Já viram o que Coimbra tem na Marquise?

Todos sabemos que é uma varanda fechada, com caixilharia e vidro, para aumentar o espaço interior de uma casa. Às vezes uma construção clandestina, descoordenada do resto da arquitectura do espaço. Dizem que a palavra vem da francesa Tente-Marquis, que seria uma tenda suficiente boa para ser usada pelos Marqueses. Quando a Casa da Esquina pensou desenvolver um projeto no campo da ilustração, a palavra Marquise surgiu e pareceu-lhes interessante recuperar a ideia. Nela estão presentes características que gostávamos que o projeto tivesse: um espaço que simultaneamente protege e mostra, o prazer em fazer as coisas e a ideia de liberdade individual. O ilustrador Nicolau é o 16º convidado da Marquise com a exposição Profita Muito e Traz Bagagem, risografias e linografias que falam de aproveitar e desfrutar o tempo. 

Todos os desafios que lançámos a pessoas que não são de Coimbra, ou mesmo de Portugal, foram abraçados imediatamente, que é um bocado o espírito da Casa, aliás o espírito da ilustração é o espírito da Casa, temo-nos cruzado com estas pessoas que têm a generosidade de partilhar o seu trabalho e isso também nos atrai, contou-nos Sandra Alves, fundadora da Casa da Esquina, durante a inauguração. Nicolau não é excepção. Não conhecia e estou um bocado fascinado, parece um cantinho meio mágico, com muita criatividade, sentido de comunidade e vontade de fazer coisas mas, ao mesmo tempo, de uma forma muito simples e humana, disse-nos o ilustrador. Podem conhecer o trabalho dele até 1 de Novembro, entre as 10h30 e as 12h30 e as 14h30 e as 18h30, no nº 6 da Rua Aires de Campos, em Coimbra.  

Exposição

Está dividida em duas: metade é uma retrospectiva de processos de livros que Nicolau fez nos últimos anos - O Amor das Coisas Belas (Pato Lógico, 2018), sobre o escritor António Lobo Antunes, e Vincos (APCC, 2016) -, e um original projecto sobre a ameaça às abelhas com abelhas recortadas à mão que são plantáveis, ou seja, cujo papel contém sementes. Por cada abelha que morre por falta de habitat ou pesticidas, podemos fazer um funeral e nasce um jardim de flores que chama mais abelhas, explicou-nos. A outra metade da exposição resultou de um tempo a trabalhar só à mão, inspirado nos avós maternos que viveram emigrados em França durante 30 anos e, por isso, usam expressões como Vais tombar malado (tu vas tomber malade). A ideia foi trabalhar sem rumo e profitar do processo. Profitar que é profiter e não tem necessariamente a ver com o inglês profit (lucro), pelo contrário. Profitar é desfrutar, aproveitar, estar presente. O desenho até pode parecer simples, mas para chegar à escolha final, o ilustrador garantiu-nos que faz uma série deles. E quantas vezes faço um e o resto do tempo é tirar tralha desnecessária. Podem levar algumas das obras de Nicolau expostas na Casa da Esquina por 15 a 60€ - inclusive uma abelha, custam 3€ cada. 

Nicolau

Estou muito contente por estar aqui, sinto-me em casa, confessou-nos o ilustrador durante a inauguração da exposição na Casa da Esquina. Nicolau é natural de Vila Nova de Cerveira, estudou Design mas passou uns anos a percorrer Portugal como músico com os doismileoito e depois com Nuno Prata. Entretanto fez trabalho de ilustração para músicos como Miguel Araújo e Carminho e, entre trabalho editoral e álbuns ilustradores, com projecções ao vivo e murais pelo meio, recentemente trabalhou com: Casa da Música, Metro do Porto, Bibliotecas de Lisboa, Pato Lógico, Esporão, entre outros. Organiza com Joana Estrela as noites de desenho colectivo e errático Drink&Draw do Porto, cidade onde pedala. Neste momento está a preparar mais um livro com a Pato Lógico e a preparar campanhas. Tudo o que me aparece gosto sempre de experimentar e tentar resolver, mesmo sendo um pouco difícil, gosto de me pôr desconfortável e enfarinhar-me nos temas. Sejam para miúdos ou graúdos. Esta exposição ate é bastante baixinha (risos) e a verdade é que eu não gosto muito da ideia de que uma coisa para crianças é aborrecida para adultos, e vice-versa. 

Preparação da capa de "O Amor das Coisas Belas" (2018), sobre António Lobo Antunes

Marquises

A primeira foi Charlotte Peys, ilustradora e cientista cultural belga que apresentou em Coimbra uma realidade não literal, lembrando a ameaça a que estão sujeitas fauna e flora, e a sua necessidade de protecção. Era 2016, e o projecto autónomo da Casa da Esquina surgia do encontro com a ilustradora Ana Fróis e com o objetivo de divulgar a ilustração e o desenho contemporâneos. Já lá vão 16. Entretanto conseguimos estabelecer com as escolas aqui à volta uma rotina de os miúdos virem sempre ver, independentemente de serem coisas para crianças ou não, porque mesmo sendo artistas com trabalho publicado na área infantil trazem sempre coisas diferentes e é a isso que as crianças são expostas, percebendo que existem outras técnicas, outras formas de desenhar, e todos o processo de trabalho que levam ao livro, explicou-nos Sandra Alves, fundadora e programadora da Casa da Esquina. Aconteceu com Ana Biscaia, Mariana Rio (A Casa do Senhor Malaparte e A Casa da Doutora Farsnworth, colecção para pais e filhos chamada Casas com Nome, da editora Circo de Ideias, que revisita exemplares de arquitectura do século XX numa dimensão literária, com textos de Joana Couceiro) e Catarina Sobral, vencedora do prémio de ilustração na Feira Internacional de Bolonha com O Meu Avô (2014) mas que nunca tinha exposto na Coimbra natal. A dinamarquesa Puk Ewdokia, que retratou o quotidiano citadino de Coimbra e Lisboa, Alice Geirinhas, Ana Frois, Sainte Marie, Paul Hardman, Marta Monteiro, Carolina Maria (Agir Contra a violência doméstica), Ricardo Jorge, Joana Corker e João Sobral (Panda Gordo). Até final do ano, ainda passarão pela Marquise aJoana Estrela e Cecília Silveira.
 
 

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