Tracy Vandal: “Conheci as pop stars todas da época quando era miúda”

Glasgow, Escócia, parte ocidental da cidade - que é aquela chique, onde é tudo bonito, toda a gente é simpática e um capuccino custa 7€. Não fosse irrequieta e era por lá que Tracy Vandal tinha ficado. Glasgow é uma loucura, cheia de músicos, há imensas bandas conhecidas do mundo que se fores ver descobres que são de Glasgow e ainda por cima o meu irmão, 11 anos mais velho do que eu, também trabalhava na música. Foi através dele que conheci as pop stars todas da época. Os pais, apesar de trabalharem muito, em casa tinham sempre a rádio ligada. The Smiths, The Cure, Depeche Mode, John Fox e imensa música pop. Ouço-os desde que me lembro e também sempre gostei de música dos anos 50 e 60, como a Peggy Lee e a Patsy Cline, e cenas mais hippie. Adoro Scott Walker.

Escola de dança, escola de teatro, com 14 anos começou a treinar para ser cabeleireira. Os estudos correram tão mal ao irmão que os pais com ela já não se chatearam muito, desde que não se metesse em sarilhos. Mas meteu. Era um horror, só aos 40 é que comecei a acalmar. Eu era o Calhau, pelo menos entre as meninas, mas sabem como é, se não ultrapassarmos os limites não chegamos à parte mais interessante das coisas. A certa altura surgiu a oportunidade de estudar Engenharia de Som com uma das estrelas favoritas, Alan Rankine, dos The Associates. Era um curso para gente jovem que não queria viver em casa dos pais e queria ter o próprio dinheiro por isso fiz isso quando tinha 16. Lloyd Cole morava no bairro e Jimmy Summerville costumava passear pelas redondezas. Era uma coisa normal e eu pensava que era assim com toda a gente.

A primeira banda foi com Alex Kapranos - sim, esse, dos Franz Ferdinand. A banda na verdade era dele, os The Blisters, e eu era a cantora extra, mais ou menos como agora com os A Jigsaw. No Kazoo Club, às terças, as bandas juntavam-se para tocar ao vivo. Algumas, como os Mogwai, estrearam-se lá. Também tinhamos um pequeno estúdio na cave de uns amigos - naquela altura com 16 era normal em Glasgow alguns já terem o próprio apartamento - e gravámos lá uns 5 discos com a Dick Johnson. Eramos 3 miúdas a fazer muito barulho. Boémia, fotógrafos, filmes caseiros, foi no meio de toda esta Chelsea Hotel kind of scene que se apaixonou pelo pai do primeiro filho, guitarrista, e se mudou para Londres. Tinha quase 19 anos. Trabalhou num dos mais antigos bares punk da capital inglesa, uma espécie de Meca do género naquela altura. E falhei o concerto dos Parkinsos lá porque estava muito grávida e na semana anterior fui para casa de baixa...mas, digamos, Graças a Deus!

Safou-se do concerto mas não se safou dos encantos de Victor Torpedo, pai do segundo filho. Mas Tracy nem sempre só cantou e trabalhou em bares, foi personal trainer. Adorava e tive a sorte de trabalhar num sítio da moda em Londres onde podia pôr as pessoas a fazer spinning ao som de Siouxie and The Banshees e Yeah Yeah Yeahs, era fantástico, que mais podia querer? Mas problemas de saúde obrigaram-na a deixar o trabalho e a família rumou a Coimbra. Às vezes é fantástico, outras vezes é uma chatice. Vê muita televisão. Mas isso é simplesmente uma coisa que as pessoas de Glasgow fazem muito. Já lá vai mais de uma década. Gosta da cidade, mas aponta um grande problema que percebeu logo quando chegou e pensou abrir uma loja vintage. Não há apoio a iniciativas ou negócios independentes, há ideias mas depois é muita burocracia, é preciso passar semanas na Loja do Cidadão a discutir com pessoas que não percebem nada do assunto. Ou tens muito dinheiro ou não consegues pôr a tua ideia em prática e é uma pena. Empurram-te de umas coisas para as outras até desistires. 

Há quem diga que Tracy se parece com Marily Monroe. Mas ela não gosta quando acham que só por ser mulher está sempre a flirtar, sobretudo com colegas. Tracy diz que sem Victor e sem João Rui não teria sobrevivido musicalmente. Fazem tudo aquilo que eu não posso fazer e a maior parte das vezes é porque me puxam. Tijuana Bibles, Giant Paw, Dick Johnson, Lincoln, The Tindersticks. Eu acho que sou uma pessoa fácil de trabalhar, faço o que me mandam, só se não gostar mesmo é que digo e também não sou nenhuma diva nonsense. Mas admite que tem um problema. Às vezes as canções que canto e o meu look não combinam e isso pode ser um bocadinho confuso para as pessoas mas que se lixe, não tenho quem me vista, tenho de ser eu a fazer tudo sozinha no meu quarto desarrumado.

Tracy acaba de gravar um disco com João Rui que também conta com João Santiago, Pedro Renato, Calhau e Sérgio Costa. Vamos admitir, as mulher complicam muitas vezes! Mas são inúmeras as vezes em que tem de defender o próprio espaço nas bandas dizendo que se dá muito bem com a mulher deste e daquele colega. Sobre o disco: Queria trabalhar canções que as pessoas continuam a esquecer, com que as do Lee Hazlewood, que foi um dos músicos mais profundos que já existiu, e também queria fazer uma do Leonard Cohen e uma da PJ Harvey. Quando pode, apoia os músicos portugueses amigos, especialmente em Coimbra. Foi assim que cresci em Glasgow, toda a gente se apoiava mesmo que se detestassem porque aqueles que vais ver são os mesmos que depois aparecem no teu concerto. Podemos não ter as mesmas ideias mas estamos do mesmo lado, a fazer do mundo um sítio mais interessante.

Quando não está no sofá em pijama nem no palco, é possível que a cantora esteja no cinema. Eu e o Victor vamos pelo menos uma vez por semana, às vezes duas. A razão porque canto o que canto é porque estou sempre a imaginar como é que a música encaixaria num filme. Nos últimos tempos arrebatou-a a banda sonora do último de Quentin Tarantino, Once Upon a Time in Hollywood, até porque, ainda por cima, tem um crush por serial killers. É outra razão porque não há assim tantas pessoas que queiram sentar-se ao meu lado. Teve filhos muito nova e acha que talvez os tenha criado demasiado liberalmente. But yeah, I guess I am a super mom. Que continua a querer ser cabeleireira. Vai levar uns anos mas eu tenho tempo. Tudo o que me permita tocar em maquilhagem, tocar em cabelos e ir às compras: sou eu. Sou muito profunda. Em Coimbra? Sim, começo aqui e quando os miúdos tiverem idade suficiente para darem pela minha falta, nessa altura vou para outro lado. 

© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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