FILHOS DA MADRUGADA | O “Senhor Livro” da Sé Velha

Uva chilena, pera sul-africana e melão espanhol preenchem as únicas três caixas internacionais da prateleira mais vistosa do Minimercado Lopes. Situado na recôndita Rua Joaquim António de Aguiar, junto à Sé Velha de Coimbra, é aqui que, entre as 9h e as 19h, fica ancorado o António Lopes, 85 anos, livro desta história.

Livro? Tendo em conta que são os livros que contêm e contam as histórias, não deveria ser ao contrário? Já vão perceber porquê.

Há 25 anos que o minimercado é inteiramente assegurado por António - tenho que fazer tudo: desde ir aos armazéns para comprar produtos, à descarga e à arrumação - o que implica madrugar para cumprir o horário e ir, depois do trabalho, comprar produtos frescos para o dia seguinte.

Gradualmente, o comércio local sangra em resultado da expansão das grandes superfícies comerciais. Ainda que com produtos à porta, há quem os troque pelos dos hipermercados. Apesar do panorama propagandístico, clichêista e fetichista protagonizado por essas grandes superfícies, Sr. Lopes mantém o negócio local como complemento à reforma que não ultrapassa os 350€ mensais. Os clientes diminuíram milhões por cento! Nos primeiros anos, se eu e a minha esposa não tomássemos o pequeno-almoço antes das 8h, era impossível chegar a horas de dar conta do recado. Havia uma imensidão de clientes, hoje há mais minutos mortos do que de agitação.

 

Há algumas grandes superfícies que têm preços mais acessíveis nalguns produtos.  Mas pecam por duas razões: não têm frutas de qualidade como as que eu tenho aqui e, por vezes, têm um produto cunhado, imagine-se, a 2€ numa prateleira, mas esse produto não vende. Então, o que é que eles fazem? Trocam-no de prateleira e aplicam-lhe o rótulo: Promoção! 2€! 
Durante os meses de Verão, o maior sustentáculo financeiro é a enchente de turistas que chega a Coimbra. Poros e ouvidos sensíveis durante esta hora de conversa permitiram-me confirmá-lo: dos 6 clientes, Thank you, Gracias e Grazie foram expressões mais proferidas do que Obrigado.

Lopes diz que há 30 anos havia mercearias aos molhos, só nesta rua eram 3. Hoje estou cá eu sozinho. Comercialmente e não só: também a trabalhar. Quando, há pouco, me referi ao Sr. Lopes enquanto um dos protagonistas da subsistência do comércio local, socorri-me da metáfora da ancoragem. Por falar nela, quem se desancorou das vestes que a ligavam ao mundo mas continua ancorada na memória é a falecida esposa, Ausenda. Daí que não seja inofensiva a razão de partilhar e destacar a afirmação acima, proferida pelo Sr. Lopes. Mais ou menos à semelhança das prateleiras do minimercado, que também deixaram de ser inofensivas a partir de 2014. Olhar para essas prateleiras, como faz António enquanto fala, conduz a uma inevitável evocação da memória de quem as arrumava até esse ano. Era a Ausenda que as verificava minuciosamente, todos os dias, e me alertava quando era preciso encomendar alguma coisa que estivesse em falta. 

Lopes adere quando, de forma leviana e subentendida, lhe transpareço que não me importo de o ouvir a rebuscar a memória. Então, confessa: Se, na altura em que ela se foi me tivessem perguntado: Queres ir também?, eu teria respondido que sim. Isto assim não faz sentido. Se foi para ir, devíamos ter ido os dois ao mesmo tempo.   

É impossível extrair o percurso vivencial de uma pessoa pelo mero acto de olhar ou passar por ela. Talvez seja extasiante ou asfixiante transgredir a realidade, e pensar como seriam as interacções sociais se cada indivíduo fosse detentor de uma espécie de ecrã público ou chip mental, através do qual nos fosse dado a conhecer o seu percurso.

 

Em Chicago, cidade do estado norte-americano de Illinois, há bibliotecas humanas, onde as pessoas são os livros que se dão a ler, com vista a estimular o diálogo e a compreensão das várias experiências pessoais que dão cor à comunidade. Em Coimbra, nada nos impede de supormos que ela também já existe, basta ir ao minimercado. Não para comprar fruta, mas para ler, sem pagar, o saber do Sr. Lopes (o livro desta história), saindo de saco vazio mas de mente cheia.

 

Se pudermos admitir os 360 graus, a minha vida já deu essa volta. Aos 14 anos, António Lopes ficou órfão e foi viver com os tios. Nessa altura, até rebanho me fizeram cuidar para ganhar dinheiro. Mais tarde, esteve 4 anos na Marinha Armada, em Goa. Sempre que era preciso fazer alguma reparação do navio ia ao Paquistão; depois, surgiu-me a hipótese de trabalhar na Administração Civil, em Angola, e lá fui eu para ganhar mais uns tostões. Convidado a partilhar a memória do período da Guerra Colonial, dispara: É preciso desconstruir a imagem negativa que se tinha e continua a ter da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE); eu, que convivi de perto, digo que foi graças a eles que nos safámos de grandes emboscadas; alguns falavam com informadores nativos, homens que andavam na mata como bichos, e que nos avisavam onde é que o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) tinha os acompamentos, onde tinha as armas escondidas e quando é que iria atacar. Depois vem-lhe à memória que, durante a Segunda Guerra Mundial, o único pão que comia era de cevada, intragável e amargo, com uma textura que parecia sebo porque se colava nos dentes. Hoje, há quem não queira comprar pão porque é de ontem e eu penso para mim: Mal eles sabem que eu já o quis comer com oito dias, mas não tinha. 

 

Depois do 25 de Abril, Lopes foi para a África do Sul e de lá para o Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo. Sempre para trabalhar, sempre com a Ausenda. Algures nos 360 graus, abriram-lhe o capô para colocar uma prótese numa artéria. A volta termina aqui, no minimercado, porque ao contrário do ângulo matemático cujo ponto de partida corresponde ao de chegada, este termina numa ponta bem diferente daquela em que começa, e onde o comerciante confessa: Às vezes, dou por mim a pensar na existência humana. Imagine-se que a idade máxima são 100 anos. Se eu já tenho 85, qualquer dia vou chegar ao fim da picada. E vou continuar a trabalhar? Não. Eu também vou ficando cansado. Por isso, se me aparecer oportunidade, também passo isto a outras mãos. E, se quisermos falar em milagres, eu também não os quero, porque ninguém mos faz.

 

Talvez esta descrença em milagres seja, efectivamente, a psicologicamente mais saudável, assumindo que o sangramento de clientela nestes minimercados locais é uma realidade inelutável. Apesar disso, há no Sr. Lopes um q.b. de visão profética, notada quando fala na esposa. Como sugere o advérbio sempre, imperativo no seu discurso, sempre que olha para as prateleiras que Ausenda ajeitava.

 

 

 

 

Texto e fotos: Ana Rita Rodrigues,
autora do blogue Ininterruptor

 

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