Fomos ver o Quarto de Van Gogh e descobrimos o Salão da Frida em Coimbra

Há uns uns meses que faz sensação na Rua de Montarroio, paralela à centralíssima Avenida Sá da Bandeira, em Coimbra. Eu criei isto para mim mas as pessoas começaram a entrar, conta Élia Ramalho. A artista plástica alugou o nº 77 para fazer um estúdio mas o espaço foi-se transformando num dos cantos mais instagramáveis da cidade (para usar o termo da moda): o Quarto de Van Gogh. Élia replicou em tamanho real O Quarto, quadro do pintor holandês Vincent Van Gogh, que serve de sala de leitura de histórias para crianças, já foi cenário de filme e é alvo da visita de inúmeros curiosos. Mas há mais. Uns metros ao lado do Atelier Palavra Pintada está a ganhar forma o Salão da Frida, um espaço comercial e (multi)cultural de encontro, convívio e arte.

Élia Ramalho é de Tomar, tem formação em artes plásticas e design com uma enorme paixão pela pedagogia. Tem 7 livros publicados, participou na colectânea Coimbra em Palavras, já deu aulas formais mas prefere as informais e tem as próprias oficinas de artes para crianças do pré-escolar e primeiro ciclo. Doutoranda de Materialidades da Literatura na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com uma tese sobre Júlio Pomar, confessa que rotina e tédio não são para ela mas encontrou na cidade o seu lugar ao sol. Acho que encontrei Coimbra numa fase ideal, que se pode dizer que é uma fase madura para receber um projecto mais alternativo como este que vou oferecer à cidade, que é isso que sinto que isto é, contou. 

O Quarto de Van Gogh

Quando cheguei aqui [77 da Rua Montarroio] comecei a olhar para o quarto e achei super bizarro, as formas, e comecei a pensar, a inventar e o quarto começou a surgir e a estar aberto a quem passasse, diz Élia Ramalho. Entretanto deu nas vistas e os curiosos começaram a parar e a entrar, dezenas e dezenas deles. Há dois géneros de pessoas: os que conhecem o Van Gogh e ficam admiradas e muita gente que não conhece o pintor e acha ainda mais inusitado o quarto mas gosta na mesma. A pintora convida escolas para visitar o espaço e assistir à leitura do livro para crianças que publicou em 2018, Vincent Van Gogh – Artistas com História, afinal era esse o propósito original do quarto. Porquê o pintor holandês? Porque ele é óptimo como ferramenta pedagógica para coisas, a questão d’Os Girassóis, da história dele que dá para abordar questões ligadas à agricultura, à biodiversidade, à pedagogia. Os filmes que saíram sobre o autor, como o interessante A Paixão de Van Gogh (2017), ajudam. O cinema é uma óptima fonte de interesse, sem dúvida. Provocadora, a artista também tem em exposição um trabalho transdisciplinar com colagens que começou a ser feito em 2012, foi terminado 6 anos depois e deu livro. A ideia é que quem quiser, sobretudo as crianças, vejam, sintam e toquem – contra aquela ideia do museu em que as pessoas não podem tocar em nada. Na casa de banho, uma infiltração impediu-a de cumprir a função para que foi feita mas não de ser transformada numa homenagem à escritora Sophia de Mello Breyner. Também há um mural – onde os adultos se tornam crianças vaidosas e desatam a posar para tirar fotografias –, inspirado, esse sim, na maior referência da artista: Frida Kahlo. 

Salão da Frida 

Ao contrário de Van Gogh, Frida é um caso de identificação mesmo e profunda. Eu tive um acidente de carro com 22 anos e fiquei completamente politraumaziada como a Frida Kahlo, confidencia Élia Ramalho. Foi da cabeça aos pés mas eu ainda não conhecia a história dela; durante 4 anos, fui sendo operada, não sabia nunca o que me ia acontecer e o escape para o meu sofrimento e desfiguração era a pintura, sempre que me sentia em condições voltava à escola por causa da pintura, continua. Estava a terminar o curso quando lhe deram a ler a biografia da pintora mexicana. Eu leio, arrepio-me e penso: Fogo, é incrível. Além de ter contraído poliomielite aos 6 anos, Frida Kahlo sofreu um gravíssimo acidente de autocarro que fez com que passasse o resto da vida em profunda dor, agonia e incapacidade física. Élia viu pela primeira vez um dos quadros autobiográficos de Frida, e ainda hoje o favorito, em Madrid – célebre As Duas Fridas (1939), que reproduziu ao seu estilo e está no Salão. Uma outra vez quase desmaiei, não há ninguém que tenha mexido comigo desta maneira, assegura. Por isso, um segundo espaço que alugou na Rua de Montarroio, a poucos metros do nº 77, chama-se Salão da Frida. Está a ser aprimorado e vai ser uma loja alternativa e espaço cultural com galeria, ateliê e calendário de eventos como tertúlias. Quero que seja um espaço também multicultural e aberto, quer aos turistas quer às vizinhas que passam. E passam mesmo, conhecemos pelo menos duas. Já há obras de António Azenha no espaço que teve uma discreta pré-abertura no dia 11 de Outubro, com a actuação da companhia D. Mona, uma cooperativa pluriartística com direcção da dramaturga e encenadora Mónica Kahlo e da antropóloga e investigadora Sílvia Raposo. 

Cidade

“Os turistas não vêm só à procura do fado, alguns nem sabem que ele existe, Coimbra insiste no revivalismo e na tradição, que são importantes claro, como a dinâmica da Queim mas acaba por reduzir um pouco os interesses e Coimbra é um polo de tudo. Eu aqui sou uma artista visual, faço esta exploração de diversas linguagens, aproprio-me da cultura destes pintores, neste caso o Van Gogh e a Frida Kahlo, e quando os tais turistas vêm ficam encantados porque reconhecem e têm uma capacidade de leitura incrível do meu trabalho, muitas vezes mais fácil do que com as pessoas que vivem cá. Portugal tem um baixo nível de conhecimento das artes, sejam pintura, artes cénicas, música, a maior parte das pessoas ainda não acordaram para essa realidade, ainda há muito por fazer no que toca ao ensino artístico, e isso revela-se no público. Em relação a entidades como a Câmara Municipal, por exemplo, mesmo havendo quem não concorde, a Feira Cultural este ano mostrou que há uma organização e uma abertura à cultura onde toda a gente tem direito a entrar e eu gosto muito desta ideia de multiculturalidade e acho que há espaço para toda a gente. Foi um excelente ponto de encontro e ajudou-me a promover o meu trabalho.” (Élia Ramalho) 

Texto e fotos: Filipa Queiroz 

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