Luís Figueiredo: “Lembro-me de ser Natal e a Baixa se transformar, a cidade estava toda ali.”

A primeira coisa que se lembra de escrever foi quando tinha 16 anos. O Manuel Alegre ia à minha escola e alguém sugeriu que se fizesse uma música com um poema dele e eu escrevi e tocámos para ele e tal. Já ouvia jazz. E também sabe exactamente qual é que foi a primeira coisa que ouviu. Foi uma mix tape do Bill Evans que o meu irmão me trouxe da escola de jazz do Porto e lembro-me perfeitamente de não perceber nada do que é que se estava a passar ali, mas aquilo atraiu-me. O outro irmão, do meio, mostrava-lhe outras coisas. Mas lá em casa só se ouvia música erudita, não se ouvia mais nada. Luís Figueiredo nasceu em São Martinho do Bispo mas viveu e cresceu sempre pela zona da Baixa de Coimbra. O avô era comerciante na Praça do Comércio. Morreu quando tinha 4 anos e o pai, engenheiro de formação mas escritor de paixão, ocupou-se do negócio depois disso. Tenho uma memória muito feliz daquela zona, lembro-me de ser Natal e de aquilo se transformar numa enchente porque a cidade estava toda ali. Não havia shoppings, só havia o Golden, o Avenida e aqueles três lá em cima, entretanto todos começaram a entrar em declínio, a Baixa inclusive, e a morfologia da cidade mudou bastante mas lembro-me daquela sensação de andar às compras de Natal com a minha mãe, aquela coisa das castanhas na rua, em todo o lado, e gente, gente, gente. É uma memória muito viva que tenho. 

A música sempre esteve na família. O avô tocava banjo, o pai bateria quando era estudante, o irmão mais velho é professor de música e um primo toca nos Quinta do Bill. Digamos que há um contexto artístico bastante óbvio. A mãe é virada para as línguas. Até muito tarde achei que ia ser tradutor, gostava muito de trabalhar com literatura, com línguas diferentes, adoro viajar e agora viajo a toda a hora, que é uma maravilha. Luís tem uma filha com 8 anos que acaba de entrar no Conservatório de Música de Coimbra, tal como os pais fizeram com ele, depois de uns anos de aulas privadas. Acharam que era fixe eu aprender piano, até porque já tinha um lá em casa. O percurso diário começou a passar pela Alta. Todos os dias ia da Escola D. Duarte, ao pé da Quinta das Lágrimas, atravessava o rio, subia o Quebra Costas até ao Conservatório, que na altura era lá, depois descia para a Baixa e apanhava o autocarro para casa. Relacionava-me muito com a cidade. Os primeiros anos no Conservatório foram promissores mas os últimos já saíram a ferros e entretanto entrou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Tenho muita admiração por muita coisa ali mas sou uma pessoa profundamente informal e aquilo era cheio de protocolo e formalidade, eu ia falar com um professor directamente e toda a gente ficava muito espantada. No Conservatório, a mesma coisa. Tenho um temperamento muito dócil, não estava nem aí para lidar com a cena da pressão, gradualmente foi-se acentuando a sensação de que tinha de deixar à porta as coisas que me interessavam e fazer aquilo que era suposto fazer.

Não fez. No início dos anos 2000 mudou-se para Aveiro e na universidade teve um daqueles professores russos dos filmes. Vitali Dotsenko. Era muito mau, dizia-me coisas que eu nem acreditava, mas depois deu-se ao trabalho de me entender e fez coisas que me tocaram imenso. Costuma dizer que começou a tocar piano com ele. No último ano, já dava aulas no Conservatório de Coimbra e frequentava a escola de jazz do Hot Clube de Portugal, em Lisboa. Estava uns dois dias por semana em cada lado e praticamente a desfalecer. Esteve a um passo de se mudar para a capital mas abriram-se outras portas e um doutoramento manteve-o por perto. Pá: tenho de estudar piano, continuo a ter aulas com o Mário [Laginha] e tenho que ler - qual é a decisão a tomar? Não há nenhuma, bora lá, ainda por cima consegui uma bolsa, portanto, fixe. E nunca mais parou. Hoje tem aquela vida de privilégio, em que se tem acesso a coisas que normalmente não se teria, mas que também lhe sai do pêlo. Bastante tempo fora de casa, muito cansaço, muitos comboios, aviões, carrinhas. Tenho um 'day job' maravilhoso que é tocar no grupo da Cristina Branco - sou músico dela, sou produtor dela, viajo para toda a parte com ela, escrevo música para ela, faço arranjos para ela, é um 'day job' que eu recomendo a qualquer pessoa mas para já estou eu, ok?

