqui, 3 meses ali e 3 meses ali, acho que isso é espectacular.

Passamos uma vida inteira a cometer erros e a corrigir e a fazer melhor e a querer fazer mais, portanto é isso que nos move. Mas temos de errar e fazer coisas que não ficaram tão bem quanto gostaríamos, faz parte do processo. Um processo que passou pelo estudo. A minha formação de base é artes plásticas mas era design gráfico - houve aí umas questões com a escola onde estudei. Ia para as aulas de directa mas não conseguia fazer só uma coisa. Hoje em dia faz vídeos, animações e até padrões de camisas como as Z'tomic. Gosto muito de desafios e gosto de ajudar. Há 6 anos, mudou-se mesmo. Fez-me ir para Lisboa o Gospel e é muito engraçada esta minha mudança porque vai para além de mim. A cantora Selma Uamusse, moçambicana, ex-WrayGunn, convidou-o para fazer uma participação num tributo a Nina Simone no Teatro Académico de Gil Vicente. Fui cantar o Wild is The Wind, ela a da Nina, eu a do David Bowie. Uma colega de Selma no Gospel Collective sugeriu que o músico também fizesse uma perninha com o grupo na capital. Fui e fiquei: Eiii...eu quero mais disto. E teve.

Durante um ano e meio fez os 200 km todas as segundas-feiras para ir ensaiar com o coro e perceber o que estava a cantar, para quem estava a cantar e o que é que estava a cantar. Toco há anos largos e acabava o concerto e tinha um vazio do tamanho do mundo. De repente, num concerto de hora e meia em que tu cantas, saltas, bates palmas, dás tudo e mais um par de botas - e o gospel é um louvor a deus, que se entenda -, onde nem sou solista, acabo e estou de coração cheio? Ei, desculpa lá, eu preciso de saber o que é que é isto porque eu ainda não tive disto antes. A fé e o amor vieram no pacote. Vejo a Selma como um presente para mim. Se há uns anos pensasse que me iria casar - ponto 1 -, e que me iria casar com a Selma, era tipo...hã? A coisa mais improvável de acontecer seria estarmos juntos mas estamos unidos com um propósito. 

Quando visita Coimbra Toni tem paragens obrigatórias. Casas, pessoas, espaços culturais. Não tenho um sítio preferido mas agora tendo a olhar para ver as mudanças da cidade, que há sempre muitas, não é? Melhores ou piores. É aquela velha máxima: se não é para falar bem não vale a pena falar porque falar mal já toda a gente faz. Há muita gente a querer fazer coisas em Coimbra agora o que eu acho muitíssimo bem, já me cansei daquela coisa do não se faz nada, não faz sentido, e é também aquela questão de ser muito fácil falar do que os outros fazem. Desta vez veio para dar um concerto no Salão Brazil com os d3o, a banda que formou com Tó Rui e Miguel Benedito (ex-Garbage Katz) em 2002. É um bocado senso comum mas acaba por ser mais fácil estar num sítio onde não conheces ninguém, não há nada a perder, ali estava tudo. Até os pais. E Selma. Acho que é um privilégio nós podermos recomeçar vidas, poder recomeçar coisas, poder fazer outra vez ou fazer de novo, ou fazer de novo porque ainda não tinhas feito assim, mas voltar a fazer. É preciso um bocadinho de coragem, um bocadinho de vontade, mas é preciso ter também esta oportunidade de o poder fazer que nem todas as pessoas têm. Então acho que é alta benção poder ter essa coisa toda. Inclusive dar aulas na Escola Artística António Arroio, tocar com os Mancines e fazer teatro. Já não joga volei como federado na Associação Académica mas tenta fazer exercício só para não estar quieto. Diz que não mudou assim tanto mas é o amontoar de erros e opções. E as insónias? Não tenho, agora só não tenho tempo de dormir, mas durmo muito bem quando posso. God Knows.

© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

Artigo actualizado às 02:10 de 25 de Dezembro de 2019

Deixa-nos a tua opinião!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.