José Rebola: “Já não se joga o concurso do: ‘Eu sou mais do rock do que tu.'”

Em pequenino, sempre andou por Coimbra. A avó tinha uma casa muito grande, ali mesmo em frente ao Jardim da Sereia, por isso a infância foi por aí e por São Martinho do Bispo, onde vivia. Andava de baloiço e jogava à bola. Agora já estamos habituados a ver aquilo espaçoso, mas a Sereia era mais instransponível. Chegava a ter má fama. Mas adiante. A música, sempre lá esteve. O pai cantava para nós e desde pequeno que tenho essa memória, dele a tocar guitarra, música portuguesa; lembro-me de ouvir cassetes do Zeca Afonso e do Sérgio Godinho, e de um guitarrista que, na altura nem liguei assim muito, mas que é o Django Reinhardt, que depois se tornou a base do som dos Anaquim - o gipsy jazz, como eles chamam.

Ali a entrar para a adolescência, a irmã, 2 anos mais velha, tratou do resto. Ouvia Nirvana e levou-me para esse lado todo. Depois, conheceu os Tédio Boy, depois virou-se para o mundo mais rockabilly, com direito a visual a condizer e tudo. Estudava trompete e guitarra eléctrica no Conservatório. Escrevia bossas novas e coisas de adolescente, mas a primeira banda foi os The Speeding Bullets com o Nakata, o Malo e o Luís. Tinha 18 anos e ainda hoje se reúnem para tocar. Depois começou a aventurar-se no rock e no punk rock, outra vez a irmã. Era a rebelde da família. José não. Pelo menos não no sentido mais tradicional, mais desordeiro e desafiante do termo, mas gosto de revolver a ordem vigente das coisas e não fazer da maneira tradicional. Rebola nunca passou mais de 15 dias longe de Coimbra. Gosta muito. Mas a verdade, é que não tem grande termo de comparação. Gosto da dimensão, não sou um grande apaixonado pelas cidades grandes - que não é equivalente a grandes cidades -, e acho que a vida numa cidade grande tem a sua parte de engolir o indivíduo, se calhar demasiado.

Formou-se em Engenharia Electrotécnica. Apesar de o seguimento óbvio ser ir para Aveiro, Porto ou Lisboa, trabalhar numa empresa de telecomunicações, preferiu ficar. Conseguiu uma bolsa e os projectos que foi abraçando começaram a roçar a Neurociência. Essencialmente perceber como funciona o cérebro e como ele é um equilíbrio tão interessante entre coisas especializadas e redes integradas. Como um computador. Mas a música continuava. Escrever, compôr, tocar e seguir as bandas da cidade. Chegou a formar os Cynicals, que ganharam vários concursos de música nacionais, sempre com letras em inglês. Nos anos 90 cantar em português ou gostar de música portuguesa era foleiro. Mas depois começou a ter vontade. Disso e de fazer música que não se encaixava naquele universo tão acelerado. Mostrou umas coisas ao Ávila, da Rádio Universidade de Coimbra, e passaram no histórico Santos da Casa. Ainda era Plano B.

Em 2007, JP Simões convida Rebola para o programa KM ZERO, da RTP2. E eu disse-lhe: tudo bem, por mim excelente ideia, só há um stress: é que eu não tenho banda. Mas vou arranjar, dá-me 3 dias! Chamou a malta e correu bem. Corre bem, há 12 anos. O gosto pela fotografia e pelo cinema nunca aprofundou, mas vimos logo pela maneira como examina o equipamento durante a sessão fotográfica e a t-shirt que brinca com A Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. Anakin era o nickname que usava no Messenger - aquele a seguir ao MIRC -, Anakin Rebola. Como o Skywalker. O que eu gostava na personagem era o facto de representar uma dualidade, do Anakin que depois é o Darth Vader. O que está do lado da luz é o Anakin e eu queria que o projecto se debruçasse sobre as coisas positivas.

Lançaram-se com As Vidas dos Outros e um dos concertos mais incríveis foi no Zimbabué, para pessoas dos 8 aos 88, mais ou menos o intervalo de idades que têm os alunos do músico na Academia de Música de Coimbra. Ensina mas continua a ter tempo de ir a concertos e alinhar em projectos como o enorme êxito Este Rio Imenso. Coimbra ja está a conseguir dialogar consigo própria. Também fez duetos com artistas com Ana Bacalhau, Jorge Palma, Luísa Sobral e Viviane, o problema é que está tudo em Lisboa. O país ainda está muito centrado, há muitos projectos que as pessoas não conhecem por não serem da capital. Tivemos um certo vibe em 2010, mas sentimos que, a cada concerto que vamos, temos sempre de conquistar o público porque as pessoas não conhecem. E Coimbra ainda se está a habituar ao Convento São Francisco e o Convento São Francisco ainda se está a habituar à cidade. Não é fácil casar uma sala de 1.300 lugares com bilhetes que não são muito baratos, não estando as pessoas habituadas - por ser uma cidade estudantil -, e o público primar por ser um bocadinho comodista, o que não é na Praça da República não capta tanta gente.

Pelo menos, já não se joga o concurso do eu sou mais do rock do que tu. As coisas estão mais integradas, as pessoas estão mais abertas. Mas hoje em dia é impensável fazer promoção de uma banda apenas pela música. É preciso encher o olho. Ou és um génio incontestado, em que as pessoas vão fazer essa parte por ti, ou é preciso videoclipes, making offs e vídeos a caminho do concerto, porque a Internet veio trazer a liberdade de as pessoas conseguirem aperceber-se do que está a acontecer à sua volta, mas a certa altura apercebem-se que: OK, está muita coisa a acontecer à minha volta, então para onde é que eu vou olhar? Não é tanto saber que existe, mas por que é que és diferente dos outros mil. De qualquer forma, o José Rebola que está no palco é o José Rebola do dia-a-dia. Haja tristeza, haja amargura, mas nunca em dias de sol.

  

© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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José António Baptista
05.09.2019

Não fazia a mínima, mas que gosto, gosto e muito!!
Parabéns!