Luís Figueiredo tem um mar de projectos e colaborações na área do jazz e música improvisada, como pianista e compositor mas também produtor e arranjador. O primeiro álbum saiu em 2010, Manhã, com edição da JACC Records mas colaborou noutras dezenas com nomes que vão desde Carlos Bica, Carlos Barretto, Reinier Baas, Jeffery Davis, David Binney e João Hasselberg a Marta Hugon, Rita Maria, Diogo Duque, Márcia, Diabo na Cruz, Ana Bacalhau e Gisela João, além dos ensembles e orquestras, nacionais e internacionais. Fez masterclasses e residências artísticas um pouco por todo o mundo, de Espanha à Sérvia e México, e também deu um pézinho no teatro, sobretudo com O Teatrão e o Teatro Praga. O cinema aconteceu muito de raspão para gigantesca pena minha que sou um apaixonado por cinema, estou muito ansioso, mas é das poucas coisas em que noto que o não estar em Lisboa faz diferença. Em 2017, saltaram as rolhas do champagne e veio o fogo de artifício. Foi Luís que fez os arranjos de Amar pelos Dois, a canção vencedora da Eurovisão, interpretada por Salvador Sobral. A minha filha viu-me tantas vezes na televisão que aquilo mexeu um bocado com a cabeça dela e com a imagem que tinha de mim, lembro-me de irmos aos correios e ela dizer: Papá, podias ter dito que eras 'o' Luís Figueiredo!

Há muita coisa para gerir, mas a família é o mais difícil de todas. O músico continua acreditar que Coimbra é um bom quartel-general. Não é fácil desligares-te de uma relação afectiva que tens com uma cidade por muito que ela te desiluda às vezes. E desiludiu. Se não estou sempre aqui por alguma razão é, tudo o que eu quis fazer na vida na música obrigou-me a sair de cá, a não ser o conservatório e que quase me ia matando a vontade de fazer música. Hoje em dia quando Luís está na cidade, está por casa com a filha. A não ser que o [João] Mortágua me desafie para qualquer coisa. Têm um duo, Kintsugi, e uma associação, a Acto Imediato, que reúne a malta da música improvisada. Os últimos 15 anos foram um boom monumental, tanto que está à beira de rebentar, há mais gente a tocar jazz do que a ouvir. A cidade vai acompanhando, 'ma non troppo'. Coimbra tem responsabilidades sérias que nunca assumiu, na autoestrada uma pessoa vê a placa que diz Cidade do Conhecimento e às vezes dá-me vontade de rir outras dá-me vontade de chorar. Coimbra tem uma universidade com 700 anos e vive à sombra desse tremendo capital, eu nem concebo uma cidade como esta que não tivesse uma política cultural seríssima: uma rede de locais, uma rede de financiamentos e apoios, uma coisa que fizesse isto ter uma actividade cultural e comunicação, como deve ser para tudo, para que se começassem a criar hábitos que é estranhíssimo que esta cidade não tenha. Não é só em Coimbra, mas é chocante em Coimbra.

Não é preciso ser jazz. Sou contra aquela ideia de que a música erudita e o jazz é que são de qualidade e o resto não, há pop extremamente bem feita (...) acho é que as pessoas têm muito pouca disponibilidade mental para sair e para ir ver quando não conhecem. Isso e o problema nacional de literacia, em todas as áreas e a música não é excepção. É chocante a falta de ferramentas que as pessoas grosso modo têm para discernir qualquer coisa, para tomar decisões, para decidirem se gostam de uma coisa ou não. É como o turismo, como a degradação da Baixa. Parece estar a começar a arrancar outra vez para uma situação melhor, é daqueles processos pelo qual acho que todas as cidades atravessam, vamos lá ver agora se conseguimos dar um bocadinho a volta a isso. Como com a música e a arte em geral. A malta não desiste. Ninguém deixa de fazer discos por não se venderem discos, não é?

© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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