Inês Santos: “Vejo Coimbra a fervilhar, o que não aconteceu durante muitos anos.”

É a mais nova de 4 irmãos. Às 7h da manhã, lá começava a cantar os desenhos animados todos, quando iam em viagem idem, e os irmãos sempre a sofrer. Era assustador e depois chegou o violoncelo e a flauta de Bisel! Inês Santos adora explorar. Se calhar porque, desde cedo, ia com os meus irmãos para coisas que não eram bem para a minha idade. Como a mítica discoteca States, com 11 anos, ou andar de mota, ou viajar. Os pais eram professores (de Educação Física) por isso tinham férias grandes. Passavam muito tempo na Praia Verde e depois, no Verão, viajavam de autocaravana.

Os meus pais deram-me muito mundo e investiram na minha educação e em conhecer um pouco mais além de Coimbra - Croácia, Grécia, tenho fotografias com 3 anos na Acrópole, em Atenas, a dizer: Quero água já! Chegou a praticar vários desportos ao mesmo tempo - basquetebol, karaté, hóquei, natação -, além da Alliance Française e dos escuteiros. Mas depois veio o Coro dos Pequenos Cantores de Coimbra. Deixei tudo. Tudo, menos viajar. A primeira viagem que fez de avião foi precisamente com o coro, e com o mestre José Firmino. A minha família ia para Paris passar férias e deixou-me escolher, e eu escolhi ir cantar para a Madeira.

Nascida e criada em Coimbra, diz que com 3 anos já dizia que queria ser cantora, mas não sabe de quem herdou o gosto. Tenho um tio que constrói guitarras de Coimbra e um primo que toca guitarra clássica, mas nada de muito profissional. Estudou pelo bairro da Solum, fazia tudo a pé e passava o dia na rua, a brincar. Ocasionalmente, também atirava ovos aos autocarros. Sempre tivemos muita liberdade. Depois passou por duas escolas até acabar no Colégio S. Teotónio. Ser cantora não era uma coisa muito académica, então tive de fugir para um sítio onde me compreendessem um bocadinho mais. Na altura tinha um registo erudito, estudou no Conservatório, contemporânea de Lara Martins e André Sardet. Mas, lembra-se bem que na Brotero havia as portadas verdes onde Pedro Serra e a malta toda dos Tédio Boys pairava. Eu admirava-os de longe. 

Foi beta, foi punk, foi tudo. Gosto de variar e experimentar. Por isso é que, embora lhe tenha custado, não recusou rapar o cabelo para fazer de Sinéad O'Connor no concurso Chuva de Estrelas, há 25 anos. Ganhou. Tinha 16. Mas foi ter a fasquia logo muito alta e ter de conseguir acompanhar. Fã da antecessora, Sara Tavares, diz que a vencedora da edição anterior fez algo muito importante na altura, que foi aprender logo a tocar guitarra e começar compor as próprias canções. Tenho temas meus, mas não componho, sempre fui freelancer e nunca fiz grande planos, vou ao sabor do vento. Mais: tenho a certeza que estivesse numa edição com ela, tinha ganho ela.

Desde então, Inês Santos venceu um Festival da Canção, ficou bem classificada na Eurovisão, editou dois discos, integrou o elenco de peças de teatro musical e teatro de revista, apresentou espectáculos temáticos, deu voz a filmes da Disney, genéricos e bandas sonoras de novelas e publicidade. Também foi Inês (de Castro, adaptada) numa ópera no Canadá - que lhe valeu a nomeação para um Dora Mavor Moore Award -, e se espreitarem o Youtube podem vê-la na pele de Robert Smith (The Cure), Maria Callas, Ana Malhoa e até Lady Gaga. Foi cantora residente em programas de televisão e de navios de cruzeiro, e lançou o livro Não Me Roubes a Alma (Chiado Ed.) com fotografias dessas viagens. Mas, para as pessoas, continuo a ser sempre a careca do Chuva de Estrelas.

Vive em Lisboa. Nos phones, tanto ouve James Blake ou Nithin Sawney como clássica, Rihanna ou Pensão Flor. Coimbra é o porto seguro, volta sempre que pode. Sou muito família, muito cuidadora, e é aqui que toda a gente me conhece, toda a gente ajuda, estou à vontade. Chegou a ter um negócio com os irmãos, o Café Com Arte, e agora está a estudar Turismo. A minha geração saiu de Coimbra, mas vejo Coimbra a fervilhar, o que não aconteceu durante muito anos. Mesmo havendo sempre quem ache que não acontece nada, hoje em dia sinto que há sempre um bar, um espaço, um espectáculo, alguém com um projecto novo, vocês (Coolectiva, João Azevedo) são exemplo disso. O que está a fervilhar mais é alternativo, é algo que não vai agradar às massas, é para quem procura fazer coisas diferentes e estimulantes, e são os mais novos e os que vêm de fora que estão a trazer algo de novo. É preciso dar uma chance. Ou vamos ficar no mesmo cafézinho sempre? 

Para Inês, a música portuguesa está numa óptima fase. É preciso ter a sorte de chegar lá, são só aqueles 20 ou 30 os que têm um grande volume de trabalho, mas há muita gente nova mesmo. De Coimbra, destaca os Anaquim, Quatro e Meia, Flying Cages. A Jigsaw! Adoro, adorava fazer alguma coisa com eles, pode ser que leiam esta entrevista. Tiago Curado de Almeida e Luís Pedro Madeira colaboraram no último disco. Vai haver um segundo livro, sobre etnografia, e é para crianças. É importante resgatar as nossas coisas, que se estão a perder mas são a nossa base e o que nos vai ligando, de geração em geração. Gostava de ir à Costa Rica, Nicarágua e Honduras, mas nada de cruzeiros. Quanto mais viajas, mais percebes que o mundo é enorme, que há muito para ver, e tu conheces só um bocadinho assim. Já esteve mais longe de rapar outra vez o cabelo. Tem dois mantras: nada de mau dura para sempre e ninguém é uma coisa só, nunca. Depende tudo da Maré.
 

© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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