João Farinha: “As pessoas vêem o fado um pouco como vêem os monumentos da cidade”

O pai cantava e ele gostava muito de o ouvir. Cantarolava por todo o lado: no carro, no banho, em casa. Olha, como ele costuma fazer hoje em dia. São farinha do mesmo saco mas no bom sentido, por isso até lhes fica bem o apelido. João Farinha nasceu em Coimbra e foi no coração da cidade universitária que viveu quase toda a vida. Mais concretamente ali junto às escadas monumentais e, mais tarde, na zona de Celas. Por que é que isto é relevante? Porque a história do músico e empresário talvez tivesse sido bem diferente se assim não fosse. Desde o Jardim Escola até me formar, e depois mesmo até trabalhar, não devo ter percorrido mais de 2 quilómetros, portanto sempre tive muita influência da cidade e sempre gostei muito dela. 

O pai, João António Farinha, começou a cantar cedo. A mãe dele incitava-o porque gostava muito de o ver. Ensaiava num grupo que se chamava Portugal dos Pequeninos, dirigido por António Portugal, ao lado de nomes como Rui Pato, António Bernardino e Francisco Filipe Martins. Falamos de meados do século 20. Com 12 ou 14 anos, foram à Emissora Nacional, tiveram uma projecção interessante, depois o meu pai passou pelo período de luto académico, em que não se cantava fado, mas nos anos 80 retomou e foi fazendo concertos até mais ou menos quando eu comecei a cantar, nos anos 90. Também gostou de o ver, claro, mas para João Farinha, a música não começou aí. A minha primeira experiência foi no 7º ano do liceu, quando me pediram para cantar no Natal. Disseram: "Ai, tu tens jeito!", e eu cantei aquelas músicas natalícias como o "Olhei Para o Céu e Estava Estrelado". Deram-lhe os parabéns mas, mesmo assim, lá em casa o irmão é que tinha a fama - berrava com mais força. João ia ouvindo as cassetes que lhe ofereciam no Natal - e ficava a ouvir até ao Natal seguinte -, ou o que passava na rádio. 

O acesso à música não era tão fácil como é agora; hoje em dia dou à minha filha o acesso ao Apple Music ou ao Spotify e ela ouve a que quer, como quer e onde quer. Quando teve possibilidades de comprar música, foi quando apareceu o movimento grunge e ficou doido com os Nirvana, os Pearl Jam e os Soundgarden, por exemplo. Cantava muitas vezes, mas também cantava música de paródia com os meus amigos, como os Ena Pá 2000. Ao mesmo tempo fazia desporto, andou na natação até aos 14, até fez alta competição com bons resultados, mas depois começou a meter água. Só dei o salto em termos de altura aos 16 e gostava muito de competir - sou muito competitivo, gostava de andar à frente -, mas quando via os meus colegas, que eram mais altos do que eu, a passar por mim sem saberem ler nem escrever, desanimei completamente e deixei aquilo. Ainda jogou voleibol no União de Coimbra, mas depois veio a universidade e acabou-se o desporto. Estava tão entusiasmado, foi uma coisa completamente diferente na minha vida, tinha sido sempre bom aluno mas aquele era um mundo novo. 

João Farinha entrou em Gestão, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, mas andou mais interessado em viver a vida académica e a cidade do que propriamente em dedicar-se aos estudos. Nem sequer ao fado. O primeiro organismo académico de que fiz parte foi uma claque de futebol! O pai levou as mãos à cabeça, mas a farra deu frutos. Mais tarde uns amigos levaram-no para um coro da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra (AAC), porque diziam que tinha jeito para cantar daquilo que conheciam das noitadas e foi aí, depois de um desafio para formar um grupo e ir cantar a Marrocos, que tudo começou. Gostei tanto da experiência que quis ter um grupo a sério, então nasceu o grupo de fados Aeminium, com amigos, e fizemos as serenatas e todo o percurso dos fadistas de Coimbra. Desistiu de fazer ERASMUS em Leuven, na Bélgica, para ir à Serenata na Queima das Fitas. Houve outras coisas, achei que era um encargo grande para os meus pais, mas a questão de perder o fado lá fora foi decisiva para mim. 

