Luís Pedro Madeira: “Diverti-me imenso, tenho imensas saudades de tocar rock.”

Costuma dizer que há quem tenha mesmo sorte na vida, e ele tem. Sou homem, sou branco, saudável, europeu, vivo numa terra com paz, tenho formação superior, água, luz, vacinas, tenho tudo. Luís Pedro Madeira nasceu em Coimbra mas viveu quase sempre em Ceira. Diz que é o melhor de dois mundos, estar ao pé de uma cidade que adora, mas viver numa vila. Tudo lhe foi favorável, até os pais, vizinhos e professores, uma coisa muito estranha que faz com que hoje consiga estar tão à vontade sentado à mesa com gente pobre, como num jantar de cerimónia. Em Ceira, trata toda a gente pelo nome e isso tem um valor incalculável.  

Luís Pedro era um rapaz tímido. Tão tímido que ninguém se lembra dele na escola. A sério. Aprendeu a ler com 4 anos e teve algumas aulas de piano, mas não deu para mais porque o Fungagá da Bicharada era à mesma hora. Teve um professor maravilhoso no Conjunto Escolar Experimental Senhor da Serra, Eduardo Aroso, que quando havia visitas importantes lhe pedia para cantar. Tinha uma voz bonita, muito clarinha, aguda e com vibrato; cantei para o Balsemão, para o Ramalho Eanes, para o Major Vítor Alves (que chegou de helicópetro), e esta coisa de achar que a música me servia para dizer coisas às pessoas veio daí. Aprendeu viola, tocou orgão no coro da igreja, teve aulas de bandolim já no Conservatório, depois contrabaixo, depois baixo, e por esse rio de notas acima. A voz perdeu-a algures num bolso da adolescência - ficou assim, anasalada e desinteressante -, mas ao mesmo tempo que tentou estudar Direito insistiu na música e saltou do colo dos Seara Nova para os (a)braços do Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC).

O Direito não aconteceu, mas no GEFAC ficou 18 anos. Aprendi a gostar da música tradicional mas também olhar a arte de forma mais clara e mais desassombrada. Era o início dos anos 1990 e Luís Pedro Madeira tinha 20 e tal anos quando começou a trabalhar. Foi designer gráfico, vendedor, formador, passou pela Escola Superior de Educação, e, um dia, pela mão do colega Gonçalo Rui Santos, vai parar a um ensaio dos Belle Chase Hotel. Andava eu a estudar baixo - que é o que gosto mais de tocar, apesar de ninguém me convidar -, ouvi-os, adorei as músicas e fiz uma coisa que poucas vezes fiz na vida, que foi oferecer os meus serviços numa noite de copos. Um ensaio depois, fazia parte da banda, nos teclados. Diverti-me imenso, tenho imensas saudades de tocar rock.

Rock, fado, pop, electrónica, música tradicional portuguesa, instalações sonoras, música para crianças, música para filmes, música para teatro - o céu é o limite. Ou então a bateria do Mac. São coisas completamente diferentes mas têm fios condutores, eu gosto de canções, gosto de melodias, depois há outro lado que é o de criação de ambientes, um trabalho de desenho de micro paisagens sonoras, de com o som fazeres o cenário para determinadas coisas; com a música consegui comunicar o que não se consegue já dizer com a imagem, ou salientar, ou contrastar com o que está na imagem. Problemas só mesmo quando tem de tirar fotografias ou aparecer em vídeoclipes - as partes mais terríveis da minha vida de músico

Em casa, os discos de Luís Pedro Madeira estão organizados em dois grupos: autores e bandas sonoras. Os autores estão por ordem cronológica, mas não há cá ordenação por género. Detesto a malta que diz que gosta de jazz, é isso e o termo músicas do mundo. Como se fosse só um, como se não fossem todas. Professor de Educação Musical no Jardim Escola João de Deus, diverte-se com os pequeninos e não acredita em talento nem inspiração, só em trabalho. Trabalho e integração, solidariedade, ensinou-lhe o GEFAC. Tento fazer o mesmo com os meus alunos, não uso solistas, no meu coro não há os que cantam bem à frente e os que cantam mal lá atrás; toda a gente pode fazer arte, agora é preciso conhecer coisas, ninguém cria nada a partir do nada. Um artista é alguém que faz arte e a parte mais interessante é a parte em que comunicas com as pessoas.

Actor, contador de histórias, ilustrador, Luís tem uns quanto livros para crianças na gaveta e uma incursão a Oriente adiada por causa da (outra) ocupação, a de pai militante. Coimbra é um lição. Mas também é um work in progress. Eu sou o típico português que digo mal da minha cidade mas odeio ouvir alguém dizer mal da minha cidade; o que digo sempre é que é uma pena estar tão maltratada e ser tão mal amada, torná-la viva outra vez era absolutamente essencial; fixar cérebros, criar públicos, reavivar espaços verdes, criar um pólo criador, um centro criativo. Na arte e na música, o compositor diz há pouca coisa para a primeira infância e para a adolescência, além do problema grave que é a malta que acha sempre que vai mudar o mundo quando faz alguma coisa. Eu digo-lhes: faz só música.

Para Luís Pedro Madeira a criação artística é um acto de escolhas e, como na infância, é importante ouvir um não. Perde-se muito tempo quando se podia dizer directamente: isso é uma merda. Quando se vê muita coisa perde-se algum pudor, mas também é possível ter surpresas. O trabalho de espectador é um trabalho de mineiro, tens de apanhar secas incríveis e de repente há um espectáculo que muda a tua vida, achas a pepita. Não sabe bem quantas coisas vê por ano, mas garante que mesmo que não goste nunca sai da sala a meio. Tenho uma facilidade imensa de fazer sestas. Gostava era que os portugueses tivessem mais paciência. Vemos muito poucas coisas e por causa disso cada espectáculo tem de ser o espectáculo, e se aquilo aborrece pensam: Ai, nunca mais lá vou. Ele vai. Como quem vai à cidade todos os dias pela primeira vez. Há um mês fui à torre da Universidade, nunca tinha subido lá acima, acreditas? Acreditamos.  

© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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Rôla
25.07.2019

Belo texto! Escrever bem também é arte. E não tem de ter 200 páginas e lombada.