A Bienal anda a regar Coimbra com arte até da fonte mais bonita da cidade

A organização da Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra lançou o desafio à Câmara Municipal de Coimbra e à Direcção Geral de Cultura do Centro de recuperar o Jardim da Manga (do qual ainda há meses falámos aqui) e usá-lo como palco de um dos momentos da programação deste ano. As entidades acederam. Disseram-nos que já estava (e naturalmente) nos planos mas a bienal funcionou como um interuptor e isso é que é interessante e tem acontecido, às vezes basta pôr o foco de luz nos sítios e as coisas acontecem, diz Carlos Antunes. Conversámos com o director da Anozero'19 junto à agora luzidia fonte que era parte do antigo claustro do extinto Mosteiro de Santa Cruzexemplo da cultura arquitectónica renascentista em Portugal, contruído há quase 5 séculos. Numa instalação sonora interactiva vai-se não só chamar a atenção para o monumento como destacar o mosteiro crúzio enquanto centro de actividade musical com um dinamismo notável ao longo dos séculos XVI e XVII. 

Esta é apenas uma das dezenas de propostas da programação da bienal, entre exposições de 39 artistas em vários locais a percursos, oficinas, leituras e filmes. Há muita arte para ver em Coimbra até ao final do ano. Arte que transforma a nossa forma de olhar para o mundo e nos torna mais cultos, mais sensíveis - pensar que a ideia de que a arte contemporânea só existe para o mundo da arte contemporânea é um erro, explica o também director da instituição mentora da bienal, o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC). Antunes diz que há, propositadamente, obras mais exigentes e outras que são mais imediatas como o incrível trabalho Sonhos de Outubro de José Spaniol, na Sala da Cidade. Interessa é ir com o coração aberto e não esquecer que toda a arte foi contemporânea num tempo qualquer, não é um estilo, é a arte feita hoje. E as visitas guiadas também ajudam. Fazem toda a diferença porque vamos quebrando esse gelo da pessoa que vai de garras afiadas, acossada, para ver aquilo de que muitas vezes não quer gostar. 

Fons Vitae

Há um património musical conservado no fundo musical da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) que tem vindo a ser alvo de catalogação e estudo. Grupos como o Bando de Surunyo e a Capella Sanctæ Crucis têm vindo a interpretar alguns dos manuscritos e as gravações de ambos são a base sonora para a construção de uma composição instantânea que resulta da exploração, por parte dos visitantes, do espaço da fonte central do Jardim da Manga e das suas colunas. Este é o momento proposto pela Bienal de Arte Contemporânia de Coimbra no Jardim da Manga, inaugurado dia 15 de Novembro, às 17h. A curadoria é de José Miguel Pereira. A ideia parte do interesse que tem sido desenvolvido em projectos do Jazz ao Centro Clube (JACC) ou em que o JACC tem estado envolvido e o interesse pelo trabalho que tem vindo a ser feito por agrupamentos como o Bando de Surunyo e Capella Santa Crucis - o convite por parte da bienal Anozero foi a oportunidade perfeita para explorarmos este interesse, conta o director do JACC. O Hugo Sanches (director do Bando de Surunyo) e o Tiago Simas Freire (director da Capella Sanctae Cruci) foram extremamente generosos na forma como acolheram a ideia e nos cederam as gravações que o Ricardo M. Vieira (músico, compositor e artista sonoro associado à Digitópia - Casa da Música) organizou usando uma ferramenta tecnológica que permite a interação do público com a instalação. Carlos Antunes diz que pareceu à organização muito interessante que a Bienal pudesse alargar aquilo que é o expectro patrimonial da cidade. Isto é, olhar para coisas que não são óbvias e poder retomar o lugar delas na centralidade. Começaram pela Sala da Cidade na primeira edição da bienal e depois o Convento de Santa Clara-a-Nova na segunda. O Jardim da Manga foi limpo e pintado e a opção por uma obra imaterial como a música foi, precisamente, para não lhe retirar protagonismo. 

