João Silva: “Falta quem fale bem sobre o que se passa nesta cidade.”

Só fazes bom trabalho se fores feliz, não é? João Silva, Jorri para os amigos, detesta ser fotografado e leva trabalho para casa, mas também leva a casa para o trabalho. Todos os dias. Não como o pai, o pai, quando ele era pequeno, tocava guitarra de Coimbra a toda a hora mas era só porque gostava de dar música aos amigos e à família. Ele e os irmãos, todos tocavam, tinha sempre a guitarra no porta bagagens. Também havia sempre música em casa, sobretudo portuguesa e de intervenção. O pai esteve na guerra uma porrada de anos.

Jorri nasceu em Coimbra, mas cresceu em Alcobaça. Coimbra era onde ia passar férias, onde brincava no Portugal dos Pequenitos e almoçava no restaurante do tio na zona de Coimbra B enquanto ouvia as histórias do pai sobre os grupos de fado, a noite e a Académica. Em Alcobaça, ainda não tinha idade para conduzir e já ia ao Bar Ben, de música ao vivo. Passávamos os fins de semana lá enfiados, íamos ao desconhecido e a maior parte dos meus amigos tinha bandas de garagem. A primeira dele chamava-se Mary's Comet Book. Começou por tocar baixo. Nunca ninguém quer ficar com o baixo. Tocavam originais e as influências andavam ali pelos Pixies e os The Cure. Também gostava de Sonic Youth, mais tarde dos Smashing Pumpkins, depois comecei a procurar coisas mais traquilas como Nick Cave, Leonard Cohen e Tom Waits.

Quando não era o baixo, é normal ver Jorri com uma bola de basquetebol ou de ténis na mão. Adorava desporto. Tanto que começou por fazer Química na Universidade de Coimbra mas depois mudou para Treino de Alto Rendimento e depois Condição Física e Saúde. Entretanto encontrou João Rui e o primeiro ensaio da banda blues folk que criaram, A Jigsaw (da A Jigsaw You dos dEUS), foi a 2 de Dezembro de 1999. Duas semanas depois de ter começado a namorar com a actual mulher, Mónica. Dois casamentos para a vida (ou, pelo menos, metade dela).

O músico nunca aprendeu a tocar guitarra de Coimbra. A minha ideia de tocar um instrumento nunca foi dominá-lo ao ponto de ser um super instrumentista e estudar o instrumento, é mais usar o instrumento como ferramenta para criar, sabendo as limitações que tenho, mas prefiro investir tempo em criar a minha linguagem do que em aprender a linguagem do instrumento. Basta verem a quantidade de coisas que toca nos vídeos da banda. Façam isso e depois imaginem-no a fazer cursos de coisas como Massagem e Medicina Tradicional Chinesa, e a trabalhar como fisioterapeuta. Houve uma fase em que andava tipo saltimbanco pelo país fora, numa semana às vezes fazia 2.500 quilómetros. Mas deixou-se disso. Criou a editora Rewind Music e, em 2010, as digressões de A Jigsaw escalaram. Demos 210 ou 220 concertos, no ano a seguir uns 150. Se não estava em palco estava a tratar da agenda e da logística, ou da família. A minha primeira filha nasceu durante uma dessas tours. 

A Jigsaw apareceu numa altura de ressurgimento de bandas em Coimbra, pós Tédio Boys, com bandas como Belle Chase Hotel e os Bunnyranch. Não foi fácil entrar no grupo de Coimbra porque não era de cá e não fazíamos o estilo. Mas a história foi-se fazendo, várias colaborações, vários palcos depois até chegou a dar duas mãozinhas aos Parkinsons. Coisas que acontecem naturalmente. Coimbra tem todas as hipóteses de ser uma cidade melhor, tem um potencial tremendo, mas não podemos estar só à espera que pessoas de outros sítios venham fazer; é preciso investimento e visões diferentes, mas nós aqui também temos de fazer a nossa parte para esta cidade ser melhor. E, sem dúvida, acho que falta quem fale bem sobre o que se passa nesta cidade, falta as pessoas conhecerem-se melhor porque quando acontece de certeza que surgem projectos. 

Há pessoas que têm adegas, salas de snooker e ginásios em casa. Jorri tem um estúdio que é também agência e editora musical. Pela Blue House passam, actualmente, 18 bandas de Coimbra, para além de passearem os 3 filhos do músico, produtor e compositor. A música faz parte do crescimento deles, têm a oportunidade de crescer num sítio onde há produção artística e isso é impagável, há todo um mundo que lhes é aberto e não é só de instrumentos, que eles se calhar nunca vão aprender, mas vão estar sensibilizados para uma área artística onde entram os fotógrafos, os designers, etc. Ainda são pequenos mas acabam por perceber, pelo número de horas de trabalho, que são áreas que exigem muita dedicação. Com a vantagem de o pai estar sempre por perto, e um monte de tios emprestados. O Calhau é o Bacalhau.

Jorri acha que falta um clube de rock em Coimbra, mas gosta muito do Salão Brazil, por exemplo. Foi lá um dos melhores concertos que se lembra de dar. O Jazz ao Centro Clube e o Zé Miguel têm feito um trabalho excepcional, tornou-se um sítio completamente imprescindível para a cultura de Coimbra, criou público e hábitos de as pessoas irem ver música ao vivo dos mais diferentes estilos. Se pudesse agarrar e trazer um ídolo para colaborar? Tom Waits, que ainda por cima também faz cinema. Jorri também já trabalhou com realizadores e encenadores nacionais, inclusive de teatro de marionetas. Jorri faz muito, mas aparece pouco. Diz que nunca poderia ser um frontman, mas quando lhe perguntam o que é que Coimbra tem para ter tantas bandas e tantos músicos ele diz que uma característica é o carisma dos vocalistas. Do Afonso (Parkinsons), do Kaló (The Twist Connection), do Paulo Furtado (The Legendary Tigerman), do Jerónimo (Birds are Indie). Under the trees, where I buried my eyes, there was gold.

 

© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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