Isabel Ruth: “Tenho uma certa coragem porque tenho amor pelas pessoas”

 

"Já fui muito tímida, durante muitos anos, depois houve uma altura em que eu explodi e comecei a ser muito faladora e perdi o medo a muita coisa. Não perdi nunca o respeito mas o medo...tenho medos, não é? E temos tantos tabus sobre tanta coisa. Mas, como sabe, a vida é tão curta e está a ficar cada vez mais curta para mim, que eu agora digo: é agora ou nunca. Até mesmo jovens não sabemos quanto tempo vamos viver mas pela ordem natural das coisas eu já vivi 79 anos, mesmo que vá até aos 100, que acho que não vou - nem toda a gente é Manuel de Oliveira - tenho uma certa coragem porque tenho amor pelas pessoas. Se não tivesse amor pelas pessoas e se não comunicasse, se não sentisse que comunicava, não fazia. Um prémio é sempre um acto de amor, para mim. Se mo dão é porque gostam de mim. É estimulante. Só me arrumo ou com uma doença muito forte ou com a morte mas enquanto me puder mexer continuo. Tenho um espírito muito forte."

 

 

"Tive uma infância por um lado infeliz e por outro feliz, porque as crianças têm imensa resistência. Tomar é o meu berço, foi lá que nasci e onde tive momentos muito fortes lá, vivi muita coisa. Há cheiros que não encontro em mais lado nenhum, por exemplo o da Cerca. Eu andava nqueles baloiços gigantescos, perigosos, que eram de ferro e madeira na altura e onde nós voávamos quase até ao céu...A minha escola primária. As minhas duas amigas, é engraçado porque uma era filho do engenheiro que construiu a barragem de Castelo do Bode e a outra era filha do presidente da Câmara de Tomar. Tinham 8 filhos e era uma família tão modesta e tão querida. Deixaram-me muitas marcas essas duas minhas amigas. De vez em quando volto. Quando vou lá vou comer tigeladas, vou ao mercado e vou ao cemitério. Depois vou à Rua Direita, vou à Corredoura, à Igreja de S. João Baptista onde fui baptizada já crescidinha. Vou à Nora, vou à capela da Nossa Senhora da Piedade - não subo as escadinhas mas dou a volta. Ali aquela margem à volta do Mouchão, com jardim, com coreto...Quando era miúda lá, dos meus 7 aos meus 12 anos vivia com os meus avós e ao fim-de-semana havia música a tocar no coreto e nós com os namoriscos, aquelas coisas. Tomar é tão pituresco para mim, tenho muito boas recordações. E também recordações difíceis e dolorosas mas é na dor que vivenciamos uma qualquer grandez, aprendemos muito."

 

Isabel Ruth falou com a Coolectiva minutos depois de receber o prémio Ethos no Festival Caminhos do Cinema Português, no Teatro Académico Gil Vicente (TAGV), acabada de chegar de um dia de filmagens em Lisboa. Surpreendeu todos na cerimónia quando pediu a Stereossauro, que momentos antes tinha musicado uma performance de homenagem à actriz, para voltar ao palco e a fazer dançar ao som da versão do DJ do tema Verdes Anos, de Carlos Paredes. No TAGV também está patente a exposição Ethos, na Sala Branca, em homenagem à artista. O festival Caminhos continua até 30 de Novembro. 

 

Texto e foto: Filipa Queiroz
Imagem do filme Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963)

Biografia

Isabel Ruth foi para Lisboa aos 12 anos, onde começou a estudar ballet. Em 1958, partiu para Londres onde frequentou a Royal Ballet School. De regresso a Portugal, ingressou no Grupo Experimental de Ballet (mais tarde Ballet Gulbenkian). Ingressou no teatro por volta de 1970, depois de se estrear em O Marinheiro, de Fernando Pessoa, dirigida por Fernando Amado. Trabalhou depois com Ribeirinho, José Wallenstein, Fernando Heitor, Diogo Dória, Jorge Listopad, entre outros.No âmbito internacional, uma curta-metragem com Pascal Aubier em França foi o ponto de partida para trabalhar com vários realizadores europeus. Instalou-se em Itália, em 1967, onde se tornou amiga de Pier Paolo Pasolini e de Bernardo Bertolucci, participando em diversas curtas metragens. Foi dirigida por Pasolini, protagonizou duas longas-metragens (uma, Il Retorno, realizada por Leonello Massobrio, outra, H2S de Roberto Faenza). Depois de uma longa viagem ao Oriente, viveu em Espanha e, em 1973, regressou a Portugal. Só em 1979 reapareceu no teatro (em Éden Cinema de Marguerite Duras, encenado por Fernando Heitor) e no cinema encarnou a rainha D. Teresa no filme O Bobo (José Álvaro Morais).Considerada uma das maiores atrizes do cinema português, é presença fetiche na cinematografia de Paulo Rocha e trabalhou regularmente com Manoel de Oliveira, tendo sido ainda dirigida por João Botelho, José Álvaro Morais, Jorge Silva Melo, Lauro António, Jorge Cramez, Eduardo e Ann Guedes, Manuel Mozos, Raúl Ruiz, Margarida Gil, Fernando Lopes, Teresa Villaverde, Pedro Costa, Raquel Freire, Cláudia Tomaz e Catarina Ruivo.Em 1995, no Festival de Cinema em Moscovo "Faces of Love", é eleita a melhor atriz pelo seu desempenho no filme Pax, de Eduardo Guedes (1994). Voltou a filmar em Itália com Tonino de Bernardi. No final de 1999, a Cinemateca Portuguesa faz-lhe uma homenagem e João Bénard da Costa dedica-lhe o livro A dupla vida de Isabel Ruth. Em 2007, recebeu o Globo de Ouro como Melhor Atriz, pela sua interpretação em Vanitas, de Paulo Rocha (2005).A 27 de março de 2018, foi feita Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique. in Caminhos.info

Deixa-nos a tua opinião!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.