Bienal

A bienal Anozero nasceu da vontade do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, a mais antiga instituição dedicada à promoção da arte contemporânea em Portugal, com 60 anos, de ter um novo fôlego. Era um lugar isolado quando foi fundado, não havia nada em Portugal, depois aconteceram coisas boas noutros lados e esse protagonismo foi-se dividindo, fomos perdendo visibilidade, e agora é só preciso recuperá-la, não desejando que os outros percam a deles mas conquistando-a, diz Carlos Antunes. A bienal quer trazer atenção para Coimbra. Mas eu prefiro pensá-la como um anti-evento porque o mundo está a tornar-se um lugar de eventos, andamos sempre a chamar a atenção comprando vestidos novos para as pessoas olharem para nós, na cultura isso não significa nada, muitas vezes satisfaz o desejo imediato das populações e dos políticos, mas depois o que é que fica? O director diz que ao Círculo sempre interessou a acção continuada e a bienal é essa acção de dois anos de produção e 2 meses de apresentação, uma reflexão continuada a partir de um desafio concreto lançado por um curador internacional que ajuda quem está em Coimbra a olhar o mundo a partir deste lugar. Interessa-me que a Bienal tenha uma presença diária na cidade, que lance desafios diários à cidade ou pelo menos que se proponha a reflectir sobre o estado da cidade e do mundo todos os dias. Já deixou marcas materiais, como o Museu de Francisco Tropa -aquele pequenino, junto ao rio, em Santa Clara - e a instalação escrita no Aqueduto de S. Sebastião, de Moirika Reker e Gilberto Reis. Eu gostava que ficasse sempre alguma coisa, as memórias ficam sempre e às vezes são tão ou mais importantes do que as coisas mas eu também estou focado em que isso passe a ser uma regra da Bienal, assegura Carlos Antunes. A escultura de Pedro Cabrita Reis, que esteve na Bienal de Veneza e hoje está no Convento São Francisco, também resulta de uma interacção entre a Bienal e a Câmara para ali a colocar, ela estava muito mal tratada e ficou muito bem naquele lugar, além de lançarmos a discussão sobre o que se há-de fazer no Convento de Santa Clara-a-Nova, acrescenta.   

Cidade

A Bienal de Veneza é a grande referência para a Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra não fosse, como diz Carlos Antunes, a bienal das bienais com os seus 125 anos de História. A inscrição de Coimbra como Património da Humanidade foi o impulso perfeita para o CAPC perceber por onde ir e, tal como a Bienal de Veneza, tentar reactivar a cidade de 2 em 2 anos a partir de um olhar culto e sensível sobre o património da cidade, os problemas da cidade e a relação dela com o mundo. Diria que Veneza é, per capita, a cidade mais turística do mundo, e mesmo assim não abdica de ter uma bienal e isso dá que pensar, atira Carlos Antunes. Veneza não precisa do turismo da bienal mas precisa do pensamento da Bienal e isso é que é extraordinário. O director considera que a Anozero ainda vive um estado de graça, que nem considera propriamente como uma coisa boa, porque para o arquitecto a arte contemporânea deve ser uma coisa de tensão, de reflexão e questionamento, mas sempre feita com lealdade. As críticas negativas, quando as há, também não o apoquentam. Os olhares só devem é ser sérios e consequentes, especialmente quando se diz mal, justifica. Ao chegar à terceira edição sabe que estão naquele momento de ouvir dizer: Isto ainda está pior do que no ano passado. No entanto, e elogiando muito a edição anterior com curadoria de Delfim Sardo, diz: Agnaldo Farias, Lígia Afonso e Nuno de Brito Rocha tiveram a inteligência de fazer uma negação disso, de apostar nos menos previsíveis, correr muitos riscos e eu estou-lhes muito grato porque fizeram uma Bienal extraordinária. Damos tudo por adquirido como se o mundo fosse um caminho previsível mas não, nós estamos numa floresta com uma catana na mão e abrimos o trilho que achamos que devemos abrir, essa é a nossa vida e nós decidimos: vamos por aqui, remata.

Público 

O que seria de nós sem arte? Façamos o esforço de apagar tudo aquilo a que a arte diz respeito na História da Humanidade. Hoje se calhar andávamos a caminhar com paus e pedras na mão ainda. Esta é a questão central. A arte sempre andou a par do pensamento, poucas disciplinas conseguem, se calhar nenhuma, fazer uma História do Homem e da nossa civilidade como a arte faz - e eu incluo a Arquitectura e a Música neste processo, para lá das Artes Plásticas. O que é isto que marca de forma radical a nossa existência? Não é relevante? Claro que é relevante. Mas nós sabemos também que a arte quando é verdadeira é lugar de confronto e, obviamente, há muita gente interessada em que este confronto não exista porque este confronto destabiliza, destabiliza os poderes, desiquilibra, mas é o que nos permite ir avançando e, às vezes, é preciso refrear esta energia que os artistas trazem ao mundo porque interessa politicamente que assim seja. E é muito fácil adormecer, as pessoas adormecerem e perderem consciência disso. A mudança não é uma mudança desta cidade, é uma mudança do mundo. Os artistas têm feito esse caminho solitário de persistir nesse caminho. Como é que se resolve? Eu gostava de saber, confesso, mas acho também que num mundo cada vez mais radicalizado compete aos artistas e, sobretudo, aos produtores culturais, onde me incluo, estabelecer esses vínculos com a sociedade civil. Porque o discurso está muito radicalizado e tendemos a virar costas às coisas que nos criam problemas, embora elas nos possam ajudar. De facto, a Bienal é a resposta possível do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra a essa imperativa necessidade de reaproximação do mundo da arte. Do mundo à arte.

(Carlos Antunes, director da Anozero'19 - Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra)

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