Perdemos a cabeça e fomos à confeitaria mais antiga em Aveiro

Já dizia Eça de Queiroz, n'Os Maias: É um doce muito célebre, mesmo lá fora. Só o de Aveiro é que tem chic. Ir a Aveiro e não comer ovos moles é como ir a Roma e não ver o Papa, com a diferença de que é muito mais fácil porque os há à venda em todo o lado. Mas há uns que são especiais. A Confeitaria Peixinho é a casa de Ovos Moles de Aveiro mais antiga, fundada em 1856, e foi recentemente remodelada e decorada ao estilo pariesiense. No rés-do-chão tem um balcão à moda antiga, um moderno mural com peixes e plantas e um vitral no tecto. 

Logo à entrada está a edição de 1888 d'Os Maias, aberta na página certa. No rés-do-chão podem babar em frente à vitrine, (tentar) escolher e levar os doces para comer depois, mas no 2º andar espera-vos uma elegante salinha de chá com informações sobre a história do negócio e da casa nas paredes - como o alvará do forno de coser doce concedido a Maria Peixinho, em 1923. No menu, só têm de conseguir escolher entre todas as delícias que a casa tem à disposição e nada melhor do que prová-los com calma e acompanhados por um café ou uma infusão.

Doces

Além dos tradicionais ovos moles, confeccionados e envoltos em hóstias moldadas na forma de conchas, peixes, búzios e outros objectos marinhos que remetem para as tradicionais imagens da região, há mais opções - cada uma mais irresistível do que a outra. Bombons de ovos moles, moliceiros, castanhas, barquinhos, cornucópias, glorinhas, ninhos, delícias e suspiros, todos de ovos moles. Se quiserem uma opção menos enjoativa, têm as broinhas, mais secos e com muita amêndoa a cortar o sabor do ovo. Também há pão de ló e as míticas raivas de Aveiro, outro clássico da casa. Todos custam entre 1,5€ e 3,50€. A Confeitaria Peixinho fica da Rua de Coimbra e está aberta todos os dias, das 10h às 22h. 

História 

A origem dos ovos moles de Aveiro data do século XVI, muito antes até da criação da cidade. Uma das lendas diz que foi criado por uma freira do Mosteiro de Jesus, a quem foi imposto jejum como castigo pela Madre Superiora. Cansada de jejuar, a freira começou a pegar nas gemas de ovos e a misturá-las com açúcar. Para não ser apanhada em flagrante, ela escondia o doce junto das hóstias. Quando o doce finalmente foi descoberto no Convento, gritou-se Milagre!, porque era tão delicioso que devia ser obra de Deus. Há outra história que conta que era comum na época as pessoas presentearem as religiosas com galinhas. As claras dos ovos eram usadas para engomar as roupas e, como não havia uso para as gemas – que tinham um prazo de validade muito curto-, descobriu-se que, ao adicionar-lhes açúcar, o seu prazo de validade aumentava consideravelmente. A receita dos ovos moles foi, então, passada de boca em boca e manteve-se até hoje graças às mulheres que eram ensinadas pelas freiras dos diversos conventos da região. (in Confeitaria Peixinho)

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Joana Pires Araújo

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