António Mename, Edmundo Bettencourt, Luís Goes e José Afonso são grandes referências, mas quem fez a diferença foi Carlos Paredes. Ofereceram-me "O Melhor de Carlos Paredes" e eu ouvi e disse: Adorava fazer aquilo. De guitarra não pesco mas acho que cantar consigo, mais ou menos. Cantou, canta, mas também compõe e, desde 2010, gere, também com amigos, o Fado ao Centro - Casa de Fado, em Coimbra. Lá pode-se não só ver e ouvir como conhecer a história e aprender a tocar fado, ou mesmo os instrumentos. O meu hobby tornou-se a minha profissão, tenho muita sorte nesse aspecto. 

O Fado ao Centro recebe turistas diariamente e já levou o fado de Coimbra a vários cantos do mundo. Já cantámos em milhares de palcos diferentes, com públicos totalmente diferentes. Gosta especialmente de ir ao Norte da Alemanha. São calorosos, entendem muito de música e vibram com o espectáculo; pagam quase 40€ para ver um concerto de fado de Coimbra, juntamos umas 600 pessoas, pedem 3 encores e os discos que levo numa caixa desaparecem. E em Coimbra? As pessoas vêem o fado um pouco como vêem os monumentos da cidade, está ali e vamos lá quando nos apetecer porque aquilo é nosso, e há muita gente que nem sequer lá vai. Antes de trabalhar na Alta, ele também raramente tinha ido ao Museu Nacional de Machado de Castro, à Biblioteca Joanina ou à Igreja de Santa Cruz, mas garante que, pelo menos, projectos como o dele conseguiram, ao longo dos anos, ir mudando mentalidades. As pessoas vêem hoje o fado de Coimbra de uma forma mais descontraída do que antigamente; por exemplo, no início, era complicado pensar num fadista profissional de Coimbra. Além de que, os próprios fadistas, chegavam, punham as capas, cantavam e não passavam cartão às pessoas. Fazia-lhe confusão. Eu tinha de comunicar com as pessoas e perceber se estavam a gostar ao não, essa relação com o público é muito importante.

Em Coimbra, as rivalidades também fazem parte do ecossistema e a música exacerba as paixões. É um ambiente relativamente saudável, já houve umas capelinhas aqui e acolá, como há sempre nestas coisas, mas é como os cafés: aquele pertencia àquele café, aquele pertencia ao outro. João era do Ritz, do Avenida, do Atenas e do Trianon, às vezes do Piolho e do Samambaia. Hoje, sente que faz parte do fado de Coimbra e gosta de pensar que vai deixar algo de si para os que vierem. Ele e, quem sabe, os filhos. A menina é toda ela música e até já cantaram juntos graças a Luís Pedro Madeira. Será que se atira ao fado? É uma coisa mais de homens, porque nasceu do cortejamento feminino, e as mulheres não andavam na universidade, mas se cantarem que o façam bem e de preferência comecem a serenatear os rapazes. Farinha acredita que os grupos da Secção de Fado da AAC continuam a fazer um bom trabalho de manutenção da tradição junto dos estudantes, e que os estudantes estão ligados ao estilo de música. Resta acrescentar que, para ele, a conversa de que o fado de Coimbra é triste não passa de um chavão. Depende dos temas, temos temas pesados mas também temos temas leves e temos, fundamentalmente, temas românticos, depende de como é transmitido. 

Serenatas há muitas, mas vai fazer hoje a primeira à mulher. Vai ser uma festa surpresa. Talvez saia O Meu Desejo, de Luís Goes, ou A Feiticeira, de Ângelo Vieira de Araújo. Mas o (seu) Fado Hilário talvez seja o tema que transmite mais de si. Às vezes fico tão absorvido que me esqueço da técnica, tanto que nos espectáculos muitas vezes o deixo mais para o fim. E, por falar em fim, deixa umas pistas sobre o dele. Eu quero que o meu caixão tenha uma forma bizarra, eu quero que o meu caixão tenha uma forma bizarra; a forma de um coração, ai, a forma de uma guitarra. A forma de um coração, ai, a forma de uma guitarra.

© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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Isabel Farinha
07.10.2019

Só te Desejo do Fundo do Meu CORAÇÃO Muitas Alegrias sempre Bem Vividas!!! Beijinhos, ATE_JA