João Mortágua: “Se calhar o primeiro contacto com o jazz foi com os Aristogatos”

Andava na 2ª classe (gosta de dizer 2ª classe) quando pediu aos pais para ir para a música. Nem ouvia propriamente música, era o que passava na rádio e na televisão, mas João Mortágua pediu e o pai foi atrás, porque também resolveu aprender. Moravam em Estarreja. Lembro-me de começar a aprender, a tocar as primeiras peças no piano e apaixonar-me por tocar. O saxofone veio a seguir, quando começou com as bandas sonoras de filmes de animação numa orquestra ligeira. Comecei pelo Aladino, depois fui para o Rei Leão mas com os Aristogatos é que foi...wow! Isto é jazz! Se calhar o primeiro contacto com o jazz foi com os Aristogatos.

A colecção de LPs do pai ajudou. Ia lá quando queria coisas diferentes do rock, que já ouvia com 10 ou 11 anos. Foi ali que percebi que as coisas se misturavam mais do que aquilo que eu pensava, ou seja, desde o início que ouvi o jazz todo, não só aquele tradicional da Smooth FM (que o pessoal pensa que o jazz é isso). Delirou com [John] Coltrane. Aquela raiva toda, aquilo mexia mais comigo do que os discos de metal, ainda por cima era saxofone e eu pensava: Espera aí, mas eu posso pegar no sax e fazer isto? O músico diz que, não é puxar a brasa à sardinha ou tentar angariar novos alunos, mas o saxofone é mesmo dos instrumentos mais fáceis de começar. Parecido com a flauta de Bisel, com chaves laterais para tocar os sustenidos ou meios tons.

Mas, espera aí - Metal? Sim, aqueles que apareceram na altura, Slipknot, Korn, Deftones. Já o estamos a ver, de auscultadores nos ouvidos, a abanar a cabeça, no percurso da escola secundária de Estarreja ao conservatório, em Aveiro. Andava ali sempre junto à ria, adorava, tenho saudades. Não era propriamente metaleiro, diz que sempre foi mais da cena hippie, tocava djambé ou flauta com os amigos, também ouvia algum hip hop, e depois aparecerem os Ornatos Violeta. Uma banda portuguesa a tocar bom rock! Comecei a gostar de coisas menos pesadas, progressivamente. Mas as influências podem-se ouvir em projectos como Axes e Mirrors, editados pela Carimbo Porta-Jazz. No Axes são 4 saxofones e duas baterias a tocar e é essa a frescura, é isso que me inspira ali.

Das brincadeiras com os amigos e play alongs - em que punhas o CD a tocar e aprendias que aquela escala se podia usar ali e andavas a experimentar coisas -, passou aos workshops e a conhecer cada vez mais daqueles que seriam futuros colegas. Fez parte da Orquestra Juvenil do Centro, com muita malta das filarmónicas que tocava pelo país fora. Mais tarde ou mais cedo, começaram a sair composições da própria autoria e nem sempre para a pauta. João escreve poesia desde os 13 anos. Ganhou duas vez seguidas um concurso em Ovar que lhe fez inchar o peito. Pensei: Pá, isto está a correr bem, até tenho jeito para isto. Durou pouco, esmoreceu a vontade. Mas lembro-me que, na altura, com aquela pureza de ideias, ainda pouco minado pelo mundo, estava ali super dedicado. Adoro escrever. 

Na música, professores como Pedro Barreiros foram importantes. Jorge Reis então, nem se fala. E referências como David Binney, Miguel Zenón, John Zorn. João Mortágua tinha 17 anos quando foi para Lisboa, supostamente estudar Jornalismo mas a escola jazz do Hot Clube Portugal levou a melhor. Foi lá que me fizeram a cabeça. Continuou a estudar, na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto. Desde então, não temos dedos suficientes nas mãos para contar todas as formações que integrou (e integra) ou espaços onde tocou. Diz que tanto lhe sabe bem a proximidade do clube como um bom auditório. E um espaço ao ar livre, pitoresco, como os claustros do Colégio da Graça ou o Quebra Costas, em Coimbra. Aquelas escadas conhecem-no bem.

Conheci a minha mulher em Coimbra e o facto de estar aqui torna tudo mais fácil, acabei por gostar, é uma cidade tranquila. Mas é só mesmo a cidade que é tranquila, porque ele há 2 anos que tem concertos quase todos os fins de semana e durante a semana ensina no Conservatório. Dá-me prazer sair de casa às 2 da manhã, apanhar o shuttle do aeroporto, ir não sei para onde e voltar para uma cidade tranquila, que não é nem o Porto nem Lisboa. Axes tem tocado sobretudo lá fora - Alemanha, Itália, Sérvia. Em Nova Iorque, no meio jazzístico, o pessoal fala muito em 'axe' no sentido de instrumento - did you bring your ax? João tem levado o dele para literalmente todo o lado mas por acaso ainda não foi à Meca do jazz. Tenho vindo a adiar mas sei que quando for vai ter o triplo da magia.

Quando for, o Músico do Ano 2017 (Prémios RTP / Festa do Jazz) já leva na bagagem a participação na gravação de discos de Zelig, da Orquestra de Jazz de Matosinhos, Kurt Rosenwinkel e Iago Fernandez. Projectos com Carlos Bica e André Santos, André Fernandes, Bruno Pernadas, Tributo a Sun Ra, Nelson Cascais, Filipe Teixeira e Quarteto de Nuno Ferreira. Fora os outros dele: Holi, Math Trio, MAZAM. A malta [do jazz] nunca tem muitos concertos o ano todo, vai dando para gerir bastante bem a agenda e são tudo projectos dos quais quero fazer parte, são amigos e malta que toca bem. É como a fama, também não é nada que o apoquente, mas mesmo nos sítios onde todos o conhecem diz que é mais fixe estar relaxado e tocar o que vai na alma do que racionalizar e improvisar pensando que é preciso corresponder a alguma coisa.

Uma coisa é certa: já lá vai o tempo de fazer casamentos e encher chouriços. E tocar em bandas como os Expensive Soul e Azeitonas. Quando comecei aqui a dar aulas e a fazer só o que quero deixei as Queimas das Fitas, já estava farto daquilo. Tudo faz parte, mas agora os voos são outros. Ásia, Nova Iorque, tantos palcos ainda por pisar e partilhar. Se pudesse escolher, adorava tocar com o quarteto americano Kneebody, de Adam Benjamin, Shane Endsley, Ben Wendel e Nate Wood. A poesia, por enquanto, fica na gaveta - apesar de já ter espreitado no primeiro disco Janela (2014)Não dá para tudo. E já é tanto. Também é preciso tempo para passear com as miúdas e pegar na bicicleta e ir para o meio do campo. 

